Capítulo 19

Fernando chegou em casa às 7:30 da manhã, estava de licença médica, portanto não trabalharia nos próximos cinco dias; seu estado ainda inspirava cuidados e o doutor recomendara que tomasse alguns medicamentos e guardasse repouso absoluto de qualquer tipo de esforço físico pelo menos nos próximos três dias, mas no fundo ele sabia que sua paz só duraria até que o sol se escondesse e o dia virasse noite, então resolveu tomar algumas providências. Após um demorado banho ele mesmo preparou um café bem forte e uma omelete; sentou-se junto à porta da cozinha que fazia divisão como quintal dos fundos e degustou, pensativo, sua refeição matinal; durante aquele momento Fernando inevitavelmente pensou em tudo o que havia ocorrido com ele nos últimos tempos, perdera seu carro do qual gostava tanto, quase perdera a vida e ainda estava separado de seus maiores tesouros, sua esposa e filha que foram para a casa de familiares em Niterói. Levando mais um pedaço de sua omelete à boca ele se lembrou das feições de Monique e Melissa, concluindo que daquele momento em diante teria seus próprios fantasmas para lhe atormentar pelo resto da vida e o pior deles ainda estava solto pela cidade.


Depois do café foi ao quarto e colocou sobre sua cama a arma das balas de prata, sua outra arma que possuía e o que restou da essência de alho; procurando nas coisas de Sarah ele encontrou um pequeno crucifixo preso numa corrente, ambos de ouro; era um objeto pequeno, liso e reluzente.

Fernando ficou muito feliz pelo fato de sua sogra ser tão fervorosa no que ela mesma chamava de “A Obra de Deus”, afinal aquilo tinha sido um presente que sua esposa ganhara da mãe dias antes do nascimento da pequena Paula. Procurou também nas coisas que recebera no hospital até encontrar o brinco de Erom Chagas e com cuidado o prendeu no cordão junto ao crucifixo colocando ambos no pescoço de modo a escondê-los sobre a camisa, e por fim tomou todo o conteúdo do frasco com essência de alho esperando que a ação do líquido fosse para sua corrente sangüínea o mais rápido possível.

Marco chegou chamando Fernando e parecia transtornado; o sargento foi a o seu encontro na porta da sala que por sua vez fazia divisão com o quintal da frente de casa.

_ Não grita! Minha cabeça ainda está doendo._ Disse Fernando fazendo sinal para que o amigo falasse mais baixo.

Mas ao ver o rosto do amigo logo ficou preocupado.

_ A coisa ficou feia lá na praça_ Começou o cabo.

_ O que houve?

_ Três pessoas cara; três. Ele atacou novamente.

Marco andava de um lado para outro na frente do amigo com seus olhos lacrimejando, e vendo aquela cena Fernando pediu que ele se acalmasse.

_ Não posso, você ainda não entendeu; a coisa saiu do controle.

_ Nunca esteve sob controle._ Rebateu Fernando.

_ Isolaram quase toda a praça, e tem até repórteres por lá, isso sem falar nos curiosos. Está cheio de gente.

_ Ou! Ou! Que conversa é essa de repórteres?

Marco parou de andar desorientadamente, colocou as mãos sobre a cabeça e disse:

_ Vamos logo pra lá, o padre emprestou a moto dele para eu vir te buscar.

Fernando pediu um segundo e entrou na casa, foi novamente ao quarto pegou as armas que estavam sobre a cama e um boné; ao voltar para fora viu Marco ligando uma CB 500 azul escuro, e aproximando-se perguntou:

_Essa moto é do padre?

Marco acelerou sem sair do lugar e a moto respondeu com voz de trovão.

_ Sobe aí cara, parece que o segundo tempo começou e nós estamos perdendo esse jogo.

Fernando não argumentou mais e subiu na garupa da moto que arrancou como um míssil; no caminho Marco não disse nenhuma palavra, e o sargento sabia que havia mais coisas não reveladas, mas resolveu esperar para ver como a situação se apresentava.

Ao chegarem na praça Fernando se assustou com o número de gente que tinha se juntado.

_ Tem mais gente agora do que quando eu saí_ Falou Marco estacionando a moto em frente a uma agência do Bradesco.

