Capítulo 28

Os dois zumbis atacaram juntos dessa vez, e o padre sentiu que não estava sozinho na batalha, como não estivera em nenhuma das anteriores; um relâmpago cortou o céu sobre suas cabeças com bastante força e o barulho foi quase ensurdecedor; os monstros, como costumavam fazer, atacaram juntos de forma animalesca enquanto gritavam e emitiam todo o tipo de sons estranhos, Bruno correu atirando-se sobre uma das adagas no chão, se virando a tempo de ver uma das criaturas saltando sobre ele. Num espaço muito curto de tempo o padre empunhou a adaga e se lançou ao encontro do monstro, que quando caiu sobre ele teve seu corpo perfurado pela lâmina.


Bruno conseguiu tirar aquele ser de cima de si, mas deixou a adaga fincada nele, sabendo que o monstro não tocaria no objeto para o retirar. De repente a luz mais violenta que seus olhos já viram iluminou o céu de uma só vez, seguido do estrondo sônico que mais parecia ter sido causado por uma bomba, era outro relâmpago; não, era o pai dos relâmpagos, deduziu o padre, o chão parecia até estar tremendo sob seus pés, tamanho foi ribombar reverberando nos ares.

Bruno não teve reação a princípio, mas quando percebeu que ambos os zumbis ficaram atordoados com a poderosa voz do relâmpago, correu o mais rápido que pôde até a outra adaga de prata e resgatando-a do chão avançou decidido sobre os servos, porém o encanto já havia se quebrado e ambas as criaturas também vinham em sua direção; os três se uniram em um verdadeiro turbilhão de pancadas violentíssimas, enquanto os monstros usavam suas garras para efetuar os ataque em conjunto com seus dentes e saltos em uma espécie de dança macabra, o reverendo se defendia como era possível, providencialmente na expectativa de conseguir cravar a segunda adaga em algum ponto da cabeça de um dos adversários, mas suas manobras não estavam surtindo tanto efeito quanto de costume, embora estivesse desviando ou redirecionando a maioria dos ataques desferidos contra si, ainda sim estava sendo atingido o bastante para minar sua resistência; e cada corte causado pelas garras dos zumbis estavam contribuindo grandemente para isso; por outro lado, ele não conseguia encaixar uma seqüência de reação que os afugentasse e não sabia por quanto tempo suportaria tal pressão.

A certa altura do confronto, Bruno pensava em uma forma de vencê-los e desconcentrou sua mente, abaixando a guarda por um instante, com isso não viu que o ataque de um dos servos passou por seu bloqueio e fuzilou-o bem no meio do tórax, cravando as garras como se elas fossem cinco canivetes em sua carne, logo em seguida a outra mão do monstro acompanhou a primeira cravando-se ao lado da anterior, foi como se seu tórax tivesse sido alvejado por dez flechas com pontas extremamente afiadas que entraram alguns milímetros em seu corpo; antes mesmo que Bruno gritasse por causa da dor lancinante, ele já tinha sido erguido do chão, um palmo, e levado pelo zumbi até o muro mais próximo em alta velocidade. As costas do padre explodiram contra o muro de uma das casas não uma, mas várias vezes; o servo com suas unhas cravadas no peito do reverendo o jogava várias vezes contra a parede de concreto sem soltá-lo, como um boneco; e Bruno tentando suportar aquela dor segurava firme o antebraço do zumbi, fazendo força para tentar tirá-lo de seu peito enquanto forçava a si mesmo a não demonstrar a dor que sentia.

Mas o padre não havia largado a adaga que permanecia inoperante em sua mão direita, até que começou a apunhalar ferozmente o inimigo, mas sem conseguir cravá-la e causar um dano real no monstro.

Um misto de confusão e desespero viajava como um tornado na mente de Bruno devastando qualquer outro pensamento que brotasse em seu cérebro, afinal, naquela hora, naqueles minutos e segundos ele representava o bem numa batalha contra seu eterno inimigo; o mal, e não podia se dar ao luxo de sucumbir; ainda teria de ajudar Fernando e Marco contra Gabriel para que eles tivessem alguma chance. A dor no tórax aumentava à medida que as garras do zumbi rasgavam sua carne mais e mais, e suas costas explodindo contra o muro vez após vez já o estavam derrotando; Bruno desistiu de tentar apunhalar a criatura no tronco e começou a esfaqueá-lo repetidas vezes na cabeça, estava desesperado, pois o ar já lhe faltava nos pulmões; e em uma fração de segundos ocorreu algo sem uma explicação plausível, que mudou o rumo da batalha.

O clarão iluminou toda a extensão da rua, quase cegando o reverendo e permaneceu lá por milésimos que pareceram uma eternidade, simultaneamente ao raio veio sua voz estrondosa explodindo sobre suas cabeças; o zumbi imediatamente largou o padre e emitiu alguns sons, como se estivesse com medo do trovão, e assim que os pés de Bruno tocaram o chão e aquele raio deixou de existir, ele percebeu o medo da criatura, sem perder tempo golpeou o servo na lateral do pescoço com tanta força que o monstro caiu num baque surdo como se não fosse mais do que um saco de areia; Bruno procurou o outro ao redor, visto que havia algum tempo que esse não o atacava, e viu uma cena que o acompanharia pelo resto de sua vida, o corpo do que há alguns instantes era um servo de Gabriel completamente carbonizado; vendo aquilo a mente de Bruno confundiu-se, afinal aquele raio tinha acertado um de seus oponentes a menos de cinco metros de onde ele, Bruno, estava com tanta violência que mais parecia um meteoro arremessado do céu por algum anjo; ao redor do corpo as marcas denunciavam que no momento em que aconteceu, a temperatura devia ter sido muito elevada, porque o asfalto foi completamente destroçado junto com a criatura, e Bruno não entendia como não tinha sentido nenhuma alteração na temperatura ou pior, se de fato o relâmpago tivesse caído ali ele mesmo também teria sido vitimado. Mas não foi e nunca saberia o motivo disso.

Um carro surgiu pela rua em alta velocidade; provavelmente era alguém tentando voltar para casa antes que a chuva que se anunciava caísse e tornasse as ruas em rios intransitáveis, mas ao avistar a moto do padre parada no meio da pista, diminuiu gradativamente até parar próximo à moto e de dentro do veículo saiu um homem de meia idade, mas ao ver um corpo carbonizado que exalava um forte cheiro de queimado a poucos metros à sua frente; o padre parado próximo ao muro que ficava ao seu lado esquerdo e a criatura monstruosa agonizando com uma espécie de faca cravada em seu pescoço; ficou completamente horrorizado.

_ Vá pra casa._ Disse Bruno; completando._ Volte para o carro, passe pela calçada e vá embora agora.

O homem estava pronto para dizer algo com o padre quando o zumbi deixou escapar um último som agonizante e desfaleceu; vendo aquilo Bruno correu até ele e tocando sua cabeça com a palma das mãos disse em voz baixa:

_ Eu te libero._ Retirando a adaga em seguida.

Feito isso correu de volta para a moto, guardou as adagas na mochila que colocou nas costas, passou as mãos no tórax limpando o sangue e subiu na moto, colocou o capacete; e com ela rosnando como um leão partiu na mesma direção que a viatura tinha seguido.