Capítulo 8

Algumas horas mais tarde o policial Fernando já estava em seu carro se dirigindo à igreja, queria falar com o padre Bruno o mais rápido possível, mas enquanto não chegava; enquanto seu Tempra percorria a avenida Emílio Guadany no sentido centro, ele permanecia mergulhado em pensamentos; tinha sido muito difícil e doloroso tentar explicar para Sarah toda aquela loucura acontecida horas antes, e suas palavras não haviam ficado muito claras nem para ele mesmo; não sábia o que dizer, afinal tudo aquilo fugia da compreensão de quem quer que fosse; tinha sido ainda mais difícil vê-las partir para a casa de sua sogra em Niterói; queria impedi-las de ir mais não sabia se poderia proteger seus tesouros mais preciosos contra aquelas coisas, e com o coração queimando não fez objeção. Era para seu próprio bem.


No fim ele até achou melhor que elas se afastassem de Mesquita até toda confusão ser resolvida e Gabriel destruído de uma vez por todas; embora não acreditasse na história que o padre lhe tinha contado, não havia como negar os acontecimentos de algumas horas antes; o modo como a criatura engatinhava pela parede como se esta fosse o chão, isso sem falar em toda aquela força que eles possuíam e os saltos que mais pareciam pequenos vôos.

Virando calmamente o volante para a esquerda, Fernando ia contornando a praça central da cidade e varria o local com seu olhar, afinal os primeiros ataques foram naquele lugar, e só agora ele percebia uma sinistra ligação entre eles e a “criatura Gabriel”; dois corpos foram achados na praça uma semana antes de acontecer com o senhor José Firmino, e segundo o parecer do departamento médico do corpo de bombeiros que foi quem os recolheu, as mortes foram causadas pela ausência demasiada de sangue no organismo das vítimas; na época que recebeu essas informações pela primeira vez isso não significava absolutamente nada, mas agora, lembrando das palavras do reverendo Bruno quando disse: “Gabriel Weldher é um vampiro” e das criaturas que o visitaram durante a noite. Bem, isso mudava a situação de figura.

O carro finalmente estacionou na frente da escadaria da igreja, mas Fernando permaneceu lá dentro reunindo coragem para sair e conversar com o padre, afinal, que tipo de loucuras Bruno revelaria dessa vez.

Alguns minutos depois ele saiu do carro e começou a subida rapidamente, com a mão esquerda segurava sua arma das balas de prata colocada em sua cintura e coberta pela camiseta larga que estava usando; chegou ao topo da escadaria e viu que a igreja estava muito mais movimentada do que da primeira vez que a visitara, uma das missas de domingo tinha terminado poucos minutos antes. Fernando entrou e sentou-se no último banco; deste lugar ele contemplava as imagens nos vitrais espalhados por grande parte da nave central da igreja, coisa que nunca tinha feito em sua vida. O padre cumprimentava algumas pessoas, mas viu quando o policial entrou e sentou-se; sinalizando com o dedo pediu que aguardasse só mais um momento; quando Bruno terminou suas considerações para com aqueles fiéis, o sargento se levantou e foi até ele, estendendo a mão cordialmente.

_ Bom dia padre._ Disse ele.

_ Bom dia policial. _ Retribuiu o padre apertando a mão do outro.

_ Precisamos conversar.

_ Claro, vamos lá para dentro.

Ambos andam pelos corredores internos e chegam ao escritório anteriormente visitado, lá tomando acento, Bruno na cadeira atrás da mesa e Fernando na cadeira à frente dela começaram a conversa.

_ Muito bem policial, o que o trás novamente aqui? _Antecipou-se o reverendo.

Fernando ainda tentava se acomodar na cadeira de modo que suas costas não doessem tanto, mas não estava sendo bem sucedido.

_ Não sei como começar padre, mas digamos que eu agora acredite naquela sua história sobre Gabriel. Como fazemos?

