Capítulo 10

Uma ambulância dos bombeiros tinha acabado de chegar e a menina já estava recebendo os primeiros socorros; uma médica de plantão que possuía a patente de tenente estava agora conversando com Fernando a respeito da situação da jovem que fora socorrida.


_ Ela está bem. _ Disse a doutora; continuando._ A garota perdeu sangue, e vamos levá-la para o Hospital Geral de Nova Iguaçu, onde ela ficara sob cuidados médicos e em observação. Lá também será feito o contato com os parentes para fim de aviso e informação.

_ Ótimo.

Fernando apertava os olhos para espantar o sono.

_ Veja, informe aqueles garotos para qual hospital levarão a menina, eles parecem conhecê-la.

Fernando apontou para os dois jovens que o haviam ajudado. A doutora concordou com um movimento de cabeça e em seguida oi falar com os jovens. Depois o policial se despediu e resolveu finalmente voltar para casa. Queria sair do pesadelo, mas parecia cada vez mais dentro dele.

Na manhã seguinte, foi acordado pelo telefone tocando incansavelmente no chão junto à poltrona da sala onde dormira; desde que sua casa fora invadida pelas criaturas de Gabriel, ele não teve mais coragem para se deitar na cama do quarto que ele próprio e sua esposa Sarah batalharam tanto para ter.

Fernando atendeu ao telefone ainda sonolento e ouviu uma voz conhecida; o sargento Magalhães, que também trabalhava no 20º Batalhão de Polícia de Mesquita, mas algo estava errado com a voz do amigo:

_ Fernando._ Começou Magalhães decidido a não fazer rodeios._ Encontramos seu parceiro ferido.

Uma ponta de inquietação atravessou a mente de Fernando.

_ Marco... O que houve com ele? Como ele está?

_ Não se preocupe, ele está bem; somente com algumas escoriações além de três costelas quebradas do lado direito e alguns hematomas pelo corpo. A propósito, desde a hora em que o cabo Marco acordou que ele quer falar com você; disse que é sobre aquilo que você disse a ele ontem, segundo ele tudo é verdade.

Fernando não sabia o que pensar; tampouco o que falar.

_ No que vocês se meteram?_ Perguntou o outro policial._ Andaram acertando contas por aí?

_Negativo. É coisa nossa, mas está tudo sob controle._mentiu.

_ Mesmo?

_Mesmo.

Na polícia havia um código velado de não fazer perguntas, e por isso o sargento sabia que os demais homens que tivessem contato com Marco nada perguntariam além do que o jovem quisesse revelar, ou seja, Marco manteria o segredo até seu parceiro chegar. Os demais soldados ficariam satisfeitos com a versão dos fatos apresentada pelo cabo e tomariam aquilo como verdade absoluta.

Fernando já estava de pé sem nenhum traço de sono na face e enquanto ouvia o colega de profissão falando ao telefone checou o relógio vendo que já eram sete da manhã, estava atrasado.

_ Já estou indo pra aí. _ Disse batendo rapidamente o telefone.

Menos de uma hora depois, o jovem sargento já se encontrava no batalhão devidamente uniformizado e pronto para mais um dia de trabalho embora tivesse dormido poucas horas essa madrugada esperando por um novo ataque de Gabriel que não acontecera; ou pelo menos não com ele.

_Sargento._ Disse Marco ao ver seu parceiro entrar na enfermaria. Seus olhos lacrimejaram de imediato enquanto ele continuava a falar.

_ Eu os vi; vi todos eles exatamente como você disse...

Fernando interrompeu o amigo e pediu que o soldado enfermeiro que ali estava os deixassem a sós por um tempo; depois que o outro saiu, Fernando puxou uma cadeira, sentou-se ao lado da cama onde o amigo estava e o observou por alguns segundos. Marco estava coberto por ataduras e esparadrapos, pelos braços, pernas e o tronco onde o golpe mais forte tinha sido desferido; algumas manchas roxas eram visíveis, uma no olho esquerdo resultado de um provável soco e outra, a que chamou mais atenção, no lado esquerdo do pescoço.

