Capítulo 14

Depois de uma longa conversa com Marco na enfermaria do batalhão de polícia, Fernando estava entrando em seu carro; ele tinha revelado ao amigo todos os detalhes de seu encontro com o “caçador” Erom Andreas Chagas e tudo que aconteceu. A seguir tinha revelado seu intento de ir pessoalmente ao endereço que descobriu nas anotações do padre morto. Tudo aquilo estava fazendo com que sua cabeça queimasse, e Fernando não conseguia manter uma linha de raciocínio lógico.


Todo o relato tinha consumido muito tempo e já estava ficando tarde, mas Fernando ia para sua casa mesmo sem considerá-la mais um lugar seguro. Não tinha alternativa.

_ Como vou enfrentar esse homem, ou o que quer que ele seja?_ Pensava Fernando consigo mesmo recusando-se em admitir a verdadeira natureza da criatura.

Após entrar no carro, saiu do quartel e dirigiu por algumas quadras, passando pelo viaduto que liga as duas metades de Mesquita e pela frente da boate citada como um dos endereços nas anotações do padre.

De repente, após descer o viaduto e entrar na primeira rua à direita um carro em alta velocidade atingiu o Tempra de Fernando; o impacto fora com tanta violência que o Tempra girou no próprio eixo bem no meio da rua e depois bateu com a frente que já estava seriamente destruída no muro de uma casa; no momento da batida, o rosto de Fernando se chocou contra o volante ferozmente, ferindo novamente sua testa, e um pequeno filete de sangue escorria do ferimento passando pelo olho esquerdo dele.

Fernando saiu imediatamente do carro, tentando se livrar da tonteira causada pelo choque; teve de se segurar à porta do carro no primeiro minuto para não cair; não havia pessoas passando por ali, a rua estava deserta; o mundo estava rodando, ele iria perder os sentidos e cair, ou vomitaria, mas segurou a porta do automóvel com ainda mais força; com a força que lhe havia restado, arregalando os olhos e piscando varias vezes Fernando tentava se manter acordado. Depois de um ou dois minutos a cabeça dele parou de rodar e finalmente conseguiu se aprumar.

Fernando procurou o outro automóvel que o tinha atingido, afinal o seu condutor deveria estar tão mal quanto ele, ou pior; mas não havia outro carro, as coisas novamente não faziam sentido algum até que olhando para o próprio carro o sargento começou a entender o acidente no qual se envolveu. Sobre o capô do veículo jazia o corpo de Erom Andreas Chagas totalmente inerte, certamente não havia sobrevivido ao golpe do veículo contra seu corpo.

A primeira reação do policial ao ver o corpo sobre o carro foi verificar o horário olhando em seu relógio de pulso; 21:37 da noite.

Em seguida olhou ao redor novamente, Não havia ninguém por perto e ele não entendia como podia ter atropelado Erom, afinal ele não estava na via um minuto atrás.

_O que foi que eu fiz? _ Perguntou para si mesmo.

Fernando passou a mão sobre o ferimento na testa retirando um pouco de sangue que escorria dele.

Sacando do bolso o telefone celular ele atravessou a rua, fez a ligação e pediu o auxílio de uma ambulância e um carro patrulha, mas ambos ainda demorariam alguns minutos para chegar, portanto Fernando teria de aguardar no local como era o procedimento padrão, além do mais, talvez ele mesmo precisasse de cuidados médicos.

A casa a qual pertencia o muro onde bateu o Tempra parecia estar vazia visto que ninguém saiu para ver o que tinha acontecido; e a parte do muro onde a frente do carro se chocou não estava destruída, ao contrário do veículo, teria de gastar uma boa quantia para concertar toda a lataria e a pintura.

O policial foi até o corpo de Erom que estava preso entre a frente destruída do carro e o muro; tentou checar se havia pulso, mas já era tarde demais para o outro. Aquilo abalou ainda mais o estado psicológico dele.

Fernando já sabia, ou pelo menos imaginava que este acidente tinha sido causado por um motivo, embora não soubesse qual; e também já sabia quem o causara ou já imaginava. Enquanto andava de um lado para o outro da rua esperando pela ambulância que traria o médico para ver se o velho Erom ainda tinha chance de continuar vivendo, mesmo sabendo no fundo de si que o antigo caçador estava morto; Fernando não percebeu a figura sombria parada ao lado do automóvel, envolta, em roupas pretas como se a própria deusa da noite o tivesse encoberto temporariamente com sua mão.

