Capítulo 21

Finalmente a noite caiu sobre Mesquita dando vida ao seres das sombras, humanos e inumanos; mortais ou imortais, e como era comum em todos os crepúsculos desde o ano 1914 quando recebeu sua nova condição de “vida”, Gabriel abriu seus olhos dentro do sarcófago, com um leve vestígio das sensações incomodas que o acompanhavam desde o início dentro de si; sabia que em pouco tempo estaria insuportável se não buscasse alimento. Na escuridão total daquele ataúde ele permaneceu mais alguns minutos esperando os efeitos do adormecimento passar, depois empurrou a tampa do esquife que se abriu sem resistência, respirou fundo e saiu de seu caixão usando uma leveza quase sobrenatural; os sentimentos incômodos aumentaram; toda vez que utilizava os seus dons sem se alimentar, tinha de pagar um preço caro que estava aumentando com o passar dos anos, a sensação poderia tirar totalmente sua sanidade e limitar por completo suas forças se não fosse saciada em tempo.


Livre da gravidade seus pés descalços tocaram a terra no chão, que ficava espalhada ao redor do altar sobre o qual estava colocado seu sarcófago; desde o dia em que fora levado a ser o “homem” que seria para sempre, transformado numa criatura infernal, Gabriel precisava da terra de seu país de origem no mesmo local onde dormia, era uma das condições do feitiço e da maldição lançada sobre ele.

Caminhando pela masmorra construída no subsolo de sua mansão ele subiu as escadas, nenhuma luz entrava no lugar que era terrivelmente úmido, seus pés galgavam cada degrau, um a um sem pressa até chegar ao topo onde uma pesada porta com um enorme trinco estava lacrando a masmorra; ele colocou suas mãos sobre o trinco e usou sua força fora do comum para fazê-lo correr ruidosamente destrancando a porta, do outro lado da mesma, uma película de vidro reforçado extremamente grossa fazia a divisão com o corredor da casa que ligava à sala com a cozinha.

O cheiro ainda estava forte dentro da casa, logo que Gabriel saiu, sentiu, entrando por suas narinas claramente; os policiais haviam estado dentro de seu domicílio, se ele quisesse poderia ver cada passo que deram; acompanhar todo o trajeto, mas preferiu não examinar as marcas espirituais deixadas pelos mortais. Fechou com um leve empurrão o vidro que pelo lado de fora nada mais era do que um grande espelho ocupando toda a parede do corredor, e seguiu para o quarto no andar de cima onde estavam suas roupas e suas coisas.

A casa estava com todas as luzes acesas como Amara costumava deixar antes de ir embora, enquanto subia para o quarto concentrou-se para sentir seus servos escondidos no ninho, em seguida procurou por Marco que agora tinha um elo mental que os ligava; sem que o policial soubesse estava passando por uma intensa transformação que logo chegaria a seu ápice; finalmente no quarto Gabriel se vestiu como costumava fazer, de modo bastante elegante, com roupas negras, foi até o banheiro, abriu a torneira da pia e enquanto a água caia olhou-se no pequeno espelho com moldura de prata à sua frente; seu rosto estava tão pálido que era possível ver as veias e vasos sangüíneos marcando sua face que mais parecia uma máscara de cera, precisava se alimentar.

Abaixando sua cabeça deixou a água cair sobre seus longos cabelos negros, aquilo já não era tão doloroso como no princípio, agora já podia suportar a dor causada pela água corrente; no passado atravessar um riacho era como passar por um tonel de ácido, essa era mais uma das condições do feitiço lançado sobre ele. Ele jamais entendeu todos os termos da maldição, mas tinha de cumpri-los à risca.

Finalmente a noite tinha lhe devolvido todas as dádivas que o dia havia roubado, embora muito limitados pela terrível sensação que aumentava proporcionalmente aos seus dons, sentia aquela energia sobrenatural ressurgindo em seu ser e já estava pronto para a caçada; foi até a sala de estudos, onde o cheiro dos policiais estava forte, suas marcas espirituais também estavam por toda parte do cômodo, Gabriel sorriu levemente pensando em como o desespero agia de modo estranho nas pessoas; gostava de ser desafiado tanto quanto gostava de desafiar, mas gostava ainda mais de ver até aonde o desespero levava aqueles a quem desafiava. Com certeza aquelas pessoas haviam perdido completamente a noção das coisas, vindo à sua casa sem a proteção do padre, ou de alguma outra força superior.

Sentando em seu divã ele lançou mão do licor que tanto gostava, Kümmel, a garrafa estava marcada com o toque de Fernando e Amara, Gabriel abriu e bebeu na própria tampa da garrafa que funcionava como cálice; o líquido adocicado desceu garganta abaixo causando primeiro algumas dores, isso às vezes acontecia quando colocava algo no estômago antes de ingerir seu alimento característico, sangue humano, depois aquecendo suas entranhas; adorava aquela bebida, nunca abriria mão dela.

Tomou mais um gole e concentrando-se procurou por Fernando, mas não conseguiu encontrá-lo; a mente dele estava de alguma forma escondida; ou Fernando possuía um enorme controle mental, a ponto de repelir os ataques; ou algo, um artefato ou até mesmo um feitiço o estava protegendo; mas isso não era problema, poderia achá-lo facilmente procurando por seu melhor amigo.