_ Quem você viu?

Marco sorriu débil e histericamente enquanto as lágrimas ainda estavam aprisionadas em seus olhos.

_ Eu vi os zumbis ou carniçais, exatamente como você descreveu; eu fui atacado por dois deles.

_ Quando? Onde?

Marco se contorceu tentando acomodar melhor o corpo no leito da enfermaria; depois começou o relato contando como havia encontrado Gabriel e os seus zumbis, contou como Gabriel tinha lido seus pensamentos e a dor de cabeça que esse processo causava.

_ Eu estava apontando a arma para o peito de Gabriel quando fui arremessado com um soco; você acredita? Um soco! Bati contra a porta da padaria sentindo aquela tenebrosa dor das costelas quebradas e ao levantar a visão procurando quem havia me atingido, vi as criaturas que você descreveu; Gabriel olhava com um ar feliz no rosto, rastejei a procura da arma que tinha deixado cair, mas quando me dei conta, Gabriel já a estava segurando. Eu nem tinha visto ele se mexer.

Fernando acompanhava o relato do amigo palavra por palavra, letra por letra em um misto de fascinação e temeridade.

_ Não entendo. _ Iniciou Fernando._ Acho que esse monstro atacou uma menina ontem na praça, eu ajudei a socorrê-la. Talvez ele queira chamar atenção; chamar minha atenção.

_ Por que você acha que foi ele que atacou essa tal garota?

Fernando olhou fixamente para as marcas no lado esquerdo do pescoço de Marco.

_ Porque ela tinha uma marca exatamente como essa que está no seu pescoço.

No primeiro instante, Marco se espantou; depois ele passou levemente as pontas dos dedos da mão esquerda no local para averiguar. Finalmente as lágrimas abandonam os olhos do policial e correram pelo seu rosto; Marco sentia como se estivesse caindo em um poço sem fundo.

_ O que esse monstro fez comigo? _ Perguntou aos prantos.

Por mais que Marco tentasse, nunca se lembraria o que acontecera na última noite; nunca se lembraria que não só havia sido surrado pelos zumbis, como também, tomado pelo desespero extremo tentara fugir correndo, ou melhor, rastejando pelo calçamento e que Gabriel movimentou-se novamente como o vento, mais rápido que seus olhos e usara sua própria arma para atirar no chão próximo a Marco; nunca se lembraria que um dos zumbis o ergueu do chão com uma única mão segurando-o pela cabeça, apertando tão forte que ele pensou que os dedos da criatura estivessem penetrando seu crânio; nunca se lembraria dos olhos negros do vampiro Gabriel transformando-se em olhos incandescentes, vermelhos e brilhantes como brasas bem diante dos seus olhos mortais educados para nunca acreditar no sobrenatural; e finalmente, Marco nunca se lembraria que o vampiro cravara as presas em seu pescoço até que ele sentisse o êxtase e o horror daquela experiência e desmaiasse. Tudo isso sua mente tinha apagado devido ao grande choque que sofreu, mas ele se lembrava de ter escutando os sussurros de Gabriel em seu ouvido.

_ Avise a seu amigo para sair do meu rastro e nunca cruzar o meu caminho, ou ele vai acabar como o padre._ Disse Marco soluçando um pouco por causa do choro preso na garganta.

Fernando não entendeu a frase e encarou o amigo arqueando a sobrancelha direita.

_ O que significa isso?

_ É só o que lembro, acho que aquele monstro sussurrou isso no meu ouvido quando eu perdi os sentidos. É um recado para você.

O Sargento coçou a cabeça sem saber o que disser ou pensar. Sua mente estava confusa com tudo aquilo; dias atrás ele tinha uma família, Sarah e Paula eram as coisas mais preciosas que possuía e agora elas estavam longe; sua profissão era arriscada, mas podia ser feita, afinal o crime no Rio de Janeiro é organizado, mas os criminosos são apenas pessoas comuns, podiam ser presos ou mortos. Mas por um capricho do destino ou da natureza sua vida tinha cruzado com a existência de um assassino pior do que todos os outros, um monstro que não podia ser preso, ou levado à justiça, uma criatura que não temia, e sim, era temido.

