Capítulo 15

Marco andava pelos corredores do Hospital Central da Policia; estava muito feliz com a notícia que tinha recebido naquela manhã, fazia exatamente uma semana que seu amigo e parceiro Fernando tinha dado entrada no hospital com um quadro no mínimo complicado e em coma, após se envolver em um acidente com seu carro, segundo a versão adotada pelas relações públicas da polícia, versão essa que foi contada para os familiares do sargento; mulher, pai e mãe entre outros parentes não tão próximos. Foi dito que Fernando tinha terminado seu serviço do dia e estava se dirigindo para casa quando um motorista alcoolizado teria avançado num sinal vermelho e colidido com o Tempra do policial. Mas Marco que no dia ainda estava sobre observação na enfermeira, assim que teve alta foi conversar com todas as pessoas que atenderam a chamada telefônica do sargento, na qual ele solicitava uma viatura e uma ambulância para atender uma pessoa ferida, Marco ficou chocado com os relatos de todos com quem falou; ficou sabendo também por meio desses sobre a explosão da moto causada pelos disparos de Fernando, e de como o fogo se movia como se possuísse vida própria engolindo as duas mulheres que estavam junto à moto e o assombroso rugido emitido por elas quando imoladas, que destruíram todos os vidros da rua no raio de quase um quarteirão; os enfermeiros e o médico também contaram que quando chegaram e prestaram os primeiros socorros a Fernando, logo constataram que ele já estava em coma, permanecendo assim por quase uma semana.


Durante esse tempo marco procurou o padre Bruno, e juntos trocaram informações valiosas que pretendiam usar para eliminar Gabriel, se preciso sem a ajuda de Fernando; foi nesse mesmo tempo que Marco descobriu suas novas habilidades que estavam gradativamente aflorando, provavelmente resquícios de seu encontro com o monstro, encontro esse do qual Marco não conseguia se lembrar.

Logo nas primeiras noites depois do ocorrido ele descobriu ainda na enfermaria que estava se movendo mais rápido e percebeu também nas noites seguintes um considerável aumento de sua força e sentidos; resumindo, seu corpo estava se tornando uma máquina cada vez melhor. Mas a que preço? Não sabia.

Nos treinamentos de tiro e nos testes físicos da polícia naquela semana Marco vinha se destacando cada vez mais, entretanto seus superiores haviam lhe mandado de volta para trás de uma mesa no setor de administração do quartel. Porém, na mesma medida que seus novos dons se manifestaram, gradativamente começaram a desaparecer; em um curto espaço de tempo, até que passada a semana da internação do amigo, restavam apenas resíduos desses “poderes”; segundo o padre Bruno, o cabo havia sido contaminado de alguma forma, algo como uma demonstração, um simples vislumbre do real poder por trás daquilo.

E finalmente o cabo recebeu a notícia que tanto esperava, a confirmação de que seu amigo e parceiro Fernando já tinha saído do coma, porém continuava sob o efeito de remédios, no dia seguinte provavelmente ele já estivesse liberado para visitas; isso seria realmente bom porque daria tempo de passar na igreja e levar o padre Bruno para vê-lo pela manhã no outro dia; após uma conversa com o médico responsável Marco soube que durante a última noite, seu amigo tinha sido submetido a vários testes para medir se de alguma forma os sete dias de coma tinham prejudicado suas funções, mas ele havia se saído muito bem e seria liberado muito em breve. Numa situação comum, uma pessoa naquelas condições ficaria mais alguns dias em observação, mas como a polícia necessitava liberar os leitos do hospital o mais rápido possível para a internação de outros policiais. O sargento seria liberado.

Durante o tempo em que Fernando esteve desacordado, Marco com o auxílio do reverendo Bruno, continuou as investigações de forma sutil, após terem acesso as coisas que estavam no carro do sargento que pertenceram ao padre Giovanne, como a Bíblia, as estacas e todo o resto; eles elaboraram uma linha de raciocínio e um plano de ação. Já sabiam que todos os endereços descritos nas anotações do padre Giovanne tinham alguma ligação com Gabriel, como por ex: o cemitério que era o primeiro endereço da lista era o lugar onde a família da criatura que vivera nas terras de Mesquita há muitos anos possuíam dois jazigos, nos quais ele escondia alguns itens antigos. O padre Giovanne tinha associado erroneamente esse endereço ao túmulo que a congregação dos clérigos mantinha lá, mas com as investigações de Bruno e Marco ficou comprovada a outra versão.