Eles desceram e atravessaram a rua em direção à praça abrindo caminho pela multidão de pessoas, e do outro lado encontraram o padre Giancarlo Bruno de braços cruzados observando tudo aquilo atentamente; um perímetro de segurança havia sido estabelecido; muitos policiais estavam andando por todos os lados, inclusive policiais civis e peritos da criminalística; alguns carros do corpo de bombeiros e uma ambulância que já recolhera as vítimas também estava presente.

O padre ao vê-los se aproximando apontou para um veículo de reportagem da Rede Globo, em seguida para outro da Rede Record e um terceiro da Bandeirantes, dizendo:

_ Gabriel conseguiu toda a publicidade que queria.

Ao passar pelas pessoas Fernando ouvia elas falando algo sobre a forma como as vítimas tinham sido abatidas.

O padre disse:

_ Ele matou três pessoas e deixou seus corpos para serem encontrados bem no centro da praça.

Fernando olhou por sobre a multidão, na direção do chafariz, mas todos os corpos já tinham sido retirados.

_ Quem está no comando?_ Perguntou o sargento ao seu parceiro.

_ O próprio coronel Gusmão está bem ali._ Apontou para um homem fardado dando entrevista a uma jovem reporter.

Marco entregou a chave da moto e Fernando pediu que Bruno os esperasse junto a ela em frente ao Banco do outro lado da rua onde tinha menos gente aglomerada, depois seguiram para o perímetro isolado onde foram abordados por um soldado que felizmente era conhecido de ambos, nem foi preciso mostrar as identificações para passar pela fita demarcadora de limites. Estranhamente não havia sangue pelo chão e os repórteres fotografavam tudo à distância, várias mídias estavam presentes, alguns jornais de Mesquita e outros de cidades e municípios vizinhos, além de vários portais de notícia para internet; Uol, Terra, Ig etc...

O tenente-coronel Roberto Dias Gusmão era o comandante do vigésimo batalhão de polícia militar de Mesquita. Ele estava encarregado de prestar todos os esclarecimentos acerca dos fatos ocorridos naquele dia e sobre os demais que já tinham sido registrados nas últimas semanas, como por exemplo: José Firmino e Giovanne Poggimartro entre outros; a fim de procurar tranqüilizar o máximo possível por meio de suas declarações cada uma das pessoas moradoras de Mesquita e do Rio de Janeiro, porque o que estava sendo veiculado nas grandes mídias eram notícias sobre criminosos em guerra e ou assassino serial à solta pelas ruas da cidade. A verdade era que a mídia não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, mas todos os repórteres haviam farejado uma história capaz de gerar muita notícia.

Gusmão estava sendo entrevistado e tanto o sargento quanto o cabo se aproximaram para ouvir suas declarações.

_ Que tipo de criminoso a polícia está procurando e por que esses atos vêm se repetindo de forma tão constante?_ Perguntou a repórter empunhando o microfone na direção do oficial.

Gusmão era muito hábil com as palavras e em lhe dar com a mídia, respondeu de um modo que realmente passou uma imagem de que tudo estava sendo feito no sentido de concentrar os esforços na captura do “bandido ou bandidos” em questão e aumentar a proteção ostensiva oferecida pela corporação. A jornalista fez menção aos outros crimes ocorridos antes desse e mais precisamente aos requintes de crueldade utilizados, mas o policial foi extremamente confiante, dizendo que tudo aquilo não passava de um modo de intimidação que não seria acatado pela polícia. A entrevista durou mais alguns minutos e quando terminou Fernando foi ao encontro de seu superior para trocar umas palavras deixando Marco ainda transtornado para trás.

Depois de se apresentar devidamente Fernando perguntou:

_ O que aconteceu aqui chefe?

Ao que o outro respondeu:

_ Não sei, esses ataques estão acontecendo cada vez com mais freqüência e piorando cada dia mais, O comandante geral está no meu pé, os repórteres estão por toda parte e as pessoas estão preocupadas, com razão, nós sabemos que não são criminosos que estão fazendo isso. Mesquita não possui problemas deste tipo.

Fernando tirou o boné e coçou a cabeça.

Gusmão continuou enquanto apontava para os carros de reportagem estacionados ao longe.

_Olha em volta sargento, a imprensa farejou algo que não estamos vendo nem sentindo, mas que está aqui.

