Capítulo 18

Naquela mesma noite, o reverendo Bruno estava sentado nos degraus da escadaria à frente da igreja, analisando, pesquisando, estudando e traduzindo não só os escritos de seu antigo companheiro padre Giovanne “tombado em combate”, como se diz na gíria dos caçadores, mas também algumas cartas de Erom Andreas Chagas as quais este tinha enviado a Giovanne. Parecia que Erom estava tentando avisar sobre uma repentina ascensão de poder pela qual Gabriel estava passando.


Quando começava a estudar algum texto Bruno perdia completamente a noção de tempo tamanha era sua entrega na tarefa, era assim desde os tempos de escola, passando pela época de seminário e dessa vez não tinha sido diferente; ele tinha se sentado ali por volta das 21:00 horas e já eram 01:15 da madrugada, Traduzir naquelas horas menos comuns era algo que ele gostava de fazer por dois motivos; primeiro porque tudo era muito tranqüilo naquele horário, não havia circulação de pessoas nos arredores visto que os portões na parte inferior das escadarias eram fechados por volta das seis da tarde. E segundo porque ele cria que seres como Gabriel jamais se aventuravam em solo sacerdotal.

Estava muito enganado.

Tinha traduzido duas cartas de Erom A. Chagas que estavam em uma espécie de código e uns textos em alemão que falavam sobre pessoas tornando-se imortais através de seres que as escolhiam para dividir seus poderes e sua suposta sabedoria tudo parecia não passar de um punhado de lendas e falava várias vezes num suposto ritual, uma maldição capaz de transformar uma pessoa em um vampiro.

Era uma madrugada com uma brisa bastante agradável e com o céu estrelado, Bruno estava à vontade fazendo suas próprias anotações, mas se interrompeu ao ouvir um pequeno barulho; ele olhou ao “pé” da escadaria, mas não viu nada e continuou com sua tradução sem nem consultar o relógio; o barulho estranho surgiu novamente e ao olhar para o começo da escada Bruno viu uma criatura parada junto às grades do portão bem na calçada pelo lado de fora. Era um dos servos de Gabriel, um zumbi exatamente como Fernando tinha descrito; ele olhava fixamente para o padre, era sem dúvida uma imagem que não se apagaria facilmente da mente de um homem, Bruno se levantou lentamente, não queria fazer nenhum movimento brusco que acionasse a velocidade fenomenal da criatura, além do mais sabia que esses seres nunca andam sozinhos, estavam sempre em bandos de dois ou três, portanto outros deveriam aparecer dentro em breve. De repente uma segunda criatura surgiu engatinhando pela parede do prédio ao lado das escadarias, bem à direita do padre, cerca dez ou dose metros, aquilo era algo que desafiava a sanidade do reverendo, aquele ser parecia ignorar a gravidade; a segunda criatura emitia uns sons estranhíssimos, guturais; o padre se odiou por ter cometido tamanho erro, ter ficado do lado de fora das paredes da igreja e perder a noção do tempo novamente tornando-se uma presa em potencial para seus inimigos, não podia imaginar que Gabriel fosse tão petulante a ponto de tentar um combate ali. Obviamente descobrira o contrário.

Quando o terceiro zumbi surgiu, Bruno se virou e constatou que o terceiro estava parado bem na frente da porta principal da igreja, portanto no meio do caminho entre o padre e o templo; eles haviam criado uma armadilha perfeita. O som de passos ecoou pela madrugada, e Bruno se virou novamente sem se importar com o fato de ficar de costas para o terceiro zumbi, mas sabia exatamente quem estava subindo calmamente pelos degraus das escadarias.

Gabriel ficou imóvel quando o padre se virou para encará-lo; Bruno pensou por um momento que se o vampiro permanecesse daquele jeito por algum tempo era possível que a noite pudesse camuflá-lo passando um manto escuro que o impediria de ser visto por olhos normais. Ambos permaneceram se enfrentando com olhares durante alguns segundos que pareceram minutos.

_ Padre Giancarlo Bruno, eu presumo._ Disse Gabriel colocando as duas mãos nos bolsos de suas calças negras.

O reverendo estava consideravelmente tenso, afinal essa seria a primeira vez que ele se colocaria frente a frente contra as forças do mal, ou seja, entraria em batalha sem que seu amigo Giovanne estivesse junto.

