Capítulo 31

O padre parou a moto bem na frente da casa de Gabriel seguido pela viatura; logo que desceram do carro eles viram a janela do andar superior aberta, era o quarto de estudos. Marco olhou mais acima, sobre a casa; sua atenção tinha sido chamada; havia um outro homem de pé na chuva sobre o telhado, mas não era Gabriel, a chuva parecia não incomodá-lo; mas foi só o tempo do cabo piscar uma única vez atrapalhado pela água que caia pesadamente em seus olhos e o indivíduo tinha desaparecido completamente. Ele não estava lá um minuto atrás; surgiu, e no momento seguinte desapareceu de novo como um fantasma ou algo do gênero.


Marco estava pronto para dizer aos amigos o que acabara de ver, quando um sentimento estranho passou por sua mente, ele pensou que se contasse o que tinha acabado de ver tiraria a concentração dos outros e com isso diminuiria ainda mais as poucas chances de sobrevivência que possuíam. O que o cabo não sabia era que tanto o padre quanto o sargento também tinham visto o “fantasma” e pelo mesmo motivo também se calaram.

_ Muito mais coisas do que supõe nossa vã filosofia. _ Comentou o padre mexendo em sua mochila.

_ O quê? Você falou alguma coisa? _ Perguntou Fernando.

_ Não, nada.

Era inevitável sentir medo, e o medo estava se ramificando dentro do corpo de cada um deles, embora Bruno estivesse melhor preparado psicologicamente e sempre munido com sua fé, mas Fernando e Marco lutavam também contra seus pensamentos que tornavam-se cada vez mais obscuros com relação ao futuro.

Depois de recarregar suas armas e reforçarem-se com outras, os soldados andaram até o portão da residência e esperaram pelo reverendo que ainda procurava algo na mochila; pouco tempo depois ele retirou uma cruz pouco maior que um palmo e um vidro contendo essência de alho, bebeu um gole em seguida andou até os outros e ofereceu.

_ Bebam.

Marco não sabia o que era aquele líquido espesso dentro do recipiente, mas quando viu Fernando dar uma grande golada, não duvidou e fez o mesmo; o gosto era terrível e aquilo queimou todo o seu organismo, começando pela garganta e descendo até o estômago. Após isso, ali parados em frente ao portão da casa do vampiro fizeram uma última checagem nas armas e nos objetos de caça; Fernando estava muito bem armado, carregava consigo em um coldre preso à coxa direita a arma das balas de prata e a outro preso à coxa esquerda um calibre 38 comum, sobre a camisa ele colocou um coldre peitoral com mais um 38 e no bolso a granada de Erom Andreas Chagas; presos ao cinto numa alça estavam, uma estaca de madeira e uma pequena marreta; e segurava um calibre 12 em sua mão direita.

Marco estava com um revolver 38 e uma pistola nos coldres do cinto, uma semi-automática pendurada lateralmente com a tira cruzada sobre seu tórax; em suas mãos uma estaca de ferro e outra marreta. E o reverendo Giancarlo Bruno dispunha apenas de sua fiel adaga de prata que segurava na mão esquerda, a pequena cruz que empunhava na mão direita e um pote de água benta no bolso da calça; além de um revolver escondido atrás de si, preso ao cós da calça e coberto pela camisa; que Fernando tinha lhe oferecido como uma proteção a mais.

_ Tudo pronto. _ Disse Fernando, respirando fundo._ Vamos entrar.

_ As coisas que forem vistas lá dentro, deixem lá dentro_ preveniu Bruno; concluindo._Gabriel não é mais um homem, ele não pertence mais ao nosso mundo, portanto não tenham pena dele porque ele não terá pena de nós. E mais uma coisa, vampiros são manipuladores por natureza; ele pode tentar nos envolver em alguma trama psicológica qualquer, portanto não dêem ouvidos a nada do que ele diga. Acreditem nisso e estarão seguros. E que Deus nos proteja.

