Capítulo 24

Fernando acordou num pulo, estava suado; fora atormentado à noite por terríveis pesadelos; esfregou os olhos tentando recuperar o foco da visão e aos poucos se levantou; não lembrava em que hora, mas tinha apagado no meio da sala durante a madrugada, um erro imperdoável, porque poderia ter sido atacado enquanto dormia.


A luz do sol já estava fartamente na sala e ele verificou a arma que ficou ao seu lado para o caso de uma eventualidade; ainda estava lá, assim como as lanternas acesas nos cantos da sala e o botijão de gás mais afastado na divisão entre a sala e o corredor. Tudo estava do jeito como tinha deixado, logo supôs que não tinha sido visitado por nenhuma criatura hedionda.

Feliz por estar vivo mais um dia Fernando foi até seu quarto e retirou algumas roupas, depois tomou um banho e preparou o café como costumava fazer sempre que possível, havia alguns biscoitos no armário, os quais ele colocou num prato e foi comendo lentamente enquanto bebia o café puro, sem açúcar; tentando brincar consigo mesmo Fernando pensou que se permanecesse parado por um instante, de olhos fechados, iria acordar desse pesadelo terrível no qual estava; sem Gabriel, sem zumbis, sem nenhuma dessas loucuras que surgiram em sua vida como uma avalanche nos últimos dias; mas não era assim. Quando abriu os olhos, as recentes lembranças ainda rondavam sua mente e as faces de cada uma daquelas aberrações ainda assustavam seus pensamentos; lembrou-se das palavras de Erom Andreas Chagas quando este lhe dera o brinco no dia de seu confronto final contra o monstro: “Ele salvou minha vida várias e várias vezes e talvez salve a sua também”. Rapidamente Fernando levou a mão ao crucifixo e ao brinco preso no cordão em seu pescoço, desejando nunca ter dado tanta atenção aqueles primeiros ataques que o levaram à igreja e ao cemitério onde tudo começou; sozinho em casa, com saudade de sua esposa, da beleza, da inteligência, e da ternura de sua filha, mutilando seu coração, tentou se conter, mas acabou chorando baixinho sentado no canto da cozinha.

Quase uma hora se passou até que Fernando conseguisse colocar aquela tristeza que estava ferindo-lhe a alma como uma espada, para fora por completo, mas ele sabia que não tinha mais volta, teria de ir até o fim juntamente com Marco e o padre; ou matariam Gabriel ou morreriam tentando. Colocou-se de pé e saiu para o quintal de casa, era uma bela manhã de sábado; a luz do sol passava por algumas nuvens carregadas em um verdadeiro espetáculo da natureza, elas pareciam estar acesas e uma leve brisa matinal dava as boas vindas a todas as pessoas que estavam dispostas a viver. As crianças, filhos de seus vizinhos estavam correndo pela rua, algumas andando de bicicleta, outros jogando bola enquanto seus pais lavavam os carros ou simplesmente molhavam a calçada e as flores de seus jardins; Fernando se aproximou do muro da frente e colocou os braços cruzados sobre ele para ver a rua de uma esquina à outra, seu vizinho da casa em frente, um senhor aposentado do Lloyd, estava saindo pelo portão com uma cadeira de plástico para sentar-se na calçada e aproveitar o sol da manhã; ele acenou cordialmente com a mão na direção de Fernando como costumava fazer nas poucas oportunidades em que se encontravam; a vizinha da casa à direita estava molhando a rua com uma mangueira e ao vê-lo parado no muro perguntou por Sarah:

_ Viajando. _ Respondeu com a voz embargada.

Todas aquelas pessoas vivendo suas vidas, algumas felizes, outras nem tanto; sem saber da verdade, sem saber que por trás daquela capa de naturalidade que o mundo exibia tão bem naquela manhã, e todas as manhãs antes daquela, desde que tinha nascido; existiam criaturas com tamanha repugnância como as que havia encontrado nesses últimos dias; algumas pessoas passariam pela vida sem perceber que junto a elas seres das sombras povoavam as mesmas cidades em que habitavam, andavam pelas mesmas ruas, possivelmente lado a lado com os mortais, ditando o verdadeiro ritmo das coisas, “dando as cartas do jogo”; era incrível, mas era verdade.