Bruno franziu as sobrancelhas como se não entendesse a natureza da pergunta.

_ Como assim o que fazemos?

_ É, eu quero saber como paramos ele?

Bruno sorriu por um instante e disse:

_ Escute Fernando, essa não é uma batalha que você ou sua polícia possam vencer, isso está além, deixe que eu cuido de tudo.

Fernando devolveu o sorriso enquanto olhava para o teto da sala onde estavam e continuou.

_ Escute padre, o senhor está esquecendo que eu sou policial, mas não pretendo fazer isso através dos meios tradicionais, ou seja, pretendo procurar esse Gabriel por conta própria; além do mais nasci e cresci aqui em Mesquita, não posso cruzar os braços enquanto um psicopata homicida, ou seja lá o que ele for, mata as pessoas bem debaixo do meu nariz.

_ Mas veja. _ disse o padre._ Gabriel é um predador, ele não é humano; foi concebido com o único fim de ceifar vidas, você sabe o que isso significa?

_ Serei bem sincero com o senhor _ os olhos de Fernando denunciavam o estado de abalo emocional em que estava mergulhada sua alma desde a madrugada passada_ Eu nunca tive tanto medo de algo em toda a minha vida, e a vontade que tenho e de... sei lá, fugir para outra cidade ou me esconder; o que vi essa madrugada ninguém nasceu para ver, mas parece que estou ligado, imerso nisso até o fim, ou resolvo as coisas ou...

O sargento balançou a cabeça negativamente sem palavras para terminar a frase.

Enquanto isso Bruno o analisava; cada palavra que ele pronunciava. Os dois ficaram um minuto em silêncio, até que o padre recomeçou.

_ Por que você está dizendo isso? O que houve?

Fernando fechou os olhos e respirou fundo antes de falar.

_ Não sei o que houve, mas fui visitado ontem; digo, esta madrugada; três criaturas invadiram minha casa, reviraram meus móveis e tudo que eu tenho, fizeram minha família viver um verdadeiro inferno. Tenho a sensação de que Gabriel quer me intimidar.

_ Não. _ Disse Bruno_ Ele não queria intimidá-lo, se pretendesse fazer isso teria ido ele mesmo na sua casa e matado a todos bem na sua frente, acredite em mim quando digo que é isso que ele faria; parece que ele quer te dar um recado.

Fernando ficou chocado com as palavras do reverendo.

_ Que tipo de recado?

Bruno se inclinou levemente para frente apoiando-se sobre a mesa com os braços e continuou.

_Escute bem; Gabriel gosta de se mostrar superior, não só ele, como todos de sua espécie, mas esse em particular é muito arrogante e presunçoso, ele usa seus “dons”, se é que posso chamar assim, para se mostrar mais do que os outros e dessa forma chamar atenção desnecessária para si; não sei ao certo o que ele quer, mas me parece algum tipo de jogo insano.

_ Outros? Como assim outros? _ Fernando estava surpreso. _ O senhor está falando realmente sério? Há mesmo vampiros em Mesquita?

_É possível_ disse o padre, continuando_ Mas ainda não há indícios de que estejam instalados aqui com uma estrutura definida e bem organizada, embora eu acredite terminantemente que estão.

_Inacreditável. _ A palavra saiu como um suspiro.

_Essas criaturas não costumam ter facilidade em coabitar entre si, não é como nos filmes ou nos livros, não são criaturas românticas e arrependidas que vivem se punindo ou tentando compensar alguma coisa e não são sentimentais, pelo contrário, são demônios repletos de ódio e luxuria; almas corrompidas. Viver em harmonia mesmo entre ele é extremamente difícil, com exceção de algumas chamadas famílias, mas para dizer a verdade não sei como isso funciona.

Fernando estava tenso.

_ Então por que o senhor disse “outros”?

Bruno sorriu levemente amenizando o clima tenso que havia se formado naquela pequena sala antes de responder.