_ Escuta cabo. _ Embora Marco e Fernando já se conhecessem há algum tempo e tivesse um grau de amizade que os permitia mesmo quando em serviço usar seus nomes, algumas vezes eles se tratavam pela patente._ As coisas que nós sabemos e vimos ficam somente entre nós e o padre Bruno com quem ainda preciso tirar uma ou outra dúvida, mais ninguém pode saber, para o próprio bem das pessoas que nos cercam.

Marco concordou de pronto, já controlado e não mais chorando, impressionado com a capacidade de seu amigo em não se abalar com toda essa situação; como sempre Fernando tentava ser uma rocha, tentava vencer o medo que a cada novo fato tornava-se maior e mais medonho dentro dele.

Nesse momento a porta da enfermaria se abriu e por ela entraram um médico da polícia e o enfermeiro que antes já estava com Marco; Fernando cumprimentou o doutor e depois disse ao seu parceiro inutilizado temporariamente que já era hora de sair em campo, precisava continuar o trabalho, e no fim do dia provavelmente voltasse para vê-lo novamente.

O sargento deixou o quarto e antes de pegar a viatura no pátio de estacionamentos do quartel, ele dirigiu-se ao comando e fez uma requisição para que uma rádio-patrulha fosse deixada de plantão na praça central para o próximo domingo, “de olho” nos shows, nas festas e nos acontecimentos que envolvessem a passarela do rock e seus freqüentadores. Não sabia se sua petição seria levada em consideração, mas era seu dever tentar.

Depois de todos os procedimentos para consumar a requisição, Fernando finalmente foi para ao pátio, entrou na viatura sozinho, porque todo o efetivo do batalhão já estava em campo e na verdade estavam operando com um pequeno déficit de pessoal, dessa forma pelo menos aquele dia ele teria de fazer sua patrulha só. Dentro da viatura ele ficou sentado frente ao volante encarando a si mesmo pelo espelho retrovisor durante alguns minutos, depois ele ligou o carro e deixou o B.P.M. Dirigindo pelas ruas de Mesquita, os pensamentos do sargento giravam como tornados, e as coisas que vira e ouvira nos últimos dias voltavam em poderosas ondas de memória que sumiam no instante seguinte; seu coração batia em um ritmo diferente agora e no fundo ele sabia que isso tudo estava perto do fim, para o bem ou para o mal aquilo terminaria. O que ele não sabia é que seria bem mais rápido do que estava esperando; certas potestades tinham pressa em ver quem seria vitorioso nesse confronto. O homem ou o monstro.

A manhã fluiu sem maiores problemas, mas por volta das duas horas da tarde Fernando estava concluindo sua ronda a pé, mesmo não sendo exigido que fosse feita, na verdade não era aconselhado que um único policial andasse só pelas ruas, mas mesmo assim ele a fazia; andando pela rua Emílio Guadagny que é uma das principais ruas da cidade; dirigindo-se para onde seu amigo e parceiro fora emboscado na madrugada passada.

Fernando viu um homem; um senhor, andando na calçada do outro lado da rua, e esse homem olhava fixamente para ele; era o mesmo indivíduo que o tinha observado na noite passada na praça surgindo e sumindo atrás das coisas como um fantasma.

O policial ainda estava um pouco abalado com ataque sofrido pelo parceiro e tomou uma atitude impensada; rapidamente atravessou a rua sem nem prestar a devida atenção nos carros e abordou a pessoa desconhecida.

_ Por que você está me observando? Me seguindo? Foi o mais direto que possível.

