Capítulo 25

Enquanto dormia na mais completa escuridão, sendo importunado vez por outra com sonhos ou visões da terra dos mortos como acontecia quase todos os dias de uns anos para cá, Gabriel ouvia claramente a voz do padre Bruno através dos ouvidos e da mente do policial Marco, narrando os acontecimentos de sua vida e a busca de Erom Chagas por vingança.


Gabriel lembrava-se de tudo que ia sendo citado pelo padre, lembrava-se das emoções que sentira na época, novas e arrebatadoras, lembrava-se de Viena, de Elizabeth, que foi a mulher com quem se envolveu e que lhe tornou o que ele era, ela lhe ensinou sobre a liturgia do sangue, sobre a paixão, sobre o poder do ódio e da luxúria.

Ele lembrava-se também da traição de seu pai que vendeu as terras que seriam suas para outros homens; lembrava-se de ver com “os olhos sobrenaturais” a abertura dos portões espirituais existentes em Mesquita e da chegada de outros como ele, da chegada de seres mais profanos e mais angelicais; com o tempo, com a expansão do vilarejo até se tornar uma cidade a partir do desenvolvimento proporcionado pela olaria que se estabeleceu ali até os tempos atuais. Mesquita começou ainda que devagar a ter ares de cidade nos moldes das demais do Estado do Rio de Janeiro, e finalmente “a Batalha” havia se manifestado naquele local; de um lado as numerosas legiões das sombras, e do outro os exércitos da Luz se digladiando em meio aos mortais desavisados. Outros como ele também começaram a migrar até mesmo de países distantes, e alguns nasceram no próprio município.

Gabriel recordou suas primeiras batalhas por sobrevivência contra outros noctívagos; Cícero, Dominic e Alex ou Aleph Crianom. Recordava dos freqüentes encontros e confrontos contra os “filhos da lua cheia”, liderados pelo canis lupus, ou lobo cinzento como era conhecido o líder da alcatéia; lembrou de se recusar a fazer parte de uma fraternidade de seres como ele, onde alguns eram até mais antigos e oriundos de outras culturas; com a perda das terras e a morte de seu pai no ano de 1936 e sua mãe em 1961, Gabriel pôde ressurgir na sociedade, e usando de muita astúcia conseguiu canalizar recursos de sua fortuna na Alemanha onde colocou à frente das agora empresas da área de construção civil Weldher algumas pessoas mentalmente submissos a ele.

Enquanto ouvia a narração em seu sono percebeu que tanto o reverendo quanto aqueles dois policiais já sabiam mais sobre ele do que qualquer outro ser humano em todas as épocas, e isso podia ser prejudicial; afinal mesmo que não conseguissem vencê-lo em um confronto corpo-a-corpo, se fossem espertos ainda podiam frustrar muito dos seus planos para a cidade e para as pessoas locais, ele não estava disposto a esperar que as medíocres vidas daqueles três se extinguissem para continuar com seus intentos; concluindo que pelo menos dois deles representavam uma ameaça, visto que Marco já estava sobre sua influência. Assim Gabriel resolveu antecipar o combate contra eles pegando-os desprevenidos, e rapidamente um plano maquiavélico se formou na mente sombria do monstro na escuridão de seu calabouço particular.