Capítulo 23

A noite estava longe do fim e o vento havia trazido para sobre a cidade nuvens carregadas; não era possível ver o céu e logo a chuva seria derramada, mas ignorando os avisos da natureza alguns jovens resolveram passar a noite se divertindo. Alguns deles não voltariam para suas casas.


Dois rapazes e duas moças que já se conheciam há algum tempo e costumavam sair para beber, curtir e eventualmente dar uma esticada para outros lugares, teriam um encontro terrível.

Nesta noite especifica, já tinham combinado um programa a quatro, saíram para dançar e curtiram uma nova casa noturna que abrira há pouco tempo no Rio de Janeiro e estavam voltando de carro no meio da madrugada, todos estavam ligeiramente bêbados, mas suficientemente lúcidos para aproveitar o que haviam planejado para “O grande final”; àquela hora da madrugada o Corsa Sedam prateado era o único carro andando pelas ruas de Mesquita, mas seus ocupantes não estavam nem aí com os fatos que a mídia televisiva tinha espalhado sobre os rumores de um suposto grupo agindo na cidade; não importava, estavam próximos a casa de um deles, onde passariam o resto da noite, faltava em torno de dez quadras; e eles só pensavam em chega logo.

O rapaz que dirigia o carro estava concentrado na sua função, mesmo com o som alto; os faróis percorriam o caminho na frente do automóvel sem achar empecilhos, mas de repente localizaram um homem andando bem no meio da rua muito devagar, ele estava de costas para os faróis, portanto não era possível ver seu rosto, somente seus longos cabelos negros caídos sobre suas roupas também negras eram vistos pelos ocupantes do carro; ele mantinha ambas as mãos nos bolsos da calça e continuava andando sempre em frente como se nem tivesse notado o carro logo atrás de si buzinando escandalosamente.

Os quatro se perguntavam de onde surgira aquele sujeito, ele não estava ali há um minuto atrás, se estivesse, o jovem ao volante teria percebido; o carro diminuiu a velocidade e acompanhava o estranho bem de perto, este por sua vez não liberava a passagem; o impasse durou uns minutos até que o estranho olhou por sobre o ombro direito, os cabelos estavam sobre o rosto e com isso era difícil identificá-lo. Em seguida parou e voltou a olhar para frente, embora com a cabeça levemente inclinada para baixo. O motorista pensou tratar-se de um bêbado ou algo do tipo, e não teve dúvida nem escolha a não ser descer do veículo para removê-lo de sua frente, seu colega também saiu, para o caso do bêbado criar encrenca e as mulheres saíram porque queriam ver os dois forçá-lo a sair da frente se possível com socos e chutes.

Quando o primeiro se aproximou, fez uma cara meio estranha; um arrepio percorreu seu corpo quando se colocou frente ao desconhecido, percebeu que o homem estava de olhos fechados e respirando intensamente, seu colega chegou perto e se colocou a observar também; o sujeito respirava fundo e de modo acelerado, provavelmente estivesse prestes a ter um ataque ou uma convulsão; uma das mulheres estava cursando medicina e eles a chamaram para tentar diagnosticar aquilo e quem sabe até ajudar o homem, mas naquele momento ele encheu os pulmões de ar e parou; começou a rir em um tom baixo, porém bastante sinistro, a mulher se interrompeu no movimento de ir até eles e olhou para a amiga parada na porta do outro lado do veículo.

Gabriel abriu os olhos e encarou os dois à sua frente ainda com um sorriso nos lábios; ambos se afastaram quando viram que ele não estava passando mal e intrigados com o sorriso manifestado de forma tão sinistra. O dono do carro, ainda que meio sem jeito, ia pedir para que saísse da frente de seu corsa, mas não houve tempo, Gabriel se movimentou como uma serpente, em um ataque incrível, de modo que os braços do rapaz ficaram presos pelos braços dele junto ao corpo em um abraço que mais parecia o abraço de uma grande cobra negra; o jovem ainda esboçou uma tentativa de gritar por ajuda, mas o som não saiu; ao invés disso apenas uma tosse seca trazendo consigo alguns ruídos sem forma.

