Capítulo 17

Fernando tinha acordado há poucas horas estava completamente desnorteado, pois recebera dos médicos a notícia de que estivera em coma por quase uma semana; para ele a batalha contra Monique e Melissa tinha acontecido a menos de vinte e quatro horas. Ele ouviu todas as recomendações do doutor para que sua recuperação fosse completa e sem traumas, o Dr. Afonso Lafaiete era um clínico geral que já trabalhava para a polícia havia vinte e cinco anos; ele falou incansavelmente por quase duas horas, mas tudo que Fernando queria era sair daquela cama de hospital e voltar à sua vida normal; se isso ainda fosse possível; após ouvir todo o sermão do médico o sargento falou com sua esposa e filha pelo telefone e as tranqüilizou. Estavam muito assustadas porque sabiam que sua internação não tinha nada a ver com um simples acidente de trânsito; Fernando teve de jurar que estava bem para que a esposa acreditasse.


Algumas horas mais tarde ele recebeu a notícia de que Erom Andréas havia morrido e que Marco viria visitá-lo no dia seguinte. Os papéis tinham se invertido; uma semana atrás ele tinha visitado Marco na enfermaria do quartel, agora era o oposto.

Na manhã seguinte após acordar e passar por uma pequena bateria de exames Fernando tomou seu café e caminhou alguns minutos pelos corredores do hospital; na sala de convívio em comum viu um pouco de televisão, que estava exibindo aqueles desenhos do Pernalonga, Patolino e pica-pau; depois voltou ao quarto onde ficou lembrando e relembrando de sua luta contra as amantes de Gabriel, recordava-se de como o medo se ramificou em seu sangue parecendo algum tipo de narcótico; ele teve mais medo de Monique e Melissa do que dos zumbis que invadiram sua casa; recordou ainda que de modo muito turvo, do último disparo de sua arma e de como as chamas da explosão do tanque de gasolina da moto pareceram adquirir vida própria saltando sobre as mulheres, consumindo-as instantaneamente.

Por volta das 11:30 da manhã, Marco entrou no quarto seguido de perto pelo padre Bruno, sempre impecável embora não estivesse usando sua tradicional roupa negra de colarinho branco que lembrava o ator principal do filme matrix. Bruno vestia camisa social branca com as mangas enroladas até a altura dos cotovelos, calças Jeans, sapatos de camurça e mantinha pequenos óculos de leitura com armação fina no rosto. Também trazia na mão a Bíblia vermelha de seu antigo companheiro.

Marco também estava mudado, seu semblante estava mais duro, mais sério e ele até mesmo parecia estar pouco mais forte; provavelmente havia passado a última semana dedicando-se a uma malhação intensiva nas poucas horas que dispunha, preparando-se para um possível confronto corporal contra os vampiros, e conseqüentemente contra Gabriel. Os sorrisos iluminaram os rostos dos três no momento em que se viram; o jovem sargento se levantou e apertou as mãos de ambos, abraçando-os calorosamente logo em seguida; depois voltou e sentou-se novamente na cama e seus amigos puxaram duas cadeiras deixadas previamente no quarto pelos enfermeiros em função da visitação. Que era de apenas duas horas por dia.

Fernando tratou logo de tomar as rédeas da situação:

_ Acho que Deus gosta de mim padre.

Marco arregalou os olhos, perplexo, enquanto que Bruno mais uma vez abrindo aquele tranqüilizador sorriso disse:

_ Deus gosta de todo mundo filho._ Embora Bruno fosse um padre relativamente novo, costumava falar como os mais antigos.

_ Desde quando você se tornou religioso? _ Perguntou Marco ainda sem entender.

Fernando ponderou um instante antes de responder.

_ Desde que duas mulheres tentaram me matar e não conseguiram.

O reverendo se adiantou falando:

_ Pois é justamente sobre isso que viemos tratar com você. As mulheres que te atacaram naquela noite uma semana atrás eram amantes de Gabriel.

_ Eu sei. _ Fernando se ajeitou sobre a cama, procurando ficar mais confortável e continuou._ Ele me disse isso antes de ordenar que elas me eliminassem, eu acho.

_ Você sabe que ele vai querer vingança, não sabe?

_ Imagino que sim.

_ Descobrimos algumas coisas sobre ele._ Disse Marco se levantando._ Através das inscrições deixadas pelo padre Giovanne descobrimos que Gabriel quer recuperar um grande espaço de terra na cidade que pertenceu a sua família quando eles ainda moravam no Brasil, os motivos ainda não estão claros, mas ele vem gradativamente eliminando seus obstáculos. Descobrimos também que ele não suporta outras criaturas como ele que estejam dentro dos limites da cidade, provavelmente pense que Mesquita é seu domínio particular. Algo como um feudo.

_ Predadores geralmente caçam dentro de suas zonas de conforto_ Falou o sargento.

_ E as zonas de caça geralmente são respeitadas por outros predadores de mesma espécie, ou então ocorrem confrontos._ completou o padre.

Os outros concordaram.

Durante as horas que se seguiram eles conversaram, a fim de começarem a arquitetar um plano de ação para pôr fim a Gabriel, mas suas idéias acabavam não fazendo muito sentido; ficou decidido que primeiro esperariam Fernando se recuperar por inteiro e que em seguida decidiriam o que fazer.