_ Relaxe padre. _ Continuou o monstro._ Eu não vim aqui para me confrontar com você, embora mais cedo ou mais tarde isso vá acontecer; mas vim aqui para testá-lo saber se você e um adversário que mereça uma caçada a moda antiga contra mim.

Gabriel estava totalmente sereno falando de modo calmo e pausadamente com seu leve sotaque estrangeiro, se Bruno não soubesse que tipo de criatura ele era diria se tratar de um verdadeiro cavalheiro, uma pessoa acima de qualquer suspeita; as roupas negras em tecido fino, talvez linho ou seda com cortes e caimento perfeitos provavelmente feito sob medida por um alfaiate profissional, e não comprado pronto, davam um pouco a dimensão do requinte que o monstro possuía; além de suas roupas de primeiro nível, os longos cabelos molhados sobre os ombros e costas contribuíam para um ar mais sombrio.

_O que você quer?_ Disse o padre.

Gabriel deixou escapar um pequeno sorriso no canto da boca e começou o discurso.

_ Há quase dez décadas eu tenho visto pessoas no meu encalço, pessoas essas que se alto intitulavam caçadores e outras que não são mais do que somente curiosas, mas que na verdade não tiveram valor algum, e você é um desses; por todas as cidades onde estive e agora aqui na minha cidade, dentro dos meus domínios vocês insistem em confrontar minha autoridade, posso suportar a oposição dos imortais, mas vocês, meros mortais que ousam me olhar na face se dizendo capazes de acabar comigo; isso é quase como uma piada.

Uma leve brisa fria momentaneamente passou por eles.

_Primeiro. _ Recomeçou Bruno_ Você, seu demônio imundo, não é dono dessa cidade, Mesquita não lhe pertence, nunca lhe pertenceu e jamais pertencerá. Esta cidade, esse estado, essa nação e toda a terra pertencem ao aos homens, você e os seus são apenas sombras, anomalias da noite; nada mais.

Gabriel gargalhou de forma escancarada deixando seus longos dentes à mostra.

_ Tolo; é isso que você é; eliminarei o policial e seu parceiro de um modo notório que lhe mostrarei antes para que meu nome comece a ser ouvido por todos os habitantes dessa cidade e depois farei com que você e com cada pessoa que se diz caçadora em Mesquita se tornem meus servos assim como esses que aqui estão; unindo-se ao meu exército para consolidar meu domínio sobre todos os seres que residem nessas terras.

Dito isso Gabriel se virou, ficando de costas para o padre, começando a descer as escadas calmamente; e com um leve aceno usando a mão esquerda ordenou que seus servos começassem o ataque.

Levou somente o tempo do padre respirar e os três zumbis já estavam sobre ele, naquele momento algo aconteceu, algo que mais tarde o padre chamaria de milagre, os monstros atacavam sem piedade e ao mesmo tempo, com sua fúria descontrolada, mas embora seus murros fossem extremamente rápidos para os padrões mortais, Bruno os estava conseguindo evitar; por alguns minutos o medo e a tensão desapareceram de sua mente e corpo dando lugar a uma plenitude de espírito, uma paz completa que o estava dirigindo, guiando seus movimentos para prever cada ataque numa fração de segundos; quando finalmente “a ficha caiu” e ele percebeu que estava defendendo e se esquivando de golpes poderosos de seres como aqueles; por um momento se desconcentrou e alguns ataques explodiram em suas costas, visto que estava lutando com três adversários e um deles estava sempre atrás de si; as garras da criatura rasgaram a carne nas costas do padre e foi quando este resolveu atacar também ao invés de somente esquivar e bloquear.

Gabriel observava ao pé da escadaria intrigado, pois o padre havia manifestado uma velocidade semelhante àquela dos seus servos. Mas como? Que tipo de truque ou magia esse Bruno possuía?

_ Acabem com esse maldito! _ Gritou Gabriel, mas era inútil; as criaturas urravam, rosnavam e bufavam enquanto estavam atacando, mas seus murros acertavam somente o ar; o padre estava ficando ligeiramente mais rápido que eles.