O sargento ouviu atentamente as palavras do padre e em seguida experimentou o portão, para ver se estava bem trancado, mas este abriu sem apresentar resistência; ele fez sinal e entrou sorrateiramente no quintal castigado pela chuva pesada que não parava de cair; se havia luzes no lado de fora da casa elas não estavam acesas ao contrário das internas que era possível ver iluminando o segundo andar do domicílio.

Bruno e Marco entraram em seguida e fecharam o portão atrás de si; o sargento estava parado junto da porta esperando que seus amigos fossem se juntar a ele, exatamente como aconteceu.

Fernando forçou a maçaneta da porta girando-a devagar e esta abriu sem ruído algum, com as armas em punho entraram; a adrenalina estava a “mil por hora” em seu sangue e Fernando movimentando a calibre 12 em todas as direções, moveu-se rapidamente para o interior da sala sendo seguido de perto pelo reverendo e Marco que cuidava da retaguarda.

Fecharam a porta.

Ao contrário do exterior da casa que estava às escuras, o interior estava totalmente banhado em luz, todas as lâmpadas estavam acesas, mas nenhum sinal do dono da casa; continuando a busca pelos cômodos do andar térreo nada foi achado, nenhum vestígio de que Gabriel estivesse na casa, entretanto Marco afirmava estar sentindo algo estranho que nunca tinha sentido antes; foram até a cozinha passando pelo corredor com uma das paredes de espelho e não encontraram nada; voltaram para a sala e decidiram levar a busca para o andar superior. Só naquele momento eles perceberam que estavam molhando todos os cômodos por onde passavam.

O primeiro cômodo no qual foram procurar foi à sala de estudos, nele viram a água pelo chão partindo desde a janela aberta e molhando todo o quarto, saindo até o cômodo em frente que era supostamente um dos quartos usados pelo vampiro. Marco aproximou-se da janela e olhou para baixo, a chuva entrava fartamente por ela; o padre se distanciou e entrou no quarto em frente, Fernando permaneceu no corredor entre os dois cômodos.

A sala de estudos estava toscamente iluminada por um pequeno abajur, e na parede próximo à janela estava Gabriel; parado, encostado, imperceptível, quase invisível; nenhum dos “caçadores” viu o vampiro ali naquele canto quando entraram, mas ele permanecia lá observando a todos como se estivesse encoberto por brumas místicas que o ocultavam dos olhos desavisados. Marco sentiu a intenção do vampiro de realizar o ataque, mas não houve tempo de nenhuma ação defensiva, exceto gritar por ajuda; Fernando veio até a porta assim que ouviu o grito do amigo e viu quando Gabriel simplesmente se “materializou” de um dos cantos pouco iluminados da sala e empurrou Marco janela abaixo numa queda de cerca de cinco metros até o chão lá fora; ao ver aquilo o sargento não pensou duas vezes, disparou com o calibre 12 no vampiro que ainda estava de costas; Gabriel recebeu todo o impacto do disparo monstruoso e foi arremessado à frente em direção a janela, mas não caiu; apoiou-se usando as mãos nas laterais; o impacto do disparo a curta distância foi tão brutal que quando ele apoiou as mãos nas laterais de ferro da janela para não ser jogado também para fora da casa, elas entortaram fazendo um ruído extremamente alto e metálico; o sangue espirou das costas do vampiro manchando suas roupas, por um curto espaço de tempo foi possível ver os ferimentos, mas rapidamente começou a regeneração; toda aquela cena foi tão insana que Fernando a princípio nem pensou em atirar novamente, por algum motivo que desconhecia queria vê-lo de frente; Gabriel chegou a gritar com a dor causada pelo impacto, mas como sua regeneração foi logo ativada, ele virou-se devagar; Fernando atirou novamente assim que seus olhos se cruzaram com os da criatura, e nesse momento o padre Bruno surgiu correndo; havia ouvido os disparos e chegou a tempo de ver o vampiro tentando se esquivar, sendo atingido bem em cheio no peito; o monstro foi arremessado caindo fora da casa como Marco.