O senhor o encarou com os olhos mais comuns e sem brilho que ele já havia visto; era um indivíduo da terceira idade, aparentemente entre sessenta e setenta anos, franzino e sem nenhum traço marcante na face além das muitas rugas, porém usava um brinco na orelha esquerda que parecia ouro cravejado com algumas pedras preciosas tão pequenas que eram imperceptíveis a longa distância. Aquele brinco destoava bastante da imagem comum daquele homem.

_Estou de olho em você já faz um bom tempo. Iniciou o homem calmamente com um leve sotaque estrangeiro. _ continuou:

_Estive no cemitério quando você e seu parceiro foram conversar com o coveiro Jonas Ambrosio; e estive na praça domingo à noite esperando pelo encontro entre vocês e Gabriel._ Seu sotaque ora parecia francês, ora italiano.

A paciência do policial já estava se esgotando; afinal esse seria mais um a dizer um monte de coisas inúteis e sem sentido que provavelmente não ajudaria em nada para salvar não só a sua vida como também a de Marco.

_ “Desembucha” de uma vez o que você tiver pra falar e depois vá embora.

_ Você tem uma escolha agora. _ Iniciou o idoso_ Aceita o que tenho para você e se agarra ao último fio de chance para permanecer vivo; ou não me dá ouvidos e fica jogado à própria sorte contra esse monstro.

Fernando ponderou alguns segundos esperando o resultado de uma batalha em seu íntimo entre razão e emoção; finalmente e felizmente seu lado racional prevaleceu sobre seu “eu” impetuoso e ele resolveu ouvir. O que tinha a perder?

_Venha, vamos conversar na minha viatura; eu estacionei próximo daqui.

Eles se dirigiam para o carro do policial que ficou parado a dois quarteirões de onde estavam, num cruzamento perto de uma sorveteria.

Fernando andava tentando imaginar o que o outro teria para dizer, mas no caminho nenhum dos dois pronunciou palavra alguma; ele ia à frente seguido de perto pelo senhor do brinco de ouro. Ao chegarem, o sargento recostou-se no capô do automóvel e cruzou os braços olhando fixamente para o outro.

_ Pronto, aqui estamos; pode começar a falar.

_ Meu nome é Erom Andreas Chagas e nessas circunstâncias acho que sou o único que pode ajudá-lo.

Fernando umedeceu os lábios com a língua e perguntou:

_Sobre o quê?

_Sobre o homem, o monstro, que você está procurando.

_ A menos que você saiba onde encontrar Gabriel e um jeito de matá-lo, vencê-lo ou inutilizá-lo não quero saber do resto.

_ Não é tão simples assim; Deus sabe que não é; ouça com atenção, matar Gabriel não resolve o problema.

O policial estreitou os olhos tentando parecer mais confiante do que realmente era.

_ Então o que resolve?

_ Só matar Gabriel não resolveria nada, seria preciso impedir que outros como ele viessem para cá e infestassem a cidade.

Andreas se interrompeu no meio do movimento de pronunciar a próxima palavra, mas Fernando percebeu.

_Continue. Como fazemos isso? Como impedimos que outros como ele venham para Mesquita?

Erom esfregou as mãos levemente e prosseguiu:

_ É tarde demais para isso.

_ O quê? _ O policial pensou não ter ouvido direito.

_ Exatamente isso, já é tarde demais; eles já estão aqui e alguns são bem mais antigos do que Gabriel. Eu já vi alguns deles.

Fernando desencostou do capô, atordoado com a revelação; sua mente recusava-se a crer que outros como Gabriel andassem pelas noites de Mesquita e muito menos que existissem criaturas mais antigas.

_ Mas o que eles querem aqui?

_ Nada; eles são uma praga, existem onde nós existimos porque somos um elo na cadeia de existência.

A mente de um homem nunca está pronta para receber revelações desse calibre, e mesmo tendo visto os zumbis que eram prova mais do que suficiente e sentindo a agilidade e força acima do normal deles; Fernando ignorava a verdade que estava sendo exposta a seus olhos.