Por outro lado sentiu uma certa felicidade, pois lembrou que mesmo sendo confrontado duas vezes, tanto pelos servos como pelas mulheres, ainda estava vivo e era isso o que importava; quantas pessoas perdiam o direito ou o privilégio de viver por muito menos do que aquilo sem uma chance de acertar suas vidas; nunca acreditara realmente em sorte e azar, ou acaso e destino; sabia que devia haver um propósito em todas as coisas, embora ele nunca procurasse saber qual era. Estava verdadeiramente agradecido e pela primeira vez em muitos anos ele creditou aquela felicidade a Deus, ele entendia que se podia haver no mundo um ser tão terrível quanto Gabriel então isso era a maior prova de que existia também o lado da Luz, e Bruno era um bom exemplo daquilo.

Uma leve dor de cabeça insinuara-se lentamente, Fernando ainda não tinha se livrado do preço que o estado passageiro de coma estava cobrando de sua mente, ele entrou em casa para tomar os remédios e aproveitou para buscar sua carteira; depois saiu em busca do jornal de Sábado.

Já na esquina onde todos os fins de semanas pela manhã eram vendidos os jornais, Fernando antes mesmo de comprá-lo viu algo que chamou sua atenção; a manchete dizia: “A Tempestade chegou ao Rio de Janeiro”; seguida de uma fotografia de um dos supostos caçadores que estavam na praça no dia anterior, o homem que estivera ao volante do Jaguar, o que usava terno, e não o outro que usava um enorme cordão de ouro com adornos como dentes-de-sabre que tanto tinham chamado sua atenção. O policial comprou o jornal e abriu exatamente na página indicada onde a matéria se desenrolava; a Tempestade era na verdade uma casa noturna, um empreendimento que havia dado certo em várias partes do mundo e agora o empresário dono da idéia tinha escolhido o Brasil para sediar mais uma de suas filiais, mais precisamente o Rio de Janeiro. Muitas fotos do local estavam disponíveis no jornal, mostrando os vários ambientes interiores, e também estavam disponíveis os telefones e a página do lugar, assim como o endereço eletrônico para E-mails. O texto dizia:

“Ontem à noite foi inaugurada em Copacabana a mais nova casa noturna do Estado; a Tempestade como é chamada, é mais um dos empreendimentos de sucesso do empresário inglês do ramo dos mega eventos Timoty Lane Argaiol; havia uma foto. Construída em tempo recorde_ continuava a matéria_, a Tempestade era a maior casa noturna do Estado do Rio de Janeiro, com várias áreas temáticas em seus ambientes internos; Egípcio, Romano, Celta, Hindu, Medieval, Vitoriano e atual, retratando várias das cidades contemporâneas”.

Muitas outras coisas estavam escritas na matéria, dando ênfase à habilidade administrativa de Timoty Argaiol como era chamado, assim como uma entrevista com o próprio contando os motivos que o levaram a escolha do Rio de Janeiro; mas Fernando achou tudo aquilo muito esquisito; afinal, o que um mega empresário inglês estaria fazendo em Mesquita quando estava para inaugurar sua mais nova obra na zona sul? Nada daquilo fazia sentido algum.

Voltando para casa ele passou o tempo lendo outras matérias que julgou interessante além do caderno de esportes até que ouviu o ronco do motor de um veículo parando frente a sua casa, pela experiência que tinha já conseguia destingir o som do motor da viatura policial e saiu ao quintal a tempo de ver Marco ainda fardado descendo do carro.

_ Noite agitada._ disse Marco.

Fernando sorriu e completou.

_ Só pra variar.

Ele entrou no quintal do amigo e apertando as mãos disse:

_ Está pronto?

_ Pra quê?

_ O padre Bruno me ligou mais cedo, e disse que tinha algo para falar conosco.

Fernando passou a mão no rosto percebendo que sua braba estava por fazer, e começava a incomodar.

_ Segura aí um minuto que eu preciso me barbear, e enquanto isso da só uma olhada nesse jornal._ Arremessando o jornal sobre o amigo, ele entrou, se barbeou e recolheu os equipamentos de caça retirando da mala todos os itens de Erom Andreas e colocando-os em uma espaçosa mochila. Quando finalmente saiu de casa, Marco parecia confuso com o que acabara de ler.

_ Estranho não é?

Marco não respondeu, limitou-se a olhar o amigo e dar de ombros, não sabia o que pensar. Juntos entraram no carro e durante o trajeto até a paróquia o cabo tratou de colocá-lo a par dos acontecimentos.