Enquanto Fernando dialogava com Gusmão, Marco se afastou um pouco deles e estava abaixado como se estivesse amarrando o cadarço do tênis, mas na verdade estava examinando uma mancha vermelha no chão que parecia ser sangue, bem na sua frente; Além disso, ele estava também em uma batalha contra si mesmo, no momento em que viu a mancha algo dentro dele despertou, algo que já o havia visitado na noite anterior; uma vontade pequena, mas persistente de saber o gosto daquele líquido vermelho, esperando Fernando iniciar outra rodada de perguntas ao tenente-coronel, em um momento que julgou que ninguém prestava atenção em seus atos, Marco rapidamente tocou a ponta do dedo indicador contra a mancha seca e o levou à boca; odiou-se por fazer tal coisa, mas não se tratava de sangue, porém o gosto era terrível, não tinha a menor idéia de porque estava fazendo aquilo, mas ao menos momentaneamente tinha aplacado a vontade que começara a consumi-lo desde a última madrugada.

Fernando retornou para junto do amigo, sem perceber o que este tinha acabado de realizar; e ainda muito impressionado com o número de curiosos que estavam aos arredores da praça.

_Nem em dia de festa aparece tanta gente._ Brincou o sargento com um sorriso meio sem graça no rosto._ Vamos falar com o padre.

Abrindo caminho novamente pela multidão, eles foram juntar-se ao reverendo que aguardava junto à moto do outro lado da rua; o sol já estava começando a esquentar e o furgão do corpo de bombeiros deixava o local acompanhado por duas viaturas.

_ Uma verdadeira tragédia._ Comentou o padre.

Daquele local os três ficaram parados olhando para a multidão. Seus pensamentos ainda precisavam se alinhar e a cada hora parecia mais difícil manter os pés no chão.

Foi quando surgiu dobrando pela esquina à esquerda de onde eles estavam, um magnífico carro, um sedam prata, possuía quatro portas e uma pequena estatueta em forma de felino na frente do capô; com certeza uma obra de arte dos carros de luxo. Um Jaguar S-type.

Fernando observou a placa do carro na qual estavam escritos D.B Walker e abaixo disso os números 05; ele estacionou logo à frente da moto de Bruno e de dentro do veículo saíram dois homens, e, uma mulher do lado direito traseiro. O motorista era um sujeito extremamente bem vestido, certamente não era brasileiro, um homem branco, aparentando uns trinta anos; trajava um terno cinza escuro com um lenço branco no bolso superior do paletó e um daqueles clássicos relógios presos a uma fina corrente que ia do bolso da calça até outro bolso no paletó; esse sujeito consultou o relógio assim que desceram do carro, mas não se afastaram muito do automóvel. Do lado oposto ao do motorista saiu outro homem, mais enigmático que o primeiro, este era mulato com um cabelo cortado em estilo militar e ao que parecia estava usando um gel para deixá-lo espetado para cima, o detalhe era que seu cabelo era extremamente branco; esse homem aparentava entre quarenta e cinqüenta anos e estava vestido de uma forma bem menos formal, a começar por um cordão dourado bastante chamativo com um símbolo do Yin Yang no centro com dois grandes dentes que mais pareciam dentes de sabre, um de cada lado do símbolo, parecia algum tipo de relíquia tribal; este mesmo homem também usava óculos espelhados e era um pouco mais musculoso que o primeiro, pelo menos era o que sua blusa colada junto ao corpo denunciava, aliás, em sua blusa, nas costas estava escrito “Crianom Kali Tempestade”. Fernando não fazia a menor idéia do que aquilo podia significar e jamais imaginaria que tal nome “Kali” era, na verdade, uma referência a deusa hindu da morte e da sexualidade.

A mulher, uma morena extravagantemente bonita, que usava uma daquelas calças de cintura muito baixa e deixando transparecer uma tatuagem tribal na altura da cintura, e mais uma camiseta que realçava seus volumosos seios, também estava com óculos escuros e um cordão todo feito de dentes caninos de animais; um adorno bastante bizarro para uma mulher tão bonita.

_ Quem será que são esses?_ Pensou Fernando em voz alta.

O padre estreitou os olhos observando-os e respondeu:

_ Talvez sejam caçadores.

Os dois policiais olharam para o padre com dúvidas em suas mentes.

_ Mas que tipo de caçadores andam por aí de Jaguar?_ Perguntou Marco.