_ Você já ouviu disser que quando uma formiga encontra o açúcar, mesmo que você a mate todas as outras da colônia saberão onde encontrá-lo?

Fernando se viu perdido, sem entender onde aquela conversa ia levá-los; o padre tinha começado a filosofar e ele sentia como se estivesse perdendo a chance que lhe restava de viver.

_ É um pensamento antigo_ explicou Bruno. _ Os antigos caçadores costumavam disser isso aos novatos; significa que mesmo que consigamos destruí-lo outros virão e tomarão seu lugar; como uma hidra, se você cortar uma cabeça outra nascerá no lugar.

O policial não tinha idéia do que era uma hidra. Ele disse:

_ Padre, tudo que sei é que temos que destruí-lo ou matá-lo ou qualquer coisa desse tipo, não tenho mais escolha; estou com medo até de fechar os olhos por um instante que seja, porque vejo aquelas criaturas aqui na minha mente._ Fernando apontou para a própria cabeça e continuou._ Não posso admitir que minha família passe a vida com o mesmo medo que eu estou sentindo, isso sem falar nas outras famílias aqui da cidade. Por favor, padre me ajude.

O Reverendo Bruno sentiu a sinceridade com a qual o policial estava falando e levantando-se pediu que este o acompanhasse. Ambos voltaram passando pelos corredores e pela nave central, em frente ao altar principal entrando em uma porta no outro canto do grande salão, no lado oposto ao que estavam; e subiram alguns lances de escada até chegar ao seu destino.

A torre dos sinos era a parte mais alta da igreja; de onde se podia enxergar muito além dos limites da cidade; o padre contornou cuidadosamente os grandes sinos de bronze e puro que atualmente nada mais eram que adornos para a torre, os sons de sinos escutados pelos fiéis das redondezas eram produzidos por poderosos alto falantes acoplados a um aparelho de som digital. Fernando também contornou os sinos e se apoiou na amurada da frente onde estava o padre.

_ Por que o senhor me trouxe aqui padre? _ Ele recomeçou.

_ Porque lá esta a única pessoa que pode te ajudar em um momento como esse.

Bruno apontou para uma direção intermediaria entre sua frente e sua direita; e Fernando quase não conseguiu ver; mas forçando sua vista o máximo que pôde para vencer a distância, ele observou aquele monumento que torna o Rio de Janeiro ainda mais belo, com seus braços abertos sobre a Baía da Guanabara; O Cristo redentor, quase do tamanho de um grão de arroz, por causa da distância.

_O Cristo Redentor?_ Perguntou o policial.

Bruno respondeu:

_Não a estatua; mas o verdadeiro.

O reverendo tomou novamente o controle da conversa, se antecipando ao próximo comentário incrédulo que o policial faria.

_ Se você foi realmente “visitado” como diz, só pode ter sido pelos servos, porque Gabriel não pode entrar nas casas alheias sem que o dono e somente o dono ou a dona da casa o convide a fazê-lo; mas veja bem, somente a casa é onde ele não pode entrar, o quintal, corredores laterais terraços e todo tipo de dependências não exercem nenhuma repulsa a ele.

Fernando não entendeu o que o padre estava falando.

_ Por que isso?

_Alguns vampiros obedecem a liturgias que para nós jamais foram de todo desvendadas.

As dúvidas se formavam na mente de Fernando com a velocidade de uma bala cortando o ar.

_ E quanto a esses servos de que você falou? O que são esses servos? Tudo que vi forma três homens em roupas rasgadas sujas cujo cheiro era muito desagradável.

Bruno coçou a cabeça rapidamente e prosseguiu:

_ São “Ghouls”; de algum modo ainda desconhecido para nós, essas criaturas como Gabriel conseguem transformar os vivos em coisas como aquelas. O padre Giovanne, que agora descansa em paz costumava dizer que eles fazem isso através de seu sangue e os chamava de servos do vampiro.