O homem com cabelos ondulados e extremamente negros um pouco abaixo dos ombros e olhos penetrantes, poderosos e vitrificados o encarava; o sargento não tinha visto ele chegando, esse estranho não tinha feito nenhum barulho ao se aproximar, se é que tinha se aproximado como os homens fazem e não voando ou movido-se como sombras pelos cantos escuros da rua exatamente como fazem os fantasmas nos filmes ou os espíritos da noite.

O policial já sabia quem era o homem, mas antes de pronunciar qualquer palavra, ficou paralisado e com o coração acelerado ao perceber um detalhe da aparência da criatura, o detalhe que sempre chamara a atenção dos mortais, o detalhe que denunciava que aquele ser não pertencia ao lado da luz; a palidez incomum no rosto do monstro ali parado, parecendo uma estátua de mármore erguida bem no centro da rua. Ele piscou e Fernando como que acordando de um transe finalmente conseguiu reunir as idéias e falar:

_ Finalmente._ Murmurou levando a mão direita até sua arma colocada na cintura.

O homem vestido de negro inclinou a cabeça lentamente para o lado esquerdo analisando sua presa, mas não pronunciou palavra alguma.

_ Gabriel? _ Batalhou o policial.

O homem parado balançou bem de leve a cabeça de forma positiva e deixou escapulir um sorriso de seus lábios, mostrando a ponta dos alongados dentes que denunciavam sua verdadeira natureza. Ao ver aquilo Fernando pensou que fosse perder as forças das pernas e cair, mas lutou contra essa sensação e sacou sua arma.

_ Você está preso!

O sargento sabia que essas palavras não seriam suficientes para deter Gabriel, mas não sabia o que dizer, nunca tinha prendido alguém como ele antes e precisava de tempo para que o resto de sua coragem voltasse.

Gabriel se espantou no início com a coragem do policial, mas logo percebeu que se tratava de puro desespero.

_O que houve policial? Parece que viu um fantasma._ Disse erguendo os braços como se fosse ficar na posição da cruz; sempre encarando o sargento, e continuou. _ Como vai seu amigo?

O dedo de Fernando tremia no gatilho da arma, seu coração e sua respiração estavam acelerados e o seu suor frio escoria da testa.

_ O que você fez com o Marco?

_ Pensei em dar um presente a ele, pensei em trazê-lo para o meu lado, mas ele é fraco e seria perda de tempo.

Gabriel estendeu os dedos indicadores apontando para dois lados distintos, direita e esquerda, e de ambos os lados Fernando notou a chegada de uma pessoa; pensou que fossem os poderosos zumbis guardiões, os lacaios de Gabriel, mas abandonou essa idéia ao ouvir a voz de mulher que dizia:

_ Esse vai ser mais fácil do que os últimos.

Fernando olhou para o lado de onde vinha a voz e se deparou com uma mulher tão pálida quanto Gabriel, uma ruiva vestida de modo simples, mas bastante bonita se não fosse as olheiras roxas destacando-se em contraste com a palidez; ela estava rindo e também era possível ver seus dentes de vampiro quando falava. O pesadelo estava piorando.

Do outro lado, outra voz feminina respondeu:

_ Então vamos acabar logo com isso.

Fernando virou-se para o outro lado e viu outra mulher, menos bela que a primeira, mas tão pálida quanto, depois se voltou novamente para Gabriel que permanecia parado à sua frente bem ao lado do carro batido no muro, mas seus braços não estavam mais abertos; e ele continuava a observá-lo.

_ Monique e Melissa. _ Disse Gabriel apontando respectivamente para a mulher ruiva e para a morena.

_ O que você quer aqui? Quem são essas mulheres? E por que matou o padre Giovanne, o coveiro José Firmino e Erom Andreas Chagas?

Gabriel saiu de perto do carro caminhando devagar, como se estivesse flutuando; ao menos era essa a impressão, e foi para junto de Monique, a ruiva. Com um novo sorriso na face ele disse:

_ Matei muito mais gente do que isso.

Melissa, a morena, também riu.

_ O que eu quero? _Recomeçou Gabriel._ Quero caos, quero morte e quero essa cidade pra mim; a propósito, essas são minhas crias, mas às vezes uso elas como assassinas exatamente como agora.