_ Onde está Marco? _ Perguntou o padre.

Fernando estava tentando relaxar os músculos, uma grande tensão tinha se apoderado dele quando viu seu parceiro e amigo sendo jogado pela janela; e ele não fazia idéia, mas percebeu ao ouvir a voz do padre, que estava com os dentes trincados tamanho era seu estado de nervos.

_ Gabriel o jogou lá em baixo.

_ Meu Deus!_ Exclamou.

Bruno não teve dúvidas, puxou o policial pelo braço e juntos desceram os degraus da escada que os levaria novamente para a sala no andar de baixo; enquanto faziam isso Fernando recarregava a arma, só podia efetuar dois disparos por vez. Mas logo que desceram viram a porta da sala que haviam fechado quando entraram, aberta e uma silhueta se apresentava parada de pé no lado de fora, na chuva; tanto o padre quanto o policial apontaram na direção daquele ser, afinal podia se tratar de Gabriel, ou outro servo dele, outro vampiro do “ninho”, quem poderia dizer; mas o homem se moveu para dentro da casa de modo tosco e com movimentos pela metade como se os ossos de suas articulações estivessem todos com defeito. Quando a luz da sala banhou o indivíduo, ambos os caçadores se aterrorizaram de tal forma com o susto que largaram suas armas, era Marco, estava exatamente como um dos servos reanimados do vampiro, sua aparência era medonha, seus olhos estavam voltados para cima e opacos, sua face estava pálida como mármore e ele tentava dizer algo numa espécie de agonia aprisionada.

Quando Fernando ameaçou correr na direção do amigo abandonando totalmente a calibre 12 jogada no chão, antes que o padre pudesse avisá-lo; Gabriel tomou forma como um vulto negro e esmurrou o policial pelas costas jogando-o contra a parede, Bruno abaixou, pegou a arma do chão e atirou duas vezes, mas o vampiro já tinha desaparecido novamente. Fernando ergueu-se reclamando muito, provavelmente tivesse fraturado o ombro onde recebeu o golpe, não sabia ao certo. Mas a dor era violenta por demais.

_ Padre, joga a minha arma. _ disse.

Mas antes que Bruno esboçasse qualquer movimento, Gabriel surgiu novamente com suas roupas negras esvoaçastes e como um relâmpago jogou-se sobre Fernando. Bruno vendo a cena que se apresentava diante dele pensou em atirar mais algumas vezes, mas temeu acertar seu amigo que se encontrava nas garras do monstro, teria de ajudá-lo com as próprias mãos. Sacando sua cruz da cintura partiu para o vampiro que esmurrava seu amigo indefeso no chão, mas antes de chegar a eles Marco saltou na frente gritando como um louco derrubando-o também. A coisa estava realmente feia, finalmente Gabriel tinha tomado o controle da mente e do corpo do cabo e, com isso, ordenado o ataque contra o reverendo; Marco tornara-se mais um servo do monstro.

A tempestade continuava caindo como se fosse um novo dilúvio do lado de fora da casa e Fernando se viu no chão frio daquela sala gritando e se debatendo como um maluco; o vampiro estava sobre ele com o peso de uma coluna de concreto e socava com aquela força sobrenatural que só havia sentido dos servos; mas de repente como que por mágica ele tinha sumido da sala mais uma vez.

O sargento sentia o sangue que escorria de suas narinas e dos cantos de sua boca, devia ter quebrado alguns dentes, além disso, viu a feroz luta entre Bruno e Marco ou o que restou dele; Bruno tentava dissuadir Marco a não atacar, a resistir, a viver, a lutar contra a influência da criatura em sua mente, mas parecia inútil. Fernando se levantou o mais rápido que pôde ignorando as dores e o sangue que corria em sua face, e com muito esforço conseguiu puxar Marco retirando-o do confronto com o padre que meio atordoado lançou mão da cruz que estava ao seu lado e em voz alta gritou para que Marco olhasse para o artefato.

