Capítulo 26

_Com todas as informações que necessitava retirada dos moradores de Rosenheim._ Disse o padre._ Erom viajou ao Brasil para finalmente dar cabo de sua vingança e enfrentar face a face a criatura que o privara de seus pais; mas quando chegou na América do Sul, teve muito trabalho, outras criaturas se colocaram em seu caminho e como ele estava preso pelo juramento feito a seu tutor, onde jurou que caçaria e destruiria todos os seres das sombras que pudesse encontrar, teve de interromper sua jornada pessoal temporariamente; pra resumir, as caçadas nas quais ia se envolvendo consumiam cada vez mais suas energias e seu tempo, cada uma delas tornavam-se sempre mais intensas e brutais. Antes de chegar ao Brasil Erom precisou fazer algumas pesquisas e quando finalmente desembarcou no país ficou surpreso com o modo como os monstros tinham se proliferado não só no Rio de Janeiro como também em outros Estados como São Paulo, Minas, Pernambuco entre outros, durante anos ele viveu no Brasil viajando de Estado em Estado lutando as batalhas conforme estas se apresentavam deixando que seu senso como caçador ditasse como seria o próximo dia, e com a ajuda de muitos aliados conquistados aniquilou vários dos filhos da noite ao longo de quase uma década de ação no país; mas cada um que era destruído, cada batalha teve seu preço e não foi nem um pouco barato, várias e várias cicatrizes foram deixadas dentro e fora do corpo do intrépido austríaco, algumas permanentes e outras letais que o acompanhariam para o túmulo.


Fernando se lembrou do dia em que Erom lhe mostrou as cicatrizes pelo corpo, principalmente no abdômen e no tórax, mas não interrompeu o padre.

_ Exatamente como aconteceu._ Observou Marco.

Bruno concordou com a cabeça, concluindo:

_ Ele não tinha mais forças para continuar com sua missão, mas ainda assim tentou; Erom foi uma presa fácil para Gabriel, mas estava cego pela sede de vingança que norteou toda a sua vida.

O sargento se levantou da cadeira dizendo:

_ Como toda essa história vai nos ajudar a prender ou matar esse monstro?

O padre franziu o cenho enquanto olhava toda aquela papelada sobre sua mesa, depois olhou para Fernando.

_ Bem._ iniciou novamente_ Conhecendo um pouco do seu passado talvez consigamos prever qual será seu futuro, ou seja, determinar seu próximo movimento, para que estejamos preparados para agir da maneira correta de forma a não acabarmos como Giovanne e Erom. Juntando isso com o que já sabemos; que ele possui seus fieis servos para lutar e protegê-lo nos momentos em que está mais vulnerável, embora já saibamos que a prata possa ser usada contra eles; sabemos que ele possui pelo menos um ninho, onde pode estar instruindo e escondendo seus seguidores; também sabemos que usava Monique e Melissa como assassinas e que por se achar superior aos mortais ainda não nos atacou com tudo que tem, porque não nos considera uma ameaça real.

Mesmo sem saber ao certo o que, todos eles sabiam que deviam pensar em algo depressa, afinal, não sabiam quando seu inimigo poderia fazer outra vítima ou vítimas, e pior, não sabiam quando ele poderia voltar seus ataques contra eles. Decidiram ali naquela sala em um pacto silencioso que deveriam começar sua própria caçada a partir daquela noite, e cada um daria o máximo para pôr um ponto final naquele estranho pesadelo.

Por alguns momentos um silêncio ainda mais perturbador pairou sobre eles enquanto se entreolhavam até que Marco se levantou da cadeira e tomou a iniciativa para quebrá-lo:

_ Vou ao quartel; vamos precisar de munição e outras armas; tentarei trazer o máximo possível.

O padre se levantou também pedindo um pouco mais de calma ao cabo.

_ As armas comuns não podem deter nem Gabriel nem os servos. Você sabe disso, não sabe?

_Talvez uma única bala não possa, mas vamos fazer outros testes; usaremos algumas semi-automáticas e até a granada que Erom deixou com Fernando se for preciso.

Combinaram de se encontrar assim que o sol deixasse o céu para a primeira grande caçada juntos, como uma equipe. Psicologicamente o padre Bruno estava bem mais preparado que os outros dois, estava consciente de suas convicções, sabia que não seria fácil, mas era exatamente para esse tipo de coisa que havia se predisposto desde o começo de sua “carreira”, quando abraçou sua vocação; além do que Gabriel não seria sua primeira caça, ele já tinha destruído outros neófitos da noite, e só teria de repetir os passos aprendidos durante o seu treinamento e seus estudos, além do mais, embora não fosse o encarregado oficial da cidade de Mesquita já tinha auxiliado o reverendo Giovanne em outras empreitadas como essa, portanto estava razoavelmente preparado se comparado aos seus dois companheiros.