_ Dois rapazes foram achados esta manhã na Av. União próximo ao T.C.M (Tênis Clube de Mesquita), não estavam mortos, mas desacordados, feridos e por mais que não pareça, sei que foi “ele” quem os atacou.

Fernando retirou de dentro da mochila o revolver calibre 38 e do bolso as balas; enquanto ia colocando uma a uma no tambor da arma ele dizia:

_ Gabriel nunca vai parar com isso; ele quer ser visto, temido; respeitado.

_ É uma sede muito violenta.

O sargento encarou Marco por um instante.

_ O que isso quer dizer? É outro daqueles pressentimentos; você sentiu ele atacando essas pessoas?

_ Não! Sei lá,... Quero dizer; acho que não._ Respondeu o cabo tentando ser vago, havia cometido um deslize; ele mesmo já tinha sentido resquícios da “sede e dos sentimentos atormentadores” e realmente era algo violento; estava supondo que se nele tinha sido daquela forma, então em Gabriel deveria ser algo fora da compreensão humana. Mas tinha medo de contar toda a verdade ao parceiro, medo do que ele poderia pensar, iria guardar aquele fardo consigo na esperança de serem bem sucedidos em eliminar o causador de tudo; afinal a fase das dores que sentira já havia passado, agora era só uma questão de controlar seus novos e estranhos desejos.

_ Deixa eu terminar._ Continuou o cabo. _ Também de manhã bem cedo um Corça Sedan prateado caiu no rio com uma mulher dentro, ela disse que não se lembra como foi parar lá dentro, mas tinha o rosto ferido e lembrava-se apenas de ter saído com os amigos.

_ Mas ela disse algo sobre Gabriel?_ Fernando perguntou.

_Não, mas ela disse que estava com uma amiga no carro. Esta mulher está desaparecida.

*

Eles estavam se aproximando da igreja, no centro de Mesquita, contornando a praça para averiguar o ambiente, seguindo o trajeto logo em seguida. Quando chegaram à igreja, o padre os esperava na calçada ao pé da escadaria.

_ Vocês demoraram muito.

Marco se adiantou:

_ Foi uma noite conturbada padre.

Eles se cumprimentaram enquanto subiam as escadarias, e Bruno recomeçou:

_ Traduzi a maioria dos textos de Erom Andreas Chagas e descobri coisas interessantes sobre o que pode ser a verdadeira história de Gabriel.

Os três entraram na igreja guiados pelo reverendo e novamente atravessaram a grande nave central, tomando o corredor que os levou ao seu escritório; lá estavam sobre a mesa vários papéis e documentos aparentemente antigos espalhados, além de livros abertos e duas cadeiras colocadas à frente da mesa. O padre sentou-se e pediu que eles fizessem o mesmo; quando todos estavam devidamente acomodados Bruno começou a dizer o que tinha descoberto:

_ Ao contrário do que eu pensava, Gabriel não nasceu no Brasil, e muito menos em Mesquita; segundo os escritos de Erom, Gabriel nasceu em uma cidade da Alemanha chamada Rosenheim; um distrito da Baviera; provavelmente no ano de 1883, mesmo ano de nascimento do escritor Austro-húngaro de língua Alemã Franz Kafka. Filho de uma família tradicional no local, um homem rico e de bastante influência política; um empresário do ramo da metalurgia, algo como um barão; seu nome era Jürgem Hass Weldher, que segundo consta era uma pessoa dura, porém bondosa, estava empenhado assim como outros de seu círculo social em contribuir com a melhoria do lugar onde moravam e com a ascensão da Alemanha para que esta voltasse ao bons tempos do Chanceler Von Bismarck. O “Barão” Weldher era rígido com relação aos negócios da família, e realmente possuía o dom de conduzi-los com maestria; uma usina de aço herdada de seu pai que havia triplicado o volume dos trabalhos sobre o comando do Barão.

