Capítulo 27

A viatura seguia em alta velocidade com Marco indicando as ruas por onde seu parceiro deveria passar, e Fernando ao volante obedecia às instruções ao “pé-da-letra”; em certo momento eles avistaram num local onde a luz do poste fora providencialmente destruída, algo estranho, um homem tinha acabado de encostar outra pessoa contra o muro de uma casa; para os olhos leigos aquilo poderia ser facilmente confundido com um casal de namorados ou duas pessoas simplesmente “ficando”; mas Marco sentiu que algo diferente estava ocorrendo e gritando apontou para o casal a fim de que Fernando parasse o carro imediatamente.


Logo que os faróis altos da viatura bateram sobre os suspeitos, tanto Marco quanto Fernando puderam ver claramente que o homem não estava beijando a mulher e sim drenando-a daquela forma clássica e medonha através do pescoço, reconheceram que tratava-se de outro monstro noturno, mas não era Gabriel e aquilo foi um tremendo choque; na mesma hora uma raiva intensa se ascendeu dentro de ambos; uma terrível verdade estava se descortinando ali. Realmente existia mais de um. Vampiros não eram um simples mito do velho mundo; eram reais.

A criatura reagiu aos faróis altos incomodada pela luz artificial das lâmpadas, largando sua vítima que caiu desacordada, em seguida emitiu sons animalescos na direção do automóvel que subia a calçada e freava bruscamente à sua frente. Fernando e Marco saltaram do carro cada um pelo seu lado já atirando, pensavam que o vampiro desviaria das balas, mas a intenção era apenas afastá-lo de perto da jovem que jazia desacordada no chão aos seus pés, mas para o total espanto dos policiais os disparos, todos, acertaram seu alvo que se chocou contra o muro atrás de si, ele gritava como um animal, mas quando os policiais resolveram alvejá-lo com mais disparos, ele saltou do chão onde estava parcialmente de joelhos para cima do murro; gritou novamente, e quando Fernando disparou mais uma vez, ele pulou do muro para cima da casa e fugiu; era algo inacreditável. Marco correu em socorro da jovem e verificou sua pulsação, que estava muito baixa, mas ainda lá; ela estava viva; ele verificou também o pescoço da jovem, e havia marcas de mordidas de onde vertia sangue em grande quantidade. Seguramente a ferida tinha atingido veias ou vasos importantes e a moça precisava de ajuda o quanto antes para ter uma pequena chance de sobreviver.

O sargento permanecia apontando sua pistola para o local do muro onde o monstro tinha subido, com uma ponta de esperança dentro de si; os tiros haviam acertado aquele “noctívago”; e depois de averiguar se não estavam sendo observados, pegou de dentro do carro seu telefone celular e discou o número da emergência; quando ouviu Marco falar:

_ Acertamos ele?_ Perguntou esperançoso.

O sargento sorriu.

_ Me ajuda aqui cara, ela está perdendo muito sangue.

Ouvindo isso Fernando se apressou em passar os dados do local onde estavam para que o resgate logo chegasse e foi se juntar ao amigo que prestava socorro à moça; ela estava muito mal, mas se recebesse os cuidados médicos em pouco tempo com certeza ficaria bem. Ao menos era nisso que ambos estavam se forçando a acreditar.

Eles tinham decidido interromper a caçada por aquela noite e aguardar junto à vítima até que a ambulância chegasse, mas não era o que ia acontecer. O vento havia ficado mais frio e eles não perceberam o nevoeiro até estarem totalmente dentro dele, uma cerração tão grossa que não permitia nem que enxergassem o outro lado da rua; como num passe de mágica aquela nevoa surgiu, de um segundo para outro.

O cabo tremia, mas não por causa do frio noturno, mas sim por outro motivo.

_ Mas quê...? _ Fernando não sabia como o vento que soprava cada vez mais forte não dissipava o nevoeiro.

Marco disse:

_ Pega a arma chefe, ele está aqui.

Ele podia sentir a presença de Gabriel perto, muito perto.

Fernando obedeceu, lançou novamente mão de sua arma e esperou; de repente aquele som ensurdecedor começou, asas batendo em todas as direções, dezenas, em conjunto com o característico barulho emitido pelos morcegos quando estão em pleno vôo.

_ Morcegos!? _ Gritou Marco se levantando com a arma em punho.

Fernando imitou o gesto de se levantar.

_ Estão por toda parte.

A tensão era terrível, um turbilhão sonoro os tinha engolido, era como se eles estivessem dentro de um tornado de morcegos, mas não viam os animais, apenas ouviam o som produzidos pelas criaturas; parecia um pequeno exército de fantasmas. Aquela agonia continuou por mais alguns segundos que pareceram horas e finalmente parou.