_ OLHE PARA A CRUZ! _ Gritou o padre.

Marco esboçou uma nova tentativa de ataque, como se naquele momento uma nova ordem tivesse sido dada em sua mente, mas ao ver a cruz e ouvir as palavras do reverendo se deteve.

_ OLHE PARA A CRUZ!! _ Continuava gritando o padre, como que chamando o espírito do jovem policial de volta ao corpo que estava tomado pela força de vontade do vampiro.

_ PARA A CRUZ!!! _ insistia Bruno.

Fernando assistia a tudo abismado, não sabia o que pensar, seu amigo e parceiro dominado por uma força do mal e o padre tentando usar de um tipo de exorcismo rudimentar na esperança de trazê-lo de volta a si e impedir que seu corpo se deteriorasse como ocorria com os servos.

_ Lute!_Disse o padre._ Está me ouvindo Marco? Lute! Não se entregue!

Marco gritava como se tivesse perdido completamente o juízo e Bruno continuava insistindo.

Mantendo-se em alerta o sargento apanhou a calibre 12 do chão e levantando-se ouviu Bruno recitando mais uma vez palavras que sabia que eram da Bíblia. Repentinamente lágrimas cairam dos olhos de Marco que piscou, seus olhos que até então estavam revirados voltaram ao normal e o choro veio como uma torrente, o cabo caiu de joelhos sem se agüentar, chorando alto e sem controle. Estava livre.

_ O que houve Bruno? _ Perguntou Fernando. _ O que você fez com ele?

Bruno abaixou a cruz, respirou fundo e disse:

_ Ele está temporariamente livre, mas não sei o quão forte é o elo entre eles, portanto temos que destruir o vampiro antes que a influência volte à mente de Marco.

Fernando carregou a arma enquanto o padre continuava:

_ Sejamos rápidos nessa caçada, pois já tivemos uma demonstração do poder do vampiro e não sabemos quantos outros vampiros submissos do “ninho” ele pode ter convocado para defendê-lo; na próxima vez que esse monstro surgir, haja o que houver acerte a cabeça ou o coração, qualquer outro ponto do corpo dele é perda de tempo.

Marco estava em choque caído na posição fetal tremendo e chorando muito, totalmente alheio aos acontecimentos a seu redor; ao ver o amigo ali no chão, o sargento teve pensamentos não muito positivos, pensou que poderia morrer naquela noite e nunca mais ver suas amadas Sarah e Paula, mas subjugou a depressão que tentava tomar seu coração e saindo do transe ouviu o padre disser:

_ Em frente.

Deixando Marco para trás eles saíram da sala parcialmente destruída e rumaram para a cozinha; armas em punho, adrenalina no sangue e medo na mente; seguiram, estavam dispostos agora mais do que nunca a dar um fim naquela situação.

Cuidadosa e sorrateiramente eles seguiram pelo corredor e notaram que o enorme espelho da parede não estava totalmente encaixado como deveria estar; mais parecia uma porta entreaberta; Bruno fez sinal apontando e com uma das mãos depois de se aproximar começou a puxar o espelho que se moveu realmente como uma porta abrindo-se para fora, e revelando por detrás dele, para espanto dos caçadores, uma grossa porta de ferro que se abriu com um pouco mais de esforço pelo fato de seu enorme trinco já estar aberto, caso contrário nem mesmo os dois juntos conseguiriam movê-lo; somente uma força sobrenatural como a de Gabriel teria efeito sobre aquele grande ferrolho que se parecia com o de uma porta antiga de cofre bancário. Após a porta de ferro, estava literalmente um úmido e escuro buraco com degraus que levaria qualquer um que se arriscasse a segui-los ao subsolo da mansão, uma espécie de cripta, ou na melhor das hipóteses um porão; como pensou Fernando.

_ A porta do porão. _ Ele disse.

O padre olhou para ele e rebateu:

_ A cripta; talvez o caixão dele esteja lá em baixo e...