_ Do tipo rico. Algumas sociedades dão prêmios e bonificações incríveis em dinheiro ou bens para os membros que conseguem abater suas caças procuradas. Eles têm muita organização e toda uma estrutura montada nesse sentido; algumas são muito “conhecidas”.

_E você conhece alguma?_ Marco perguntou verdadeiramente intrigado.

_Claro que sim. Conheço algumas como a Hardcore Hunters, dos Estados unidos; a Sociedade dos Sabres, da Espanha; em Portugal, a Real Casa dos Anjos além da própria Coroa Solar ou Congregação dos Clérigos, que é originalmente italiana, mas com ramificações também no Brasil embora essa não tenha nenhum tipo de fundo monetário para bonificações.

_ Mas sua moto é bastante cara. _ Comentou Fernando tocando no tanque de combustível.

_Levei muito tempo para comprá-la. _ Rebateu o padre, concluindo._ Meu dinheiro é quase todo voltado para projetos sociais.

Vendo que não havia mais dúvida quanto à origem de sua moto o padre retomou o assunto sobre os supostos caçadores:

_Em Roma é possível achar nas bibliotecas, documentos e manuscritos que falam sobre várias ordens de caçadores dos seres das sombras através dos séculos; algumas se tornaram famosas como a Ordem de Salomão e os Templários, outras não receberam tanto reconhecimento, mas tiveram um papel importante durante a história. Há outros documentos que tratam de seres tão antigos que se supõe que sejam apenas mitos de alguma mente fértil; existe um relato que trata de um indivíduo indiano que teria nascido setecentos e cinqüenta anos antes de Cristo e teria corrido o mundo participando de grandes batalhas até a idade média quando desapareceu. Muitos historiadores gastam suas vidas tentando decifrar o que é fato do que é apenas invenção dos povos através dos séculos, como todos nós sabemos, os povos antigos costumavam endeusar todas as coisas e possuíam para cada uma delas uma fábula mirabolante muito bem construída.

Fernando e Marco se entreolharam como que duvidando completamente das palavras do padre e logo perceberam que o homem parado ao lado do Jaguar, o que tinha escrito na blusa “Tempestade”, os observava e em seguida comentou algo com a mulher que sorriu.

Quase todas as viaturas já tinham se retirado, ficando somente uns poucos policiais que fariam a segurança até que as pessoas abandonassem o local.

_ Não sei vocês._Disse o sargento._ Mas eu preciso beber algo.

Todos concordaram que uma bebida gelada faria muito bem, afinal o sol estava de rachar, e eles foram até uma pequena lanchonete do outro lado da rua, onde Fernando e Marco dividiram uma coca-cola enquanto o reverendo saboreava um bom suco de goiaba. Durante meia hora eles permaneceram lá sem pronunciar nenhuma palavra, ficaram somente observando o movimento das pessoas, até que Bruno perguntou:

_ Você contou a ele?

Ao que marco respondeu:

_Não; ainda estava pensando em como isso pode ser possível.

Fernando olhou um e outro, depois bebeu mais um gole do refrigerante sem entender do que se tratava. Ele tinha perdido alguma coisa.

_ Do que vocês estão falando?

_ Marco sentiu os ataques ontem de madrugada.

O sargento pensou ter ouvido errado, mas o padre repetiu a frase logo em seguida.

_ Como assim sentiu? Quando? Onde?

Agora ele entendia porque Marco estava tão transtornado logo pela manhã quando fora chamá-lo.

_ Ontem; digo, hoje por volta das três da madrugada, eu acordei com uma enorme dor de cabeça e também meu estomago doía; era tão forte que quando tentei sair da cama não consegui ficar de pé e tive de me arrastar para o banheiro, lá, frente ao espelho eu senti claramente quando Gabriel atacou essas pessoas, elas tentaram fugir, mas ele estava furioso com alguma coisa e extravasou sua fúria. Ele as feriu e eu senti todo o prazer que Gabriel sentia, depois, acho que perdi os sentidos, não me lembro de mais nada a não ser que quando acordei já era dia claro e o telefone tocava...

Marco se interrompeu e pondo as mãos sobre o rosto começou a chorar, mas ele não contou nem ia contar que quando acordou pela manhã uma sensação estranha queimava sua mente e ao colocar-se de pé frente ao espelho ficou horrorizado com seu próprio rosto; seus olhos tinham perdido completamente a tonalidade e estavam opacos, quase brancos e sem vida, eles até lembravam os olhos dos servos do monstro.