O padre procurou outra folha sobre a mesa no meio de toda aquela bagunça, a continuação do relato, e finalmente encontrando prosseguiu:

_A mãe de Gabriel chamava-se L’nora; segundo consta uma mulher de alta classe desejada por muitos homens, não só da sua cidade Rosenheim como também por homens de famílias tradicionais que residiam em Berlim, Munique e até mesmo da então Áustria-hungria; famílias de Viena; porque além de muito bonita era herdeira de uma grande fortuna, por parte dos pais (avós maternos de Gabriel), sua fortuna era até mesmo maior que a do próprio Barão. L’nora foi prometida por seu pai ao Barão aos quinze anos de idade e aos dezoito se casou com Jürgem, a junção das famílias seria extremamente benéfica para ambas em termos de prestígio que a família do Barão possuía como poucas na região, e recursos, que a família de L’nora dispunha em grande quantidade; conseqüentemente a família Weldher atingiu um patamar de uma das maiores da Alemanha criando alguns desafetos; alguns políticos e outros não. A união não podia ter sido mais bem sucedida, Weldher e L’nora se amaram desde o início não impondo obstáculo para a conclusão do casamento; pouco tempo depois da união nasceu o primeiro filho do casal, Gabriel Hass Vollmam Weldher. O nome do primogênito foi escolhido em uma alusão ao anjo.

O padre se interrompeu por um instante e observou:

_ Este é o verdadeiro nome do monstro; Erom não relatou a vida dele com seus pais na Alemanha com riqueza de detalhes, porque não foi nessa época que se conheceram.

_E quando foi que se conheceram?_ Perguntou Fernando meio impaciente.

O padre retomou.

_Segundo ele relata, só viu Gabriel pela primeira vez aos onze anos de idade, no ano de 1954 quando sua mãe chamada Martina Klaus Chagas foi seduzida pela criatura, tornando-se sua amante, o que acabou levando-a a se perder. Isso aconteceu na Áustria terra natal de Erom e seus pais. O pai de Erom cujo nome era Raniere Andreas Rovereto Merano tomado pelo sentimento de vingança tentou aniquilar o que ele chamou de Strigoi, que era o modo como se chamavam os homens cuja natureza havia se corrompido de tal forma que seus hábitos, desejos e feições também se modificavam, e que passavam a se valer das noites para viver, não só na Áustria-hungria, mas também na Romênia, Alemanha, França e tantos outros países daquela época; com a ajuda de outros moradores dos arredores de Viena que também tinham perdido alguém nas mãos do monstro, organizou-se uma caçada que quase conseguiu seu objetivo de matá-lo, mas falharam; Raniere foi ferido gravemente na batalha adquirindo ali o que seria anos mais tarde a causa da sua morte; um ferimento no abdômen; Raniere perdeu a voz naquela noite e passou a se comunicar com Erom por meio da escrita, fazendo pequenos bilhetes para o filho.

Gabriel naquela noite de 1954 venceu seus perseguidores e embora estivesse muito ferido, sumiu depois do tal acontecimento, não foi mais visto por Raniere nem por seu filho que se mudaram dos arredores de Viena para uma cidadezinha no sul da Áustria na esperança de nunca mais cruzar o caminho de nenhuma criatura como aquela que ceifara a vida de tantos bons homens naquela fatídica noite de caça.

Cinco anos mais tarde quando percebeu que estava próximo de morrer o pai de Erom entregou a ele uma espécie de testamento dando instruções de como este deveria proceder quando não estivessem em companhia um do outro, e principalmente pedindo para que Erom não cometesse o mesmo erro que seu pai e não tentasse vingança de forma alguma; Raniere cuidou de tudo para que seu filho tivesse uma vida digna e longe dos grandes centros.

_ Está bem; mas como Gabriel chegou aqui em Mesquita? E como Erom o seguiu? _ Perguntou Fernando sob o olhar atento de Marco.

O padre procurou mais um pouco até encontrar outra folha de anotações e prosseguiu:

_ Por cinco anos Andreas Chagas viu seu pai se deteriorar por causa do ferimento infligindo na batalha contra o monstro, e quando finalmente ele morreu, em 1959 começou a batalha particular do jovem Erom. Ele havia decidido caçar a criatura que acabou com a sua e com tantas outras famílias, contrariando a vontade de seu pai. Este lhe havia deixado algumas economias para que Erom continuasse sua vida; quando terminou os estudos na escola para padres da cidade onde aprendeu outros idiomas como o italiano e o francês, ele voltou para Viena tentando achar à pista da criatura; depois e uns anos sem sucesso ele desistiu de Viena e partiu para outras cidades da Áustria, mas era inútil, não conseguiu encontrar nenhum ser igual àquele que ceifou sua família e tantas outras em sua cidade. Até que ao chegar em Salzburgo, ainda na Áustria, encontrou um reverendo nômade escocês chamado Férios McTagart; com a ajuda dele conseguiu todo o aprendizado que necessitava para caçar, encontrar e destruir seres como Gabriel; na verdade Férios permitiu que Erom o ajudasse por um tempo durante algumas caçadas. Quando terminou o aprendizado, mestre e aluno se separaram e nunca mais cruzaram seus caminhos, Erom Andreas partiu para concretizar sua vingança particular, voltando para Viena onde com suas novas técnicas de busca, descobriu, por meio de outro Strigoi torturado por ele, que Gabriel viera da Alemanha; mais precisamente de Rosenheim.