Gabriel surgiu novamente andando da sala, aplaudindo-os sarcasticamente.

_ Bravo; estou impressionado com tamanha demonstração de desespero; vir à minha casa para me confrontar; suas vidas seriam muito melhores se tivessem esquecido tudo isso e como a maioria das pessoas, passassem por ela sem atentar para o mal.

Os dois caçadores se viraram para encará-lo enquanto falava com um leve sotaque germânico.

_ Eu nunca caí diante de adversário algum, não serão vocês, meros policiais militares, os mais desacreditados dos homens e padre caçador iniciante que vão me fazer tombar.

Fernando ouvia as palavras do vampiro tencionando o gatilho da arma calibre 12 com o dedo; estava pronto para disparar, mas por estar muito nervoso não sabia se acertaria o ponto que devia.

_ Sabem de uma coisa. _Continuou Gabriel. _ Há alguns anos eu aprendi que sempre chove forte assim não só em Mesquita, mas em todos os lugares quando algo de cunho sobrenatural importante está acontecendo, e olhando para toda essa água que cai lá fora senti que pode ser por causa de nossa batalha; sinto-me honrado, pois isso nunca aconteceu comigo antes, é possível que os poderes celestiais estejam vendo grandes desdobramentos surgindo a partir desse confronto; portanto vamos fazer por merecer tanta atenção.

Bruno ergueu a cruz na direção do vampiro que recuou alguns passos ao vê-la, levando a mão para esconder sua face.

_ Terá que vencer forças que não consegue suportar para nos matar demônio._ Falou o padre avançando com a cruz em punho na direção de Gabriel.

Fernando ergueu a arma esperando o momento certo de atirar e procurou manter a concentração enquanto mirava a cabeça do oponente, não deixando o nervosismo tomar o controle da situação; Gabriel escondia o rosto por detrás das mãos para não olhar diretamente para a cruz e recuava alguns passos à medida que Bruno avançava com Fernando mirando a seu lado.

_ Essa cruz não vai ser suficiente para protegê-lo, não de mim e não aqui. _ Disse o vampiro com sua voz se tornando cada vez mais gutural.

Tanto o padre quanto o policial viram os olhos do mostro parcialmente escondidos por detrás de suas mãos mudando de cor como se fossem brasas.

_ Olhem para mim. _ Falou a criatura. _ Como acham que vão sair dessa casa? Suas vidas terminam hoje e eu vou gostar de fazer isso.

Fernando não queria mais dar ouvido a tanta loucura, estava perdendo o controle; não resistiu e atirou contra seu inimigo assustando o reverendo que estava muito próximo. Gabriel tentou sair da linha de fogo, mas não conseguiu, precisava se alimentar para realizar tal manobra com perfeição; o disparo acertou o braço e ombro, dilacerando as roupas negras no lugar onde foi o impacto.

Embora eles soubessem com quem estavam lhe dando continuavam a se espantar, se o tiro tivesse acertado uma pessoa comum naquelas condições com certeza teria arrancado o braço do ombro, mas com o braço de Gabriel isso não ocorreu; ele estava dilacerado e sangrando muito, um sangue mais escuro e espesso do que o humano, mas ainda estava lá. O vampiro inflamou-se em tamanha fúria que avançou sobre os dois e quando chegou ao outro extremo do corredor junto ao limiar da cozinha; primeiro olhou de soslaio e depois virou-se devagar sacudindo o braço atingido; tanto Bruno quanto Fernando estavam no chão; Gabriel tinha passado por eles como um vento, disparando poderosos murros que os jogaram de encontro as paredes e em seguida ao solo.

O sargento levou a mão à boca, porque novamente um líquido quente escorria por ela; havia sido golpeado com tanta violência no abdômen que imediatamente o sangue surgiu abrindo caminho garganta acima até sair; nem os zumbis servos tinham demonstrado tanta força e brutalidade.