Bruno percebeu que os monstros não estavam mais tão velozes e ouviu a voz de Gabriel ao fundo dizendo algo que não pôde identificar; ele foi bem sucedido em contra atacar, acertando um dos zumbis várias vezes na cabeça, antes que os outros tivessem sequer tempo de reagir, o monstro atingido caiu gritando de forma estridente como um animal, mas o padre sabia que o único modo de vencer o combate era se utilizando das balas de prata, porém tinha dado todas para Fernando.

Gabriel continuava olhando de longe atento aos movimentos do padre, e usando seus olhos sobrenaturais para prestar ainda mais atenção nos detalhes do combate, percebeu o que estava ocorrendo; ele estava vendo claramente os servos, o padre e mais alguém; outra “pessoa”, ou ser, estava lá ajudando Bruno a lutar. Às vezes ao usar seus olhos com o dom da visão Gabriel conseguia ver outras esferas, mundos espirituais, imateriais e enxergar coisas invisíveis aos olhos dos mortais, isso era exatamente o que estava acontecendo naquele momento. Lutar com um padre em seu território tinha se mostrado uma péssima idéia, pois aquela outra “pessoa” poderia ser um guardião ou um celestial que estava ajudando o padre a obter vantagem no confronto. A verdade era que Gabriel tinha ignorado que isso de alguma forma fosse ocorrer, mesmo com todo o seu conhecimento de que as forças da luz estavam em ação na cidade; seus sentimentos de arrogância haviam cegado seu poder de decidir por uma melhor estratégia. Isso era uma constante desde que se tornara imortal.

_ Anjo._ Disse ele.

Quando finalmente um dos servos se afastou ao receber os golpes do reverendo, este viu o caminho até a porta da igreja livre e partiu em velocidade naquela direção, os zumbis saltando e correndo tentaram acompanhá-lo, mas ele estava rápido demais até para os monstros, e finalmente entrou pela grande porta frontal arqueada da igreja, caindo sentado, exausto, sem fôlego; e percebeu que as criaturas se detiveram na porta e não entraram, mas permaneceram lá paradas bufando, como se uma porta invisível as impedisse de entrar. Dois deles estavam na porta, sem ousar entrar, talvez por medo; o fato era que Bruno agora deitado de peito para cima com os braços abertos e muito suado puxava o ar para dentro dos pulmões a fim de se recuperar o mais rápido possível; enquanto isso sua mente tentava explicar o que tinha ocorrido lá fora, como ele tinha se movido com velocidade maior que a dos servos; tentou convencer-se de que aquilo tinha sido realmente um milagre, e acreditou nisso; levantou-se ainda de olho nos seres parados frente à porta e andou pela nave direita do grande salão de missas até chegar ao flanco do altar onde estava um castiçal preso a uma barra de prata como se fosse uma lança medieval.

Repentinamente, o ensurdecedor barulho de vidro estilhaçando tomou conta do ambiente; o terceiro zumbi havia saltado de fora da igreja, atravessado um dos enormes vitrais e caindo sobre alguns bancos, destruindo-os completamente, a criatura gritou de modo grotesco num misto de fúria e agonia, e sem demora avançou sobre Bruno; este lançou mão do bastão de prata girando-o de forma rápida. Um segundo mais tarde e o monstro o teria alcançado de forma letal, mas o golpe do padre foi certeiro como o de um jogador de basebol rebatendo uma bola para fora do estádio, o impacto explodiu no crânio da criatura que caiu emitindo toda sorte de sons estranhos. O castiçal que havia na extremidade da barra foi arremessado longe, tamanha a intensidade do choque, e jazia partido em bois pedaços no chão. Bruno olhou ao redor como que procurando inspiração para dar o próximo passo; o servo estava se reerguendo e Bruno girando novamente o bastão em movimentos circulares como um verdadeiro lancista veio andando em sua direção preparando o golpe de misericórdia.

_ Eu te liberto. _ Disse o reverendo. E recitou algumas palavras em latim.

Em seguida, concentrou suas forças em um golpe, na cabeça daquele ser, que caiu inerte e livre. Livre da influência e da aliança hedionda com Gabriel.

As outras duas criaturas tinham desaparecido, tinham ido embora e o reverendo confirmou isso quando saiu para buscar a bíblia e as outras coisas que tinha deixado na escadaria fora da igreja durante a batalha; lá ele respirou fundo o ar noturno e agradeceu pela ajuda divina que recebeu aquela noite. Enfim voltou para dentro da igreja e fechou suas portas.