O horror tomou conta da alma de Fernando, que vendo as duas criaturas em forma de mulher temeu por sua vida e pensou em Sarah e na pequena Paula, temeu não vê-las novamente e temeu morrer nas mãos de monstros como Gabriel, Monique e Melissa.

Um pensamento atravessou a mente dele como um relâmpago. Quantos seres como aqueles existiriam no mundo? Quantos demônios em forma humana estavam andando no meio das pessoas pelas noites das cidades, dos estados e dos países mundo afora? A perspectiva era aterradora.

_ Hora de acordar heroi!_Gritou o vampiro com a voz modificada, gutural, monstruosa. Continuando. _ Há mais coisa entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia, lembra? Eu sou uma delas, concebido única e exclusivamente para dizimar os mortais e é exatamente isso que minhas amantes irão fazer agora com você. Mesquita já está sem defesa; minha influência sobre as pessoas cresce a cada noite e dentro de pouco tempo terei o número de pessoas sob meu comando suficiente para assumir verdadeiramente o controle. Quer um conselho? Não lute.

Gabriel estalou os dedos e tanto Melissa quanto Monique saltaram cada uma de um lado, para uma direção diferente, mas não foram como os zumbis, elas não apenas saltaram, mas se livraram da gravidade que prende todas as coisas desse planeta, praticamente voaram passando por sobre a cabeça do sargento com aquelas risadas estridentes e ao mesmo tempo horrendas; por um momento não pareciam vampiros, mas sim fantasmas pálidos em contraste com a escuridão da noite. Fernando jogou-se no chão num espasmo e viu as duas mulheres manobrarem em pleno vôo, caindo a poucos metros dele próprio e a risada assombrosa de Gabriel ecoou pela rua vazia.

A mulher ruiva estava à esquerda. Preparando-se com certeza para investir novamente contra o sargento e a morena olhava atentamente para ele; de repente as duas avançaram ao mesmo tempo, Fernando deitado ali no asfalto não sabia de quem se defender e nem como; tentou correr, e realmente chegou até a se levantar, mas um chute na canela desferido por Melissa, “a morena”, o deixou meio sem equilíbrio, ele se voltou para ela sem se importar com Monique que iria certamente atacá-lo pelas costas e encarou a nefasta mulher que o chutou, ela o atacava ferozmente com uma combinação de chutes e socos; e não eram simples golpes femininos, Fernando que se defendia pondo seus braços na frente dos golpes da mulher para receber as pancadas nos braços e não nos locais que ela de fato queria acertar, calculava que aqueles murros não estavam sendo disparados ao acaso; ela sabia o que estava fazendo; era uma profissional, sabia lutar. Enquanto se defendia grosseiramente dos socos de Melissa, Fernando concluía que ela não era tão forte quanto os zumbis de Gabriel porque se assim fosse cada soco ou chute quebraria um osso diferente do corpo dele, e nem era tão rápida quanto eles também; mas ao pensar tais coisas, perdeu o foco de sua batalha, distraindo-se por um segundo; um segundo em que seus braços já avermelhados pelas pancadas não encontraram os golpes daquele demônio da noite. O soco passou pela guarda estabanada e distraída do sargento e entrou em cheio no nariz dele; Fernando ainda viu o mundo ao seu redor girar antes de ser alvejado com uma chuva de socos mais fortes e mais rápidos que os anteriores, mas nada sobrenatural.

Ele caiu para trás sentado com as mãos tentando proteger o rosto de forma frenética e infantil; pensou em atirar nela, e finalmente sentiu falta da arma; a deixara cair no susto que levou do primeiro ataque das mulheres, quando ambas passaram voando por sobre a sua cabeça.

Melissa, ao ver sua vítima cair, parou o ataque e limitou-se a encará-lo de forma raivosa; com certeza ela queria sangue; Fernando esperou por alguns segundos, a tontura parar; estava com vontade de chorar, e sentiu aquele líquido quente e espesso descer lentamente por suas narinas; Melissa abriu um largo sorriso quando viu o sangue do policial surgir na face e como se estivesse com muita sede, umedeceu os lábios com a língua e engoliu em seco; seus dentes pareciam mais alongados agora.