_ Essa coca-cola não está adiantando._ Fernando se levantou e pediu ao rapaz que fazia o atendimento que trouxesse um energético, depois continuou:

_ O que significa isso padre?

Bruno meneou a cabeça negativamente antes de responder.

_ Creio que exista uma ligação entre Marco e Gabriel, mas não faço idéia de como ela possa ter surgido.

O rapaz trouxe uma lata de RedBull que fora solicitada juntamente com um copo e os colocou sobre a mesa.

O tempo passou e nenhum deles teve coragem de iniciar outro assunto ou mesmo continuar o antigo; por volta de uma hora da tarde, toda a multidão já tinha partido, juntamente com os jornalistas e até mesmo o Jaguar com seus estranhos ocupantes.

Marco foi gradativamente parando de chorar até que consegui falar novamente:

_ O que vamos fazer?_ Perguntou.

_ Eu preciso terminar de traduzir as cartas de Erom Andreas Chagas; como ele parece ter maior conhecimento sobre esse tipo de criatura que estamos enfrentando será de grande ajuda qualquer informação extra que conseguirmos.

_ Como assim? _ Perguntou novamente o cabo.

_ Erom deve ter pesquisado sobre Gabriel e ou outros como ele, e pode ter colocado alguma informação que nos seja útil, quem sabe uma fraqueza ou até mesmo algum esboço de plano para aprisioná-lo ou detê-lo. Nas partes que já traduzi temos algumas coisas interessantes, como por exemplo, Erom julga que Gabriel teria nascido no ano de 1903. Minha teoria é que ele é mais antigo do que nós inicialmente pensávamos e talvez bem mais poderoso também.

Dito isso o padre se levantou e retirando do bolso traseiro da calça sua carteira, pegou o dinheiro para pagar pelo suco que havia consumido, depois se despedindo dos amigos com aquele sorriso tranqüilizador disse:

_ Se vocês quiserem ficar na igreja durante a noite as portas estarão abertas, por mais forte que Gabriel seja, afirmo a vocês que lá ele não poderá entrar.

Bruno atravessou a rua e subiu na moto, depois de mais uns segundos ela respondeu com aquela voz de trovão e o padre se foi.

Mais alguns minutos se passaram desde que o padre foi embora e Fernando consultou o seu relógio constatando que precisava ir para casa, era quase hora de tomar um dos remédios receitados pelo médico para lhe ajudar na recuperação.

_ O que você acha de visitarmos um daqueles endereços que estavam escritos na Bíblia italiana._ Disse Fernando se levantando.

Marco franziu o cenho antes de responder.

_ Sei não cara. Será que isso é o mais prudente a se fazer?

Fernando imitando o gesto do padre tirou a carteira do bolso e pagou o que tinha bebido, seu e de seu amigo.

_ O que é certo então?_ Perguntou._ Esperar a noite trazê-los para nos atormentar? Ou esperar que ele saia do buraco onde se esconde e ataque mais um punhado de pessoas inocentes só por diversão? Você gostou do que sentiu ontem à noite?

Marco estremeceu por dentro, estava com medo; não; estava apavorado, não sabia o que ocorria consigo mesmo e nem tinha coragem de contar a verdade ao seu melhor amigo e parceiro; mas sabia que no fundo o sargento estava certo, se ficassem parados esperando seriam alvos fáceis, precisavam buscar o máximo de informações úteis sobre seu inimigo. Além do que, ainda eram 13:50 da tarde e lhes restava aproximadamente cinco horas de luz do sol.

_ Está certo, vamos nessa._ Disse Marco concordando com a cabeça.

_Ótimo.

Fernando explicou que primeiro precisava passar em casa para tomar seu remédio e até mesmo fazer uma rápida refeição, e Marco se comprometeu a passar no Batalhão de Polícia e conseguir uma viatura, indo buscar o amigo em sua casa logo em seguida.

Trinta e cinco minutos depois a viatura parou frente à casa de Fernando, com Marco ao volante; ele buzinou duas vezes e aguardou. O sargento saiu correndo e trancou a porta da casa, passou pelo sinuoso caminho feito de pedras cuidadosamente arrumadas como um mosaico no quintal da frente e entrou na viatura, logo que entrou no carro notou que o seu companheiro estava devidamente fardado e armado também; Marco usava um coldre peitoral com uma arma e outro na coxa com outra arma.