Bruno levantou-se mais rápido que o amigo, porém tão atônito quanto; ele ignorava os novos rasgos feitos pelas unhas do vampiro em seu peito, sobre os ferimentos anteriormente provocados pelas garras dos servos, a dor terrível que vinha sentindo desde seu confronto anterior tinha se multiplicado, percebeu que deveria ter recebido pelo menos mais cinco ou seis novos rasgos profundos em sua carne; procurou pela cruz e a viu na mão do monstro, ele a olhava com aqueles olhos incandescentes de vampiro.

_ É incrível como tão poucas pessoas sabem a verdade sobre o poder que a eles foi dado. _ Disse._ E se escondem por detrás dos ícones.

Fernando se levantou procurando a calibre 12, mas essa estava no chão sob o pé direito do vampiro enquanto ele falava sobre a cruz. Apoiando-se na parede do corredor e forçando-se a levantar o sargento levou a mão à cabeça que doía, e abismado viu o vampiro manuseando a cruz, Fernando pensava que fosse impossível para o monstro tocar naquele objeto.

_ Você me surpreende Bruno. _ Rosnou o vampiro. _ Às vezes sua fé o faz se portar como se tivesse dons tão maravilhosos quanto os meus, só que sem ter de pagar o preço; como quando você venceu meus guardiões em sua igreja, mas outras vezes sua devoção o torna como uma criança cega.

A voz do monstro não mais estava gutural, e seus olhos deixaram de emanar aquele brilho sobrenatural e furioso, porém ainda não eram olhos humanos. Estavam completamente negros como os olhos de um morcego.

Bruno pensou em repelir aquelas afrontas, mas resolveu não entrar no jogo dele, afinal tinha vindo até aquela casa para pôr um fim na existência daquele ser desprezível e restabelecer a paz na cidade.

_ Sabe; eu podia chamar por meus filhos e pupilos que estão bem alojados em seus ninhos, e oferecer vocês como alimento para eles, assim como outros policiais que estiveram bisbilhotando por lá tempos atrás, mas por terem sido tão dedicados a essa caçada, me proporcionando momentos de dor e diversão, não farei isso; eu mesmo os enfrentarei conforme anseiam e veremos quem sobreviverá.

Dito isso Gabriel avançou novamente invocando sua velocidade sobrenatural e Bruno tentou se encostar na parede para não ser atingido, mas sentiu quando foi pego pelo pescoço e arremessado sobre Fernando, com ambos caindo novamente na sala. Quando tentou levantar já prevendo um segundo ataque Fernando foi pego de surpresa por Marco que estava de pé segurando sua pistola de forma trêmula, não mais como um dos servos de Gabriel, mas ainda sim visivelmente perturbado em seu interior, ele choramingava e murmurava coisas desencontradas, além de estar apontando a arma para seu parceiro. Bruno ao ver tal cena se colocou de pé em tempo de ver o vampiro sorrindo junto à escada que leva ao andar superior e sacando o revólver 38 que estava preso no cós da calça apontou para a criatura.

_ Saia da minha mente!_ Dizia Marco desesperadamente batendo com uma das mãos em sua própria cabeça e nitidamente lutando contra a vontade de apertar o gatilho e colocar um fim na vida de seu amigo e parceiro Fernando.

_Gosta de Jogos padre?_ Perguntou o vampiro. _ Eis aqui um; você atira em mim e meu mais novo servo atira no policial, só preciso intensificar um pouco mais a pressão sobre ele para que aperte o gatilho; entretanto, um tiro bem dado de sua parte em minha face seria de difícil regeneração e você teria o tempo suficiente para enterrar essa estaca presa ao seu cinto no meu coração, mas esse ato liberaria meu servo para mandar seu amigo para o “outro lado”, então lavai minha pergunta: Você seria capaz de fazer essa troca? Seu amigo policial por mim?

Durante todo o tempo em que o vampiro falava, Fernando pedia para que o padre atirasse no monstro sem se importar com as conseqüências, mas Bruno como padre não podia ceder àqueles apelos; não podia matar Gabriel ao preço da vida de Fernando. Nunca.