Tateando o chão do asfalto ele tentou pôr-se de pé, mas não conseguiu de imediato; primeiro ficou de joelhos e depois de quatro como um cachorro ou outro animal qualquer, em seguida forçando o corpo para cima levantou-se; Melissa andava de um lado para outro como se estivesse esperando que ele ficasse pronto para mais uma rodada; ao ficar de pé, colocou-se de modo que conseguiu ver Melissa, impaciente na sua direita e Monique que agora segurava a arma em suas mãos sorrindo à esquerda; com uma pequena olhada por sobre os ombros procurou Gabriel junto ao carro batido no muro, mas não o encontrou; o único corpo próximo do carro era o de Erom Andreas chagas.

_ Ele já foi. _ Disse Monique apontando a arma na direção dele.

Fernando se voltou rapidamente para ela, sabia que as duas queriam brincar com ele antes de finalmente aniquilá-lo, mas sua mente não conseguia dizer como sair daquela situação.

A ruiva atirou uma vez na direção do policial, mas não quis realmente acertá-lo, foi apenas uma brincadeira, em seguida arremessou a arma para a calçada do outro lado da rua; portanto, fora do alcance do policial, e depois tanto ela quanto Melissa avançaram sobre ele novamente.

A mente de Fernando pensou que era o fim quando ouviu o estampido do disparo que não o acertou, ele não conseguia conceber um plano melhor do que o usado anteriormente para se defender de modo banal com os braços, mas ao tentar fazê-lo logo foi surpreendido, pois enquanto Melissa tentava acertar sua cabeça e tronco com socos e chutes, Monique disparava golpes ainda mais fortes e rápidos do que a outra, golpes aos quais ele não conseguia evitar, esquivando ou defendendo. Era como brigar com dois homens, as mulheres demonstravam muito mais força do que o normal; logo Fernando estava levando uma tremenda surra, afinal depois de um soco e chute bem encaixado, ele perdeu logo a noção do combate e os outros caíram como meteoros durante cerca de cinco minutos; vez por outra uma delas parava um instante, para lamber o sangue que cobria suas mãos, lambiam de modo luxurioso, e tornavam a surrá-lo.

A certa altura do massacre Fernando percebeu com o que ainda lhe restava de lucidez que se não fizesse algo, realmente morreria naquela noite, e lembrou-se de Sarah e de Paula, que eram seus bens mais preciosos; quando Monique parou para lamber o sangue de suas mãos Fernando avançou sobre ela gritando como um louco, sem se importar com os golpes que estava recebendo da outra, e agarrando a mulher pela cintura caíram ambos no chão se engalfinhando em uma alucinante troca de murros violentíssimos. Ao longe já era possível ouvir as sirenes da ambulância que ele havia solicitado para recolher o corpo de Erom Andreas Chagas.

Melissa viu que sua vítima estava agora literalmente sentado sobre Monique e que dessa vez era ela que estava desnorteada tentando tirá-lo de cima de si, mas sem sucesso; ele gritava como um lunático e batia no rosto da mulher que tentava sufocá-lo agarrando seu pescoço, mas ao fazer isso Fernando segurou a cabeça dela com as mãos e usou os dedos polegares para pressionar ambos os olhos de Monique; o urro de dor que ela soltou foi terrivelmente alto, e mulher se debateu tanto que o derrubou de onde estava.

Melissa ao ver tal cena e os gritos de Monique, foi tomada por uma fúria ou pela fúria, seus olhos acenderam-se como brasa em um vermelho incandescente e chisparam. Era uma visão infernal. Fernando nunca tinha visto nada parecido com aquilo, Melissa ia avançar sobre o policial para vingar sua companheira que continuava a gritar e rolar pelo chão largando todo tipo de xingamentos e maldições sobre Fernando. De repente uma moto dobrou pela esquina em alta velocidade; e como Monique precisava se regenerar, Melissa partiu para Fernando chutando a cabeça dele que não conseguiu se defender a tempo recebendo todo o impacto do chute no crânio, depois ela o arremessou na calçada do outro lado da rua.

Quando o motoqueiro se aproximava, ela saltou sobre a moto em movimento como um daqueles pulos que mais pareciam um vôo, derrubando o rapaz desavisado de sobre a moto e com um bote certeiro cravando os dentes no pescoço da vítima.

Fernando encostado no muro observava o tombo espetacular que mais parecia um daqueles de filmes de ação, os três; Melissa, o rapaz e a moto rolaram por alguns metros e sem perder tempo ela se levantou, colocou o jovem no ombro segurando com uma das mãos e com outra levantou a moto trazendo ambos para junto de Monique que agora simplesmente gemia deitada no asfalto por causa de seus olhos perfurados.