_Você está de serviço?_Fernando estranhou.

_ Troquei com o cabo Vaz. Era a única forma de tirar a viatura do pátio sem arrumar um problema maior.

_Ainda bem que você veio prevenido_ Falou Fernando brincando.

Deixando a rua na qual estavam Marco disse:

_ Olha o banco traseiro.

Virando-se para ver que surpresa o cabo havia preparado, Fernando se deparou com a mala negra de Erom A.Chagas e duas submetralhadoras cada uma com dois pentes de recarga.

_ Como conseguiu essas armas?

_ O Soldado que está de serviço no paiol do setor de armas apreendidas me devia um grande favor que resolvi cobrar. Se aquele demônio Gabriel ou qualquer um dos seus aparecer na minha frente, vão se arrepender. Vou mandar chumbo grosso e quente dessa vez.

Fernando olhou para o amigo notando que ele estava no seu máximo da tensão, tudo aquilo devia estar sendo insuportável para ele.

_ Você sabe que se alguém descobrir é cadeia, não sabe?_ Fernando estava seriamente preocupado com o amigo.

_ Não esquenta.

Vinte minutos depois estavam parando em frente à casa da rua Cordura, era uma casa muito grande, com dois andares mais o terraço, muito bonita; só pelo seu tamanho dava para notar que com certeza tratava-se de um imóvel bastante caro; possuía duas grandes janelas no segundo andar, uma das quais estava aberta. A casa ficava no centro do terreno, como um obelisco, rodeada pelo grande quintal extremamente bem cuidado, com a grama cortada; a garagem ficava à esquerda da casa, e devia caber cerca de quatro carros, mas somente um estava lá; um magnífico Audi R8 prata. Fernando tentou identificar a placa, mas havia uma distância considerável entre eles.

O muro que cercava todo aquele patrimônio por incrível que parecesse era baixíssimo, coisa de um metro e cinqüenta; e nos extremos cantos do muro dos lados direito e esquerdo tinham dois grandes coqueiros. O portão era do tamanho do muro, mas feito com grades e estava entreaberto, ao lado desse portão estava um interfone que Fernando acionou logo que terminou de observar a casa.

Marco saiu da viatura e antes de bater a porta pegou no banco de trás uma das submetralhadoras e a mala de Erom A.Chagas em seguida foi juntar-se ao amigo que conversava com alguém via interfone.

_ Por favor._ Disse ele._ Meu nome é Fernando e sou da polícia, preciso falar com o dono desta casa. É importante.

Ao que a voz feminina vinda do aparelho respondeu:

_ Meu patrão não está, mas aguarde só um momento que vou atendê-los.

Enquanto aguardavam eles se entreolharam, e Fernando deu de ombros como que não sabendo o que esperar. A porta da frente se abriu e uma senhora de cabelos brancos passou por ela enxugando as mãos em um pano de pratos.

_ O dono da casa não está._ Disse ela._ Mas se for possível eu posso ajudar. Do que se trata?

_ Qual é o seu nome senhora?_ Perguntou polidamente.

_ Amara Torres.

Ela colocou o pano de pratos sobre o ombro e abriu o portão.

_ Dona Amara; precisamos fazer uma busca dentro dessa casa, foram feitas denúncias de que haveriam objetos roubados aí.

A velha senhora franziu o cenho parecendo achar aquilo tudo muito estranho e por um segundo concentrou seu olhar nas armas carregadas por Marco.

_ O senhor Weldher, é o dono dessa casa, mas ele é um homem muito ocupado e só chega por volta de nove da noite, isso quando ele dorme em casa o que é bem raro. Mas posso deixar que vocês entrem e procurem o que desejarem.

Ela abriu totalmente o portão e sinalizou com a mão para que entrassem; Fernando pegou a mala negra das mãos do cabo e entrou logo atrás dela, Marco foi logo em seguida.

Se pelo lado de fora a casa já era bonita, por dentro era duas vezes mais, entraram pela sala e ficaram boquiabertos com a decoração e a quantidade de coisas que Gabriel possuía; estante com Televisor de LED (52) polegadas, som, DVD, home theater; no chão, tapetes; nas paredes havia lambri de madeira até a metade e quadros abstratos; tudo disposto de modo que cada objeto completava o outro, fazendo com que a sala fosse um quebra-cabeças perfeitamente montado.