O segundo endereço da lista, uma mansão localizada na rua Cordura, seria a própria casa dele, pois segundo uma analise nos títulos de propriedade do imóvel feitos na internet no site da prefeitura, ficou constatado que assim como os jazigos, esta mansão também pertencia à família Weldher; família mortal de Gabriel que não possuía nenhum membro no Brasil desde o ano de 1950. Havia um escritório de advocacia responsável por administrar os títulos de propriedade. Esse escritório ficava localizado bem no centro do município, mas tanto Bruno quanto Marco concordaram que não era importante nem interessante, em princípio, empreender uma investigação sobre aquele escritório ou seus sócios. Concentrariam seus esforços nos endereços destacados por Giovanne.

O terceiro endereço era o mais intrigante; chamado de “O Ninho” pelo padre Giovanne; era uma casa localizada longe do centro, em um bairro fronteiriço com outro município, um lugar extremamente carente e até mesmo perigoso que a exemplo dos outros endereços também possuía um título de propriedade na prefeitura de Mesquita o qual pertencia a família Weldher, também era administrado pelo mesmo escritório, todos os endereços estavam rigorosamente em dia com seus compromissos de tributos e documentação.

Com a reunião das informações conseguidas nas novas investigações em conjunto com as que já possuíam ficou mais ou menos traçado que “O Ninho” era na verdade uma espécie de local onde as criaturas; crias legítimas ou ilegítimas e os servos dele estavam escondidas ou se reuniam, mas não era possível precisar o número dessas criaturas sem uma visita ao local, porém o tempo não permitia esse luxo; nem queriam ter um confronto desse porte. Marco soube de boatos sobre uma viatura encontrada naquele local após ser destacada para averiguar um chamado, o carro estava abandonado e todos os policiais ainda estavam desaparecidos. A versão oficial falava que eles foram vítimas de alguma emboscada ou ataque de marginais.

O último endereço se tratava de uma boate , ambos foram averiguar mesmo com os apelos de Marco para que o padre não fosse naquele local, se expondo de modo desnecessário, mas o reverendo não deu ouvidos.

_ Já estou nisso faz algum tempo e sei qual é a minha missão. _ dizia Bruno _ Não será um ambiente como esse que vai me tirar do caminho, há muito em jogo aqui; além do mais já estive em lugares muito piores.

Marco não sabia o que pensar, afinal que tipo de vida levava aquele sacerdote? A que tipo de provações e privações como aquelas já tinha se submetido para salvar vidas de pessoas que nem conhecia e que não criam no mesmo que ele, em um Deus capaz de fortalecê-lo para combater literalmente contra forças das sombras; pessoas que nem conheceria. Pessoas cujas vidas estavam nas mãos de potestades e hostes da maldade. Bem; deixando as dúvidas e indagações de lado eles seguiram para boate durante quatro noites consecutivas, mas não encontraram nenhuma pista concreta sobre Gabriel, e algumas das “funcionárias” quando perguntadas sobre uma pessoa com os traços físicos do monstro diziam não conhecê-lo, outras fingiam não conhecê-lo; estava bastante claro para Bruno e Marco que aquele era um local eventualmente visitado pela criatura, mas ele parecia estar sempre um passo a frente; as mulheres desconversavam de um modo extremamente incriminador. Nenhuma das pessoas na boate chegou a perceber que havia um sacerdote entre eles, obviamente que ele se manteve incógnito.

Bruno permanecia impassível como uma rocha, e não demonstrava medo do que estavam enfrentando, sempre era ele quem conversava com a maioria das pessoas de forma firme, porém amorosa e encarando-as frente a frente, mas com uma técnica tão apurada que não chegava a levantar nenhuma suspeita; ele sentia que devia de alguma forma dar um pouco do que tinha para elas, sua Paz e um lugar para refrigerar o espírito em momentos de angustia; e ao mesmo tempo temia por suas vidas, visto que embora negassem, obviamente tinham algum tipo de ligação com Gabriel. Marco quase podia ver o peso que o padre carregava pelo cuidado que tinha pelas vidas daqueles homens e mulheres.

Na quarta noite quando chegavam à boate, na mesa em que se sentaram nas outras três noites havia um envelope de papel sob um copo vazio; após sentarem-se o padre abriu e leu o bilhete contido no envelope, ficando surpreso; ali estavam algumas das revelações que eles procuravam; o bilhete escrito a punho com caneta vermelha dizia que Gabriel realmente costumava freqüentar aquele estabelecimento e outros iguais nas imediações e cidades vizinhas; dizia também como o monstro tinha seduzido duas das mulheres que trabalhavam lá e em seguida, dias depois, ambas deixaram de trabalhar. O bilhete informava que aquilo tinha ocorrido um três meses atrás e falava que desde então Gabriel não tinha mais aparecido; citava também até mesmo os nomes das mulheres em questão: Monique e Melissa.

Em momento algum a pessoa que escreveu o bilhete deu o entender de que conhecesse a verdadeira natureza de Gabriel, também não se identificou, optou por esse método de comunicação e o resto da noite seguiu como as demais e eles acabaram por se retirar sem algo mais concreto.