Bruno olhava a todo o momento para Gabriel parado junto à escada com aquele ar de vitória no rosto; tão pálido que era possível até ver suas veias desenhando-se em sua face; e em seguida olhou para Marco trêmulo apontando a arma para Fernando, o padre não sabia como sair daquela situação, mas estava tão perto de por um fim no monstro que não podia desperdiçar tal oportunidade. Fernando suava frio só de imaginar que seria morto por seu melhor amigo e nunca mais veria sua família, falharia exatamente como Erom Andreas, cairia diante do mesmo adversário; se pelo menos Marco errasse o tiro ou acontecesse algum contratempo, seria o suficiente para que ele esboçasse uma reação qualquer; mas Marco não erraria o disparo, não àquela distância em que estava.

Gabriel observava a cena que acabara de construir, como um artista que contempla sua criação; ignorando a dor em seu interior por não se alimentar, mas logo tudo se resolveria, mataria o padre e usaria o cabo para dar fim ao sargento e se alimentaria de ambos antes mesmo que esfriassem; mas tinha de ser rápido, estava ficando cada vez mais difícil manter o elo mental com seu mais novo lacaio por causa da sede cada vez mais violenta que sentia.

Repentinamente Bruno recuperou a serenidade e disse:

_ Eu vim até aqui para dar um fim em você e em toda a sua maldade, e é exatamente o que vou fazer.

Gabriel riu alto, mas se interrompeu ao ver o padre estender a mão esquerda espalmada na direção de Marco enquanto mirava segurando a arma com a mão direita.

_ O que vai fazer? _ Perguntou o vampiro sentido algo estranho, algo como se mais alguém surgisse na sala, o que era impossível, porque não havia mais ninguém no local além deles; usaria seus olhos sobrenaturais para enxergar “do outro lado”, mas foi logo surpreendido pelo disparo certeiro do reverendo, só tendo tempo de liberar seu servo para matar o outro policial, antes de sentir a bala de chumbo quente perfurar bem entre seus olhos.

Marco sentiu uma poderosa força ordenando tão ferozmente para que atirasse em Fernando que mesmo não sendo aquilo o que ele queria, teve de fazê-lo, apertou o gatilho aos prantos, pois mataria seu melhor amigo e estava lúcido para ver o crime que ia cometer, mas incrivelmente a bala não abandonou o cano da arma; nada aconteceu, ele apertou o gatilho novamente, nada; mais uma vez, e nada ocorreu; Marco apertou o gatilho várias vezes gritando em prantos como um louco, mas não funcionou, era como se a arma estivesse descarregada.

Fernando já tinha fechado os olhos e se acostumado com a idéia de morrer, quando ouviu o disparo do padre e em seguida toda aquela cena com Marco aos berros por não ter conseguido cumprir sua ordem mental; e em menos de um segundo Fernando percebeu que tinha ganhado uma chance, ele viu Bruno com a mão estendida na direção de Marco, como que usando de algum modo desconhecido para deter as balas dentro do tambor.

O grito de Gabriel mais pareceu um urro; Fernando o viu cambalear como se “fosse beijar a lona” e avançou sobre ele para com as mãos nuas dar “o golpe de misericórdia”, mas o mostro não caiu, o sargento reuniu toda força que conseguiu e esmurrou o rosto da criatura, bem onde a bala havia feito um buraco; e quebrou a mão e o pulso; foi como bater em uma coluna de concreto, em contra partida Gabriel o segurou pelo pescoço com aquelas garras animalescas perfurando sua carne, e com os olhos de vampiro, os dentes longos à mostra e o arremessou para cima; o sargento se chocou contra o teto da sala de forma brutal e ao cair sentiu o soco do vampiro destruir pelo menos mais duas de suas costelas antes de chegar ao chão, arremessando-o em outra direção, para o outro lado da sala, por sobre os quadros na parede em um choque ainda maior do que o primeiro.