Fernando não sabia o que fazer, seu plano era permanecer vivo até que a ambulância e a viatura chegassem, o que não devia demorar; ao longe já era possível ouvir as sirenes aumentado gradualmente o som, mas sabia também que logo que Monique terminasse de se alimentar, Melissa cairia sobre ele como um relâmpago, a fim de matá-lo definitivamente, o que não seria nem um pouco difícil, porque ele estava perdendo a lucidez e já tinha percebido que era uma questão de tempo até que seus sentidos falhassem e ele apagasse completamente; precisava agir muito rápido se quisesse viver ao menos um dia a mais; enquanto Monique se deliciava com o motoqueiro desmaiado em seu colo e ambos no chão frio do asfalto, Melissa preparava a moto; planejava fugir o mais rápido possível após matar Fernando e usaria a moto para que ao ser vista em fuga não levantasse suspeitas sobre sua verdadeira natureza; como sua velocidade não era acima do normal como a dos zumbis guardiões e muito menos que a do próprio Gabriel, ela precisaria do veículo para fugir da patrulha que logo estaria no local. Ela desejava sair dali antes das viaturas chegarem.

Fernando nunca estivera tão desesperado na vida; lutava contra sua mente para se manter acordado, sua vista já estava escurecendo e via suas adversárias como vultos; forçando a visão para focalizá-las ele enxergou a pouco menos de um metro de si a sua própria arma que Monique tinha arremessado para aquele lado da rua no início do embate, e no desespero Melissa o arremessara também para o mesmo lado; nesse momento um som agudo e terrível acompanhado de uma brutal dor de cabeça estouraram na mente do policial, ele sabia que já tinha perdido muito sangue e ainda continuava a perdê-lo, com a mão trêmula pegou a arma e a empunhou na direção das inimigas; Melissa apoiou a moto sobre o descanso e virou-se a tempo de ver Fernando com a arma apontada para ela, estava disposta a matá-lo, mesmo que levasse alguns tiros, pois sua condição anti-natural trataria de regenerar os ferimentos em poucos dias.

O carro patrulha dobrou pela esquina com suas luzes vermelhas varrendo toda a extensão da rua; o barulho ensurdecedor das sirenes, seguido de perto pela ambulância; isso chamou a atenção de Melissa que se preparava para atacar o policial sentado na calçada com a arma em mãos, mas ao ver os veículos se aproximando percebeu que havia falhado na missão a qual Gabriel lhe incumbira, que era fulminar aquele bisbilhoteiro da polícia; ela se voltou para Monique que esboçava o ato de se levantar; ainda cega, mas sem dor, quando ouviu os disparos.

Estreitando os olhos para ver melhor e usando a força de vontade para sobrepujar o cansaço, as dores tanto na cabeça quanto no corpo e retardar a eminente pane de sua mente; Fernando mirou, na medida do possível, e puxou o gatilho disparando cinco vezes; Melissa estava de costa para ele e foi atingida por dois projeteis outros dois passaram apenas cortando o ar próximo a ela devido à falta de prumo nos disparos; mas um simplesmente acertou o tanque de combustível da moto causando combustão instantânea seguida de uma explosão.

Tanto os policiais que estavam na viatura quanto o médico, os enfermeiros e o motorista da ambulância presenciaram uma das cenas mais medonhas que seus olhos iriam ver em suas vidas; assim que ocorreu a explosão, que por um segundo iluminou a rua com aquele clarão monstruoso e um estrondo poderoso; as labaredas saltavam, como se tivessem vida própria, sobre as mulheres, tanto a ruiva quanto a morena de joelhos no chão tornaram-se tochas instantaneamente, como se elas próprias fossem compostas por algum material inflamável; ambas rugiram de modo tão alto que todos os vidros incluindo os dos automóveis se estilhaçaram no mesmo momento. Uma delas, a que estava de pé ainda chegou a correr na direção da ambulância agora parada no centro da rua, mas caiu como uma bola de fogo antes mesmo de completar dois passos. Era o fim das caçadoras noturnas. As assassinas de Gabriel.

A essa altura Fernando já havia desmaiado e estava exatamente na linha invisível que divide a vida, da morte.