Eles viram uma silhueta se erguendo no meio da névoa, e a julgar pela distância deveria estar bem no meio da rua; antes que os policiais falassem ou mesmo pensassem algo, o nevoeiro desapareceu tão repentinamente quanto surgiu; assombrosamente, e lá estava, no centro da rua; Gabriel parado com um ar de arrogância encarando-os.

Fernando sacou o mais rápido que pôde a arma das balas de prata do coldre da coxa e apontou juntamente com a outra pistola na direção de seu inimigo; Marco fez o mesmo, só que com duas pistolas nas mãos; não sabiam o que esperar daquele encontro, e perceberam que não estavam prontos para um confronto.

Gabriel começou a falar:

_ Vocês viram essa criança noturna que acabaram de afugentar? Quando eu terminar, nós seremos muito mais do que somos agora e eles serão meus subalternos; ele só queria se alimentar um pouco, e vocês o tentaram matar; eu por outro lado tentei deixá-los de fora disso, foi uma grande infelicidade seus caminhos se cruzarem com os loucos Erom e seu companheiro Giovanne, mas agora estamos aqui, nesse ponto, vocês e o padre escudeiro.

Gabriel olhou Fernando dos pés à cabeça antes de continuar.

_ Você matou minhas crianças, Monique e Melissa, tão lindas, tão obedientes; e agora chegou a hora do acerto de contas, chegou o momento de me enfrentarem e morrerem como tantos outros antes de vocês.

Nem o cabo nem o sargento tinham coragem de pronunciar uma palavra que fosse; enquanto o monstro falava era possível ver claramente seus dentes alongados como os de um grande cão, era a pior sensação que já tinham sentido em suas vidas, especialmente para Marco; sabiam que precisavam aproveitar o máximo daquele momento, ali iam medir a força do vampiro e confrontá-lo. Gabriel desviou o olhar do sargento para o cabo, e o jovem sentiu seu corpo estremecer ainda mais por dentro seguido de um leve latejar em sua cabeça.

Fernando reuniu coragem sabe-se lá de onde, e com o dedo já tencionando o gatilho da arma disse:

_ Talvez você nos mate essa noite, mas não sem levar um bom prejuízo.

Dito isso os dois policiais quase que simultaneamente começaram a disparar várias vezes sobre o inimigo e aterrorizados viram Gabriel mover-se tão rápido que evitou quase todas as balas; como um fantasma ele saia da frente dos projeteis, esquivando-se, mas um acertou seu ombro. Ele levou a mão ao local atingido, imediatamente, porque o sangue rapidamente surgiu; porém, também com a mesma velocidade parou, e as mãos pálidas do vampiro ficaram sujas com um pouco de seu próprio sangue secular.

_ Mortos não sangram._ Disse o monstro.

Por causa de sua arrogância e prepotência exagerada Gabriel tinha deixado seu ataúde naquela noite e não tinha se preocupado em “alimentar-se” como era costume entre os seus, como Elizabeth o tinha ensinado quase cem anos antes; ele havia concluído que poderia dar fim aos bisbilhoteiros sem usar cem por cento de suas forças sobrenaturais, e realmente tinha razão ao pensar tal coisa, porém não podia cometer pequenos erros porque as sensações começavam a desconcentrá-lo.

Uma ponta de esperança surgiu no coração de Marco quando viu a bala perfurar o ombro do monstro, mas tinham descarregado as armas no primeiro ataque e lhes faltava munição para uma nova rodada de disparos; teriam que correr até a viatura para recarregar, mas isso daria tempo para que fossem atacados; portanto permaneceram parados no lugar onde estavam com suas armas apontadas para a criatura como se ainda houvesse uma nova rodada de disparos pronto para ser acionada. Gabriel se recuperou sobrenaturalmente e com um sorriso sádico disse:

_ Não tenho tempo nem paciência para continuar este jogo com vocês; por muito menos que isso já matei irmandades inteiras e garanto que antes do fim dessa madrugada nossas diferenças serão acertadas.

Ao terminar de falar, ele, moveu-se daquela forma arrebatadoramente veloz, saindo pela rua como uma flecha. Fernando gritou para que Marco entrasse novamente na viatura e rapidamente saindo em velocidade começaram uma vertiginosa perseguição pelas ruas de Mesquita; à frente Gabriel que hora parecia estar correndo e hora parecia estar voando e bem atrás o veículo com o sargento ao volante fazendo o possível para não perdê-lo de vista, usando toda sua habilidade para tirar o máximo de velocidade que o carro podia oferecer.