_ O que seu patrão faz, quero dizer, em que ele trabalha?_ Indagou Fernando enquanto verificava um quadro.

_ Só sei que ele é empresário, mas não sei de que ramo; nós raramente nos encontramos, todos os dias eu venho para cá por volta de nove da manhã arrumo tudo, faço meu serviço e vou embora seis, seis e meia; às vezes até quatro da tarde. Depende de quanto tempo eu levo para terminar tudo.

_Como assim, você não se encontra com ele?

_Bem, na verdade eu fui contratada pelo advogado dele, nós nos encontramos no fim do mês que é quando ele tem que me pagar; há meses em que nos encontramos apenas duas ou três vezes.

Para Marco fazia sentido, ele sabia que havia um escritório de advocacia cuidando dos bens da família de Gabriel e não era surpresa que também cuidassem de mais coisas, mas a pergunta era: Será que eles tinham conhecimento sobre o que Gabriel era? Será que tinham vendido suas almas em troca da quantidade de dinheiro que o monstro podia lhes prover ou alguém lá desejava ser como ele algum dia? Mais dúvidas que não seriam solucionadas.

Fernando já tinha deixado de tentar entender as coisas. Parou de examinar os quadros e se voltou para a mulher.

_ Quanto tempo faz que a senhora trabalha para aqui? Nunca notou nada estranho?

_ Um ano e seis meses; e a única coisa estranha é que ele viaja muito, fica dias e até semanas fora, aí eu tomo conta de suas coisas e ele me paga muito bem por isso.

Nem Marco nem Fernando sabiam o que disser ou pensar, afinal aquilo não era nem de longe o que eles esperavam; era totalmente adverso ao monstro que procuravam.

_ Fiquem à vontade; eu tenho que terminar meus afazeres._Disse Amara se retirando.

Assim que a governanta se retirou, Fernando fez sinal para o amigo para que acelerassem as buscas; rapidamente e um a um cada cômodo da casa, entre quartos que eram cinco, banheiros eram três, cozinha e estava tudo como “manda o figurino”, foram revistados, claro que o tempo não permitia uma busca minuciosa, mas dentro do possível eles fizeram um bom trabalho; mas ainda sim nada encontraram.

Chegaram então ao último cômodo que faltava averiguar, a sala de estudos que ficava localizada no segundo andar e tinha a janela aberta, não era muito grande se comparada com os outros cômodos da casa e possuía estantes apinhadas de livros que iam do chão ao teto nas quatro paredes, exceto, é claro, nos locais da porta e da janela; o chão possuía tapetes que cobriam toda a sua extensão, e no centro da sala estava estrategicamente colocada uma cadeira que mais parecia um divã confeccionado em couro na cor vermelho escuro e uma pequena mesinha redonda ao seu lado; aproximando-se puderam perceber que sobre a mesa estava uma caneta ponta de pena dourada que parecia muito cara, para não dizer rara colocada sobre um livro, e ao lado do livro uma garrafa com um rótulo bastante estranho que estava escrito em outro idioma.

_ Que significa tudo isso? _ Perguntou Marco?

_ Nada disso era o que eu esperava._ Respondeu Fernando, concluindo._ Essa casa, esse luxo todo; até parece que estamos no domicílio de um intelectual ou algo do tipo. Deve ter mais coisas de valor aqui nessa casa do que na casa do prefeito.

Marco rebateu:

_ Não pode ser; o dono desse lugar não pode ser Gabriel; não aquele Gabriel que eu vi. Você viu só o carro que tem lá fora na garagem? Um Audi.

A incerteza povoava a mente de ambos e as dúvidas se multiplicavam na velocidade da luz; Fernando tomou a garrafa de cima da pequena mesa e abriu, cheirou e fez uma cara meio desconfiada, depois inclinando-a para que o líquido de dentro viesse até o gargalo molhou o dedo e experimentou.

_ Bebida alcoólica._Disse._ Parece algum tipo de licor.

Amara surgiu pela porta e viu Fernando segurando a garrafa.

_ Isso é Kümmel._ Explicou a governanta.

Eles não entenderam, e ela continuou.

_ É um licor produzido principalmente na Alemanha e na Rússia, é também a bebida preferida do Sr. Weldher.

Ela pegou delicadamente a garrafa das mãos do sargento, fechou e recolocou sobre a mesa do jeito que estava antes.