Por um momento a gravidade perdeu efeito sobre o corpo de Gabriel que tentou fugir gritando e correndo pela parede mais próxima, mas agora Bruno empunhando a arma com ambas as mãos atirou, e atirou de novo, e mais uma vez; acertando o vampiro mais três vezes, fazendo-o cair. O reverendo aproximou-se atirando mais duas vezes; depois lançou mão do pequeno frasco contendo a água benta que trazia em seu bolso, abriu e despejou o conteúdo sobre o vampiro caído que se contorceu de tal modo que foi possível ouvir seus ossos estalando em meio aos seus gritos guturais.

Se Gabriel tivesse se alimentado antes da batalha, talvez o rumo tivesse sido outro; mas ele preferiu jogar com a vida e agüentar a sede que o consumia; agora estava sendo vencido; um vampiro, um predador de homens com tantas batalhas sobre os ombros que era difícil até de lembrar, pela primeira vez na última metade de século estava sentindo medo; o predador havia se tornado finalmente a presa.

Enquanto a criatura era consumida pela água que o corroia como ácido e Bruno procurava a estaca para finalizar a caçada, Fernando se levantou lutando contra as dores absurdas que sentia no tórax, no pulso, na boca, no pescoço, no ombro e ao ver Gabriel daquela forma se contorcendo no chão não pensou duas vezes; lançou mão da arma que estava com Marco ignorando a dor em seu corpo e atirou mais três vezes.

_ São pela minha família._ Sussurrou ao disparar.

Bruno surgiu com a estaca e ajoelhando-se junto ao monstro a enterrou no peito da criatura, fazendo com que todos aqueles espasmos finalmente parassem imediatamente. Gabriel fora vencido.

O momento seguinte foi de um silêncio fantasmagórico; Marco parou com sua gritaria e começou a recobrar o juízo; Bruno sentado ao lado do corpo inerte do vampiro olhava para as paredes e respirava profunda e vagarosamente; e Fernando deitou-se devagar no chão frio da sala, chorando e soluçando baixinho, por conta das incontáveis dores que sentia por todo o corpo, afinal tinha quebrado o pulso, os ossos dos dedos da mão direita, e com certeza duas costelas no mínimo.

_ Terminou._ Disse Bruno após alguns minutos._ Finalmente terminou.

Marcos sentou-se, mas não conseguia ficar de pé para ajudar seu amigo a quem quase matara.

_ Padre_ Disse Marco_ não consigo ficar de pé, estou tonto. Meu Deus!

Bruno ergueu-se ainda olhando para os restos de Gabriel e procurou pela sala até encontrar caído junto ao sofá o telefone; tomando-o ligou para a emergência e solicitou que enviassem uma ambulância ao local, descrevendo o endereço e dizendo que ali se encontravam dois policiais extremamente feridos dentro da residência. O padre estava tão ferido quanto os outros, sua camisa preta escondia um pouco do sangue que escorrera por seu tórax, mas em alguns pontos onde as garras dos zumbis penetraram havia perfurações que estavam à mostra.

_ Agüentem mais um pouco_ disse o padre_ em poucos minutos o socorro estará aqui; eu vou tirar Gabriel desse lugar antes que eles cheguem.

Marco se arrastou para junto de Fernando e deitou-se, enquanto Bruno arrastava o cadavérico Gabriel para fora da casa; ao sair percebeu que a poderosa chuva que caía do céu quando o confronto começou tinha se tornado apenas uma tênue garoa.

Em pouco tempo a ambulância chegou à casa e um rápido atendimento foi prestado aos dois; nem Bruno nem Gabriel estavam mais pelas redondezas, outras viaturas da polícia chegaram em seguida, temiam que fosse mais um confronto contra criminosos.

Assim findou-se mais uma batalha travada em Mesquita, apenas mais uma das tantas que ocorrem diariamente sobre a face da terra, sem o conhecimento das pessoas, algumas são tão evidentes quanto esta, outras são tão sutis que jamais serão notadas ou contadas.