Erom viajou para Munique e começou sua procura, se beneficiando do conhecimento dos códigos utilizados pelo clero europeu conseguiu sempre ser acolhido nas igrejas das cidades por onde passava e assim caçava os “Filhos das sombras” sem ser notado. Depois de passar por Traunstein, Mühldorl, Dachau e Munique, finalmente chegou a Rosenheim onde ouviu a história, quase como uma lenda urbana do jovem da família Weldher que havia se tornado um “demônio”; essa versão era contada por um grupo de pessoas das redondezas; ao passo que, cidadãos mais próximos à família diziam que o jovem Gabriel tinha morrido em sua viajem à Áustria no seu trigésimo primeiro aniversário.

Seguindo a pista dessa história Erom chegou até as terras pertencentes à família Weldher, e ficou abismado com o tamanho das posses do antigo Barão, a usina de aço, a mansão, e até um castelo em estilo medieval gótico em um ponto distante da cidade; após pesquisar bastante Erom descobriu que o homem que estava à frente da fortuna e dos negócios do Barão na Alemanha era seu sobrinho Schmüler Vollmam Weldher que supostamente teria assumido o comando do império com a morte de Gabriel e com a então recente viajem do Barão e sua esposa para o Brasil numa tentativa desesperada de desvencilhar sua imagem da que fora criada com o filho monstro.

Erom foi recebido em na mansão da família pelo próprio Schmüler e a partir das declarações dele ficou sabendo um pouco mais sobre os acontecimentos sombrios que se abateram sobre o filho primogênito do Barão no ano de 1914. Gabriel nunca tinha sido uma pessoa boa, sempre fora arrogante, frio, vingativo e impetuoso; viajou para Viena onde passou seu aniversário de trinta e um anos; segundo a família, lá ele conheceu uma mulher que mexeu muito com seus sentimentos a ponto de torná-lo ainda mais duro do que já era; ele voltou para a Alemanha quando soube que seu pai tinha comprado terras no Brasil, Gabriel estava preste a assumir parte dos negócios das usinas de aço da cidade, mas quando voltou da Áustria já era outra pessoa; gradativamente ele deixou de comer, de beber, não dormia, parecia constantemente doente, trocou os dias pelas noites até que passado um certo tempo fora acusado de atacar algumas mulheres; o Barão já sabendo o que o filho se tornara o enviou de volta para a Áustria e viajou para o Brasil de onde ia administrar parte da fortuna; Schmüler ficou encarregado de acabar com os boatos criados na cidade acerca de seu primo amaldiçoado e administrar a outra parte da fortuna dos Weldher. Uma grande vergonha se abateu sobre aquela família que sempre foi um exemplo de virtude e dignidade.

Jürgem Weldher viajou para o Rio de Janeiro onde comprou parte das terras onde hoje é o município de Mesquita e construiu sua nova casa em parte do local, a outra parte vendeu ele vendeu.

Bruno parou mais uma vez e encarou os dois telespectadores.

_Estou indo rápido demais? – Perguntou o padre procurando outra folha.

Fernando coçou a cabeça meio impaciente, mas respondeu que não.

_ Ótimo, falta pouco.

O reverendo recomeçou:

_ Os planos do Barão muito antes de ele migrar para o Rio era de comprar terras aqui e presenteá-las a seu filho, mas com a mudança repentina e radical pela qual Gabriel passou, seu pai acabou por desistir. Parte das terras do Barão foi vendida em um sistema de chácaras para outros fazendeiros que possuíam terras não só no Rio de Janeiro como também em Campos dos Goytacazes, com isso pessoas e famílias começaram a se instalar aos arredores de uma grande olaria que existia aqui formando um pequeno povoado, além de duas vilas construídas dentro da própria indústria para seus empregados.