As duas mulheres irromperam em uma gritaria histérica, ao mesmo tempo em que o outro jovem tentou fugir, sem que seu corpo obedecesse, a agonia de ver seu amigo esforçando-se sem sucesso para escapar das mãos daquela criatura tinha paralisado cada músculo de seu corpo.

O jovem, vítima do monstro, foi perdendo a força conforme a criatura se alimentava, exatamente como costumava fazer quase todas as noites desde que estivera na Áustria décadas atrás, finalmente os olhos do rapaz se vidraram no infinito, denunciando que ele estava mais próximo agora do limiar da terra dos mortos do que dos vivos; e como acontecia sempre com suas presas, o corpo do jovem relaxou totalmente nos braços de Gabriel que o soltou e virou-se para os outros.

Vendo o amigo no chão quase sem vida e a criatura parada junto a ele com um pequeno filete de sangue escorrendo de sua boca; as mulheres que já estavam gritando intensamente entraram em estado de choque; a realidade havia sido confrontada brutalmente diante deles; todos os preceitos que baseavam suas vidas desde o nascimento caíram por terra naquele momento, suas mentes não conseguiam manipular o que acabavam de presenciar, um homem que acabara de consumir literalmente parte da vida de seu amigo. E a coisa ficou pior, porque o outro rapaz finalmente tinha conseguido reunir forças para fugir; ele saiu correndo pelo meio da rua como um lunático gritando coisas do tipo “Me deixa em paz” e “Socorro”; fugiu deixando para trás não somente um monstro e um amigo desacordado, mas também a sua atual namorada e a melhor amiga deles.

Gabriel limpava sua boca com a palma da mão e viu quando o outro jovem correu; virando-se com aquela velocidade sobrenatural ele alçou um vôo rasante alcançando sua segunda vítima em poucos segundos, agarrou-o pela cabeça, em seguida colocou os pés no chão e sorriu diante do fugitivo para que este pudesse ver seus afiados dentes alongados como os de alguma fera.

De longe as mulheres viram aquele ser nefasto repetir o ato que fizera com o outro jovem, cravou os dentes no pescoço da segunda vítima que pareceu ter uma convulsão nas mãos do monstro. As mulheres não chegaram a perceber, mas após se alimentar do primeiro, Gabriel já não estava mais pálido como quando o encontraram; e quando finalmente soltou o segundo depois de drenar parte de suas forças, a criatura arremessou-o no ar em direção ao carro, fazendo com que o corpo girasse em pleno vôo explodindo com extrema violência contra o pára-brisa do veículo.

Ele andou calmamente na direção das mulheres que tinham parado de gritar, talvez por não ter mais forças nas cordas vocais ou nos pulmões; ambas limitavam-se a murmurar coisas desconectas e a soluçar; uma das moças no momento exato do primeiro ataque, em um gesto impensado, levou as mãos ao rosto e cravou suas próprias unhas na pele da face, tamanho foi o seu terror em mistura com histeria e confusão, sem falar em todas as outras sensações conflitantes das quais o cérebro não conseguia dar vazão. Com certeza, se ela sobrevivesse àquela experiência sem nenhuma seqüela física, precisaria de anos, ou até décadas de ajuda psicológica e espiritual para se recuperar e ainda não seria totalmente.

Gabriel chegou bem perto dessa que estava com o rosto ferido e a examinou, ela era uma mulher bonita não só nas feições como também corporalmente, depois olhou para a outra que por sua vez era tão atraente quanto a primeira; poderia utilizá-las como fizera com Monique e Melissa, mas julgou que seria melhor fazer outra coisa. Olhando fixamente dentro dos olhos da mulher de rosto ferido, que estava em estado total de choque, Gabriel usou o que costumava chamar de “sussurro”, para ordenar a forma como ela terminaria aquela madrugada, retornando sem se lembrar do ocorrido, porque não precisaria dela naquele momento, mas intentava procurá-la outra noite; em seguida tomando a outra, não menos abalada e completamente submissa pela mão, perguntou:

_ Qual é o seu nome?_ Gabriel olhava fixamente dentro dos olhos dela.

A resposta foi vaga como se a mulher estivesse em um estado de transe profundo:

_Andréa Liv Queiroz.

_Venha comigo.

Ele se colocou a andar pelas ruas escuras levando-a consigo.