Capítulo 7



Os sentidos começaram a voltar lentamente, um a um, pouco a pouco; ele sentia seu corpo sendo arrastado pelos pés e uma dor terrível atravessava sua coluna a partir da nuca, onde recebera o golpe. Os músculos doíam fortemente e a paralisia estacionada em seu corpo começava a se desfazer quando sentiu que não mais estava sendo puxado; os olhos foram se abrindo devagar, estava enxergando tudo em dobro, mas em poucos segundos as coisas estavam em seus devidos lugares. Estava no quintal dos fundos de sua própria casa, deitado na grama, viu seu cachorro “Pit” deitado poucos metros à frente e ao lado dele parado, ajoelhado estava uma das criaturas.


Forçando as mãos no gramado e lutando contra a dor do corpo, Fernando obrigou-se a levantar, mas não conseguiu ficar de pé logo na primeira tentativa; sentou-se então passando a mão esquerda na nuca dolorida por um tempo. Como num estalo lembrou-se da família e olhou ao redor para procurar a esposa e a filha.

Sarah estava deitada a alguns metros às suas costas e era observada por outro daqueles monstros; e a pequena Paula estava desacordada nos braços de um terceiro deles; Fernando não sabia quanto tempo esteve desmaiado, mas sabia que precisava fazer algo para livrar a filha das garras daquela criatura. Era como estar em um filme de terror.

Tentou ficar de pé novamente e com um pouco de esforço conseguiu, os três monstros voltaram-se em sua direção; e a faca que usara na batalha da cozinha estava no chão, mas um pouco distante dele; embora soubesse que com as mãos nuas nunca conseguiria superar a força das criaturas, precisava da faca para ter o mínimo de chance, mas estava com muito medo de que ao tentar pegá-la; eles fizessem algo com seus familiares.

A pequena menina se contorceu nos braços do monstro, ela estava voltando a si e logo que abriu os olhos começou a chorar violentamente, vendo seu pai a poucos metros, ela estendia os braços e gritava por socorro; Fernando não tinha muita escolha, afinal o homem pútrido começava a se mostrar irritado com o choro alto da menina; o policial forçou a sua vontade sobre a dor que sentia no corpo e correu o mais rápido que pôde na direção da faca; a criatura que estava mais próximo dele, aquela ajoelhada junto ao cachorro morto, saltou e cobriu facilmente a distância que os separava; como se aquilo não fosse um pulo e sim um vôo curto. Correndo para a faca Fernando estava abismado com a velocidade que aquela espécie de zumbi atingira durante o pulo, ele se arremessou ao chão quando percebeu que não chegaria a seu destino a tempo e a criatura caiu bem sobre ele, segurando-o pelas costas começou a levantá-lo; o desespero fazia com que as mãos do policial passassem pelo gramado à procura de algo em que pudesse se agarrar, ele se debatia para dificultar a ação do zumbi, mas era inútil, o “monstro” tinha a força de muitos homens. Finalmente em meio a todo aquele desespero Fernando viu a faca no chão poucos centímetros à frente de sua mão direita, mas essa distância aumentava à medida que era tirado do chão.

Estendendo a mão o mais que pôde e lutando com todas as forças contra as dores terríveis que sentia, ele alcançou a faca e uma ponta de esperança surgiu; segurando firmemente o utensílio, ele tentou virar-se para acertar a lâmina nos pulsos do monstro, mas antes de realizar o movimento já havia sido arremessado novamente, caindo contra o solo e ainda mais longe de sua esposa e filha.

Seu corpo não respondia aos comandos que a mente enviava, estava exausto, sem forças e jogado ali no chão com os braços e pernas estendidos na grama levemente molhada pelo ar noturno; Somente seus olhos se moviam, mas era o suficiente para ver que os três “mortos-vivos” estavam indo embora com aquela velocidade fora do comum; um deles tinha jogado a menina com extrema brutalidade contra o chão e sumiu tão rápido que Fernando não conseguiu acompanhar; foi quando ele percebeu a claridade de um novo dia se insinuado no céu escuro. Já estava amanhecendo.

Fernando ficou mais um longo tempo deitado sem mover nenhum músculo, somente respirando para tentar recuperar parte das energias, e após uma meia hora, mais ou menos, seus braços e pernas já se movimentavam doloridamente e ele começou a levantar; colocou-se de pé com dificuldade e andou com dificuldade ainda maior até se aproximar de Paula, tomou-a em seus braços e odiando profundamente a si mesmo por não ter conseguido livrar aquele pequeno anjo de todas aquelas atrocidades; mancando ao caminhar, Fernando a levou para dentro de casa e a deixou em sua própria cama, a princípio um pensamento de que as criaturas poderiam voltar surgiu em sua mente; mas já era dia, o céu estava claro e além do mais algo lhe dizia que aquelas criaturas não toleravam a luz do sol.

Depois de deixar a menina na cama ele voltou ao gramado da frente para buscar sua esposa que permanecia deitada, imóvel; exigindo ainda mais de seus músculos doloridos ele a carregou para o mesmo quarto onde havia deixado a filha, ainda teve o trabalho de buscar um lençol e cobri-las, deixando que finalmente descansassem da terrível noite; pensou em acionar a polícia e em poucos minutos sua casa estaria povoada pelos seus colegas de trabalho, mas percebeu que tudo isso não seria uma boa ideia, afinal, o que diria a eles? “Fui atacado por três “mortos-vivos”; portanto, logo desistiu.

Ficou um tempo sentado no chão ao lado da cama tentando digerir aquela experiência aterradora e olhando para sua família.

Após um banho rápido, o próprio Fernando preparou um café bem forte e mesmo sem gostar muito dessa bebida o tomou bem quente e sem açúcar, todo numa única golada; recolheu as coisas reviradas pelos cômodos da casa e sentado no sofá que estava fora de seu devido lugar na sala aplicou um spray para luxações musculares em pontos pelos braços e pernas, massageando fortemente em seguida; consultou o relógio de pulso verificando que já eram seis e quarenta e cinco da manhã de domingo e depois ficou sentado por mais um longo tempo, parado, pensando. Involuntariamente as lágrimas começaram a rolar.