Fernando parecia não estar tão abalado, pois já estava atolado naquele pesadelo até o pescoço, e temia não conseguir mais viver em paz se não desse um fim a Gabriel; preferia morrer a ter de expor sua família a todo aquele terror novamente; e Marco, dos três era o mais assustado, não sabia o que esperar da vida, pelo simples motivo de que sabia que seu corpo estava mudando lentamente, embora todas as dores que sentira dias antes já o tivessem abandonado, algo dentro dele dizia que sua parte no inevitável confronto com o monstro seria a mais difícil de se realizar, não estava preparado, ainda não tinha todas as respostas, mas temia estar se tornando algo tão repulsivo quanto os servos; estava desnorteado, sentia que sua única e verdadeira chance de passar ileso por toda aquela mutação era dando um fim na existência de seu inimigo.

Após a conversa cada um seguiu seu caminho, mas ficou decidido que voltariam a se encontrar assim que a noite se fizesse presente para iniciar a caçada.

Lentamente o brilho da manhã tornou-se mais e mais dourado se transformando em tarde e depois as sombras começaram seu ritual diário de liberar-se das profundezas pouco a pouco pelas ruas, casas, quintais, praças e sobre toda a cidade conforme o tempo ia passando, logo os seres do submundo fariam como as sombras e deixariam seus covis para caminhar em meio aos mortais como acontecia toda noite desde a queda do primeiro homem, quando a morte entrou no mundo.

No entardecer o vento soprou como se estivesse avisando que a natureza já sabia o que ocorreria durante aquela noite; presas e predador se enfrentariam finalmente na batalha que marcaria suas almas.

A noite chegou finalmente e estava estranhamente nublada, com uma brisa diferente soprando sem parar; as 20:00h Fernando e Marco estavam na praça aguardando o reverendo que estava atrasado, mas não demorou muito ele surgiu sobre sua moto devoradora de distância trajando não sua característica roupa de sacerdote, mas outra toda preta; luvas de ouro, casaco de gola até o pescoço que por sinal tinha pendurado um cordão de prata muito fino com um pequeno. E, além disso, uma mochila grande nas costas.

Ao ver o padre Fernando perguntou:

_ O que tem na mochila Bruno?

Este sorriu momentaneamente e respondeu:

_ Coisas que talvez sejam úteis.

Embora nem Marco nem Fernando estivessem de serviço ou em serviço e muito menos fardados, eles estavam usando uma viatura da polícia onde no banco traseiro estavam colocados os pertences de Erom, e mais uma arma calibre 12 que Marco pegou escondido no setor de armas apreendidas do Batalhão, além de duas semi-automáticos adquiridas da mesma forma. Antes de entrar e se sentar no banco do carona da viatura, Fernando segurou firme o cordão de sua esposa pendurado em seu pescoço onde também estava colocado o brinco “defensor” de Andreas Chagas, depois olhou ao redor e entrou batendo a porta em seguida; Marco estava sentado ao volante checando os últimos detalhes de seu pequeno arsenal.

_ Ainda há tempo de pular fora dessa ._Disse Fernando.

Marco olhou para o parceiro agradecido pela preocupação.

_ Se eu sair fora e vocês falharem quantas noites mais de paz eu terei antes que ele venha atrás de mim? _Respondeu.

Com isso ele ligou o carro e recebeu o sinal de positivo do padre que estava abaixando a viseira de seu capacete também negro; a moto saiu em velocidade como um raio contornando a praça em direção a rua Emilio Guadany com a viatura tentando acompanhar o seu ritmo.

Começaram a revistar cada canto que julgavam propício a estada de Gabriel, descendo dos veículos com as armas em punho e em estado de alerta, pondo a correr as pessoas que por ventura estivessem passando pelo local intrigadas ao ver um homem com um crucifixo na mão, embora não soubessem se tratar de um padre em meio a uma caçada; um a um foram descartando as prováveis hipóteses como o cemitério, boates, bares e pontos de encontro de alguns jovens, além de muitos outros locais; mas não tiveram coragem de ir ao “Ninho”, ficou decidido que revistariam o tal lugar apenas com a vantagem da luz do sol para que não fossem surpreendidos, e continuaram saindo de um lugar e rumando para outro sem sossego, estavam decididos a encontrar Gabriel naquela noite muito embora soubessem que ele talvez não deixasse que tal encontro ocorresse; embora nenhum deles tivesse parado para perceber, a brisa leve do início da noite trazia consigo o perfume suave e inconfundível de terra molhada.

Enquanto rasgava o vento com sua moto de um canto a outro a cidade, o padre exercitava sua mente lembrando e relembrando as palavras que costumava recitar para si mesmo antes de iniciar qualquer caçada: “Não temerás espanto noturno...” dizia consigo mesmo. “ainda que um exército se levante contra mim, não temerei”.