A governanta continuava sempre de olho nas armas carregadas por Marco, e por fim tomou coragem para perguntar.

_ Por que você está carregando tantas armas?

O cabo ficou sem resposta; não esperava ser questionado a esse respeito, mas Fernando tomou as rédeas da situação e respondeu em seu lugar.

_ Somos policiais senhora, devemos nos proteger e proteger pessoas, algumas até que nos vêem como inimigos ao invés de aliados, mas isso faz parte da profissão.

_ O que o senhor Weldher fez de errado?

_ Provavelmente nada; como eu disse antes foi uma denúncia, infundada pelo que posso ver; nosso dever era averiguar somente, mas já podemos ir embora.

Dito isso a governanta se ofereceu para acompanhá-los até o portão, mas como não tinham visto os fundos da mansão resolveram sair por trás.

Ligando a sala do andar de baixo, por onde entraram na casa com a cozinha, por onde sairiam havia um corredor; no qual existia um grande espelho na parede esquerda, do teto ao chão, colocado em uma moldura tão magnífica quanto aquelas dos quadros que tinham visto até então; como se não bastasse toda aquela pompa, Gabriel ainda devia ser narcisista; o que explicaria sua arrogância sem limites. Tanto Fernando quanto Amara passaram pelo espelho, e depois de um rápido exame seguiram para cozinha, mas Marco ao passar sentiu-se mal; mesmo sentido as dores que repentinamente começaram a incomodá-lo e tendo a impressão de que seu reflexo havia ficado translúcido de repente, ele seguiu logo após os outros sem fazer caso e por fim saíram no enorme quintal dos fundos; Fernando agradeceu a boa vontade e cooperação da anfitriã e deixaram a casa.

Já dentro da viatura, eles colocaram as armas e a mala no banco traseiro e enquanto Marco ligava o carro, Fernando se recostou no banco e apertava os olhos com os dedos polegar e indicador como se quisesse espantar outra dor de cabeça.

_ Estamos atrás de um fantasma cara._Disse.

_ O que vamos fazer agora? _ Perguntou o cabo._ Já são quase cinco e meia, temos menos de uma hora de claridade.

Fernando estava concentrado olhando pela Janela para lugar nenhum e demorou um pouco para responder.

_ Não sei; pensei que fossemos encontrar algum caixão em um dos quartos e não uma cama de casal.

_ É, o “cara” tem todo tipo de aparelho sofisticado em casa e um carro que mesmo que trabalhássemos a vida toda não compraríamos um igual.

Fernando se calou durante todo o trajeto para sua casa, pois não conseguia achar respostas para a enxurrada de perguntas e dúvidas que surgiram em sua mente; como Gabriel sendo o que era possuía tantos bens? Onde ele se escondia durante o dia, visto que não estava na casa que supostamente era sua?

Marco parou o carro.

_ Pronto, está entregue.

A viatura estava novamente parada frente à casa de Fernando que desceu, mas antes de fechar a porta recolheu sua parte dos armamentos e a mala negra no banco traseiro, depois bateu a porta, contornou o carro e inclinou-se na janela do motorista.

_ Onde vai passar a noite?

Marco demorou um segundo, e disse que passaria a noite no próprio Batalhão de polícia, prometendo passar no dia seguinte bem cedo para buscar o amigo e parceiro; em seguida arrancou com o carro em velocidade desaparecendo pela esquina momentos depois.

Entrando em casa novamente, e com o mínimo de claridade natural, pois o dia estava no fim de sua metamorfose e logo seria noite; emprestando assim sua força para que seus filhos se levantassem para agir nas sombras e nem todos os filhos da noite eram como Gabriel, alguns eram homens, outros; coisa pior.

Fernando tratou de tomar algumas precauções para o caso de Gabriel enviar seus servos a fim de aniquilá-lo; procurou na garagem por uma lanterna que colocaria na sala, onde iria dormir, e também pegou uma daquelas lamparinas alimentadas por gás, as quais têm um pequeno botijão acoplado embaixo do acendedor; se aquelas criaturas surgissem novamente tentaria atirar no botijão e torcer para que o fogo fizesse com elas o que fez com Monique e Melissa. Era um plano desesperado, estúpido e horrível, não tinha a mínima chance de funcionar, Fernando sabia disso, mas tão tinha nenhum outro, sua mente não conseguia pensar em mais nada.