Erom recomeçou:

_ Gabriel tem aproximadamente cem anos, talvez um pouco mais; como você já deve ter sido informado; só que ele é bem mais forte do que deveria ser com essa idade; por isso ele está sempre desafiando as “sociedades mortais e imortais” como ele mesmo as chama. Ele se julga muito mais superior que as pessoas e não compartilha da cautela que seus irmãos e irmãs têm.

_O que tudo isso significa?_ A mente do policial estava pronta para entrar em parafuso.

_Eu venho perseguindo esses monstros há muito tempo, e este em particular há trinta anos; já que seu caminho se cruzou com o dele dessa vez, é mais do que justo que eu lhe forneça mínimas condições para lutar.

Depois do primeiro momento no qual Fernando estava abismado, ele respirou bem fundo e tentou colocar as idéias em ordem para finalmente formular uma pergunta:

_ Que condições? Do que você esta falando?

_ Meu carro está logo ali. _ Disse Erom apontando mais à frente; e concluiu. _ Vamos buscar os brinquedos que vou te dar; estão nele.

Na direção apontada por Erom não havia carro algum, exceto um Chevette antigo e preto estacionado junto ao meio fio.

_ Aquele Chevette? _ Duvidou o policial.

_ Não julgue pela aparência; além do mais, meus apetrechos de caça estão dentro dele. Vamos logo.

_De caça?

_Exato.

Dessa vez Erom seguiu na frente e o sargento o acompanhou de perto fazendo perguntas.

_ Acompanhe meu raciocínio. _disse Fernando._ Se você tem as armas, tem o conhecimento e a experiência. O que te impede de continuar na luta? Quero dizer, pôr um fim nele?

O senhor se virou ficando frente a frente com o policial e retirando a camiseta revelou uma dezena de brutais marcas e cicatrizes por toda a extensão do seu tronco e tórax; desde marcas provavelmente feitas por disparos de arma de fogo, perfurações e cortes produzidos por lâminas, passando por marcas profundas não totalmente curadas que pareciam ter sido criadas por garras, ou unhas extremamente afiadas, como se Erom tivesse se engalfinhado com um leão ou um tigre; e a maior de todas as marcas; uma cicatriz horizontal que cortava seu abdômen de uma extremidade a outra, como se a pessoa ou criatura que o infligiu tal dano estivesse usando uma espada ou sabre.

_ Me falta condição física para continuar lutando.

Ao ver as marcas Fernando levou a mão direita à boca; a expressão mista de repulsa e pavor estavam agora nitidamente estampadas no rosto do policial. Era impressionante.

_ Lutar contra mal, com seus servos noturnos e suas sociedades secretas durante anos não é um passeio no parque como vocês costumam dizer aqui no Brasil garoto; cada caçada que tive foi me debilitando até que cheguei a esse ponto. E acredite quando digo que forcei a barra, fiz mais do que meu corpo podia suportar.

Fernando retirou a mão lentamente da boca e murmurou:

_ Sinto muito?

Erom continuou falando:

_ Há uma semana eu estive em um hospital, e o médico após ver meus exames disse que eu não poderia fazer nenhum tipo de esforço físico demasiado; a explicação que ele deu foi que meus órgãos estão sem consistência.

Ambos caminharam mais um pouco chegando então no Chevette preto.

Erom retirou do bolso da calça um molho de chaves cromadas e usou uma delas para abrir a porta do veículo; depois afastando o banco do motorista à frente ele pegou no acento traseiro uma grande mala preta; fechou a porta e colocou cuidadosamente a mala sobre o capô dianteiro do carro. Enquanto isso Fernando se restringia a observar. Erom abriu a mala destrancando duas travas e foram revelados os apetrechos de caça usados por Andreas Chagas. Fernando visualizou uma estaca de ferro e outra de madeira, um livro de capa dura e vermelha, uma pesada mareta de tamanho reduzido para martelar as estacas, dois frascos do que parecia ser essência de alho concentrada, uma cruz e uma espécie de antiga granada de uso militar.