Algumas daquelas palavras faziam parte de um dos mais belos Salmos da Bíblia Sagrada que ele havia aprendido tempos atrás durante seu período de treinamento, porquanto julgou que seriam úteis para quebrar os poderes sobrenaturais que Gabriel adquirira durante as suas muitas décadas de vida.

Marco começou a sentir uma leve dor de cabeça em certa hora da noite, princípio da madrugada; já havia sentido aquela sensação antes, Gabriel estava preparando seu ataque, e seria logo. Então o cabo informou ao seu parceiro que não estava se sentindo bem e cedeu a direção do veículo.

_ Vire a direita na próxima rua._ Disse o cabo após se sentar no banco do carona.

Fernando obedeceu e depois perguntou:

_ O que está acontecendo?

_ Acho que estou sentindo ele.

O sargento comunicou ao padre e ambos acharam aquilo bom, porque usariam o elo mental entre eles para descobrir onde Gabriel estava escondido e emboscá-lo usando o elemento surpresa. Mas o que eles não sabiam era que o próprio Gabriel tinha acionado o vínculo mental para levá-los até ele.

Ao longe sobre o morro, o primeiro relâmpago surgiu cortando o céu de ponta a ponta, porém com um ruído tímido, nem chegou a ser notado.

_ Mais rápido Fernando._ Disse Marco impaciente; concluindo._ Agora vire a direita na segunda rua.

O padre percebeu um vulto sobre o telhado de uma casa, ao ver aquilo sentiu no coração que era hora de seu primeiro desafio da noite e ela estava longe de terminar. Reduziu a velocidade até ficar lado a lado com Fernando na janela do automóvel, levantou a viseira do capacete, e disse que logo os alcançaria, mas primeiro tinha de verificar um outro lugar antes de segui-los.

_Vamos com você?_ disse Fernando.

_ Não é preciso, serei rápido, continuem que logo os alcanço.

Na verdade, Bruno quis poupá-los do desgaste de uma “batalha preliminar” por isso não revelou o fato de que um dos servos estava nas redondezas, afinal de contas ele já tinha se confrontado com tais criaturas antes e conseguido vencê-las, esperava repetir a façanha. A viatura prosseguiu em sua rota sob o comando psíquico de Marco.

Quando o carro sumiu dobrando à esquerda, o padre derrapando realizou um giro de 180 graus e voltando-se para o caminho por onde acabara de passar, ficou ali parado no meio da estrada, retirou o capacete e colocou no acento da CB 500, olhou ao redor e leu em uma placa as palavras:

“Av: Baronesa de Mesquita”.

A criatura saltou de cima de uma das casas subindo incrivelmente alto como se pudesse voar, em seguida caiu a poucos metros do padre; sujo, rasgado, desgrenhado; horrendo como sempre. Bruno baixou o descanso da moto e desmontando dela tirou a mochila das costas; de dentro da mochila retirou duas adagas de prata, que antes não passavam de enfeites no quarto de Giovanne, embora fossem verdadeiras, mas agora serviriam como armas exatamente como tinham sido forjadas para ser; realizando sua oração ele deu três passos na direção do zumbi, sabendo que se quisesse viver o suficiente para destruir Gabriel teria que passar primeiro pelo seu servo, ou servos.

_ Eu creio._ disse Bruno.

Era tarde da noite, a madrugada estava à porta, o céu estava totalmente nublado e ali estavam frente a frente dois representante das forças do bem e do mal; o vento soprou mais forte e se manteve naquela intensidade, levantando uma nuvem de poeira; de repente a criatura gritou e avançou veloz como o próprio vento, Bruno segurou firme o punho das adagas de forma invertida e recebeu todo o impacto do encontrão que o servo lhe deu; o monstro caiu por sobre o padre e ambos rolaram pela rua trocando murros violentos. Bruno infligia cortes com as adagas na esperança de conseguir cravar uma delas na criatura e em troca o servo devolvia os golpes com suas garras; finalmente pararam de rolar, o zumbi estava sobre o padre; ao mesmo tempo em que o monstro tentou morder o pescoço do reverendo e errou, esse o esfaqueou com uma das adagas; e naquele momento uma dor lancinante atravessou seu corpo desde o ombro; o zumbi saltou para trás e caiu contorcendo-se.

Bruno conseguiu se recompor e pulou sobre a criatura tentando desesperadamente pegar a adaga presa ao monstro; tentando prender aquele ser com um dos joelhos ele segurou firme a adaga e a arrancou com toda força, inexplicavelmente o servo parou com aquele frenesi e o esmurrou no peito com tanta força que o arremessou da rua para calçada; antes mesmo de tocar o chão, em pleno ar, uma outra criatura surgiu, “do nada”, com um daqueles pulos que mais pareciam um vôo e interceptou-o segurando a camisa do padre e girando o jogou contra o muro de uma das casas; logo que as costas do reverendo chocaram-se contra o muro, as adagas foram parar longe, e agora eram dois zumbis; seria muito mais difícil vencê-los.