_ Uma granada! _ espantou-se.

_ Se você for atacado e tudo o mais falhar, então saberá o que fazer com ela. _ rebateu Erom.

_ Creio que todos os outros objetos você já saiba utilizar.

Fernando olhou para o livro vermelho.

_ Exceto o livro. – ele disse.

_Esse livro pertencia ao padre Giovanne Poggimartro; é uma bíblia escrita toda em italiano, baseada numa tradução do século XVIII de Antonio Martini, e acredite; nas mãos certas essa é a mais poderosa das armas; com a palavra certa é capaz de mover montanhas. Literalmente.

Fernando tomou a bíblia nas mãos e começou a folheá-la, mas não era culto o suficiente para entender o que ali estava escrito, para seu espanto o livro continhas figuras de anjos, demônios e santos; muitas folhas soltas, com o que provavelmente fosse a caligrafia de Giovanne e alguns trechos sublinhados. Fechando a bíblia, o sargento tornou a olhar para o senhor Erom que sorria debilmente.

_ O que foi?

_Nada. _respondeu Erom tornando a abrir a porta do carro.

_ É só que vendo você folhear a bíblia, eu lembrei de mim mesmo quando comecei com essa loucura toda. Infelizmente eu comecei por vingança e nunca fui crédulo o suficiente para retirar o poder contido nestas palavras; sou um supersticioso.

Fernando recolocou a bíblia na mala, fechando e retirando-a de cima do capô do velho Chevette preto enquanto observava Erom entrando no veículo e batendo a porta.

_ Eu já ia me esquecendo; tome isso também. _ disse o senhor retirando seu magnífico brinco de ouro cravejado com pedras preciosas e estendendo a mão pela janela para que o sargento o pegasse.

_ Para que eu vou querer esse brinco? Não tenho orelhas furadas.

_ Ele salvou a minha vida várias vezes, e talvez salve a sua também.

_ Mas minhas orelhas não são furadas._disse imaginando como um simples brinco poderia salvar a vida de uma pessoa. O mundo parecia ter enlouquecido.

_ Então faça um cordão de barbante, ou use como broche na gola do uniforme; dê um jeito de mantê-lo sempre próximo a sua cabeça.

_ Por quê?

Já ficando impaciente Erom respondeu:

_ Rezam as lendas que brincos como esse são capazes de impedir que essas criaturas vejam seus pensamentos ou localizem você. Como eu disse, sou um supersticioso.

Logo após dizer isso Erom ligou o carro e saiu em disparada, não dando tempo para Fernando formular novas perguntas. O Chevette barulhento saiu fazendo fumaça.

Com a fuga de Andreas Chagas o policial voltou para a sua viatura e colocou a mala no banco do carona; sentando no carro ele refletiu pela milésima vez em tudo que estava acontecendo e um sentimento ainda maior de que cada pessoa da cidade estava correndo risco de vida o atingiu, afinal, aparentemente Gabriel não era criterioso na escolha de suas presas e gostava de chamar atenção; possivelmente começaria a se alimentar de forma mais brutal, atacando suas vítimas com muito mais requinte de crueldade; contra isso a polícia não conseguiria lutar, não seria possível abafar se pessoas começassem a desaparecer e os moradores logo estariam em pânico. Gabriel teria toda atenção voltada para ele, ou melhor, para seus feitos visto que ninguém o conhecia exceto o padre Bruno, Erom Andréas Chagas e agora Marco e o próprio Fernando.

O policial deu a partida no motor de sua Patrulha; seguiu na rua Emílio Guadagny até a praça de Edson Passos, que é um dos bairros de Mesquita e faz fronteira com o município de Nilópolis.

Depois retornou pela mesma rua sempre dirigindo lentamente, vasculhando as ruas como se espera que um policial faça, mas nada mais de anormal se apresentou nas horas que se seguiram e Fernando pôde terminar mais um dia de trabalho e voltar para o batalhão.

Mas ao cair da noite novas surpresas se apresentariam.