_ “Ghouls”?_ Mais dúvidas para o policial.

Percebendo a compreensível falta de conhecimento do policial para com o tema, o padre fez um resumo:

_ Esse nome vem do idioma inglês, é uma criatura que caminha pelos cemitérios violando túmulos e se alimentando de carne humana, no idioma português recebeu vários outros nomes como: Morto-vivo, Carniçal e zumbi; na Bahia chegou a se cunhar a expressão “papa-figo”, que seria uma criatura que rouba e consome fígados humanos. No fundo tudo isso é uma coisa só.

_Você está dizendo que aqueles três monstros que invadiram minha casa estão mortos?

_Não totalmente; grande parte do corpo deles está morto, mas não todo o corpo. Podemos considerar que estão meio vivos e meio mortos.

Fernando por uma fração de segundos se lembrou do que a filha disse: “Bicho papão”, e também lembrou da incrível força e agilidade que as criaturas possuíam.

_Como faço para matá-los? E por que eles são tão fortes?

Bruno ponderou um instante e continuou:

_ Não sei por que são tão fortes, estão presos ao seu criador por algum tipo de laço, alguns dizem que se trata de magia, outros dizem que é a vontade do mestre que os mantém; mas a prata pura tem um efeito estranho sobre eles, um tiro ou qualquer tipo de trauma causado em sua cabeça com uma arma de prata os deixa paralisados por alguns segundos; depois, quando recuperam os movimentos o processo de deterioração pelo qual estão passando tornasse mais rápido. Em suma, a prata acelera a destruição natural deles, e qualquer outra coisa usada para lhes causar dano é pouco eficaz.

O policial retirou a arma que carregava sob a camiseta e a colocou na amurada.

_ Depois do ataque de ontem à noite só me sobraram oito balas de prata, eu vi que eles eram em três criaturas, mas pode haver mais.

Bruno olhou para a arma sobre o parapeito.

_ E com certeza existem mais, Giovanne já “eliminou”, por assim dizer, dois seres como esses, e ao que tudo indica cada um deles teve alguma ligação não muito amigável com Gabriel que os aprisionou nessa forma como um modo de castigo; para servi-lo enquanto seus corpos agüentarem, ou pelo menos deve ser esse o seu pensamento.

Recolhendo novamente a arma e guardando sob a camiseta, Fernando esticou os braços como se estivesse se espreguiçando e contemplou a beleza da cidade vista de um dos pontos mais altos. Sentia como se estivesse no topo de um farol, mas não sabia o motivo de se sentir assim.

De repente uma nova dúvida surgiu na mente do sargento.

_ Padre, da primeira vez que estive aqui o senhor falou sobre a noite em que o padre Giovanne “se foi”, o senhor também disse que o coveiro José Firmino tinha sido envolvido nisso tudo; minha pergunta é: Como vocês podem tê-lo envolvido?

_ Vamos voltar lá para baixo _ Disse o padre já seguindo na frente, mas sem parar de falar._ Giovanne e eu abatemos outro ser como Gabriel, provavelmente da mesma “raça”, porém um pouco mais novo; coisa de trinta ou quarenta anos aproximadamente. Depois de o encerrarmos no caixão de prata confeccionado pelos artífices da Coroa Solar do Rio de Janeiro; esse caixão foi levado para o cemitério municipal de Mesquita e colocado dentro de um mausoléu que pertence a nossa ordem assim como tantos outros específicos para esse fim. A pedido de Giovanne que falou com o pobre José; lá a criatura estará presa até que a igreja resolva deixá-lo exposto ao sol, para que finalmente seja destruído. Mas de algum modo Gabriel descobriu e foi ao cemitério certificar-se de que seu desafeto estava realmente preso; e como Firmino foi o único dos coveiros que falou com Giovanne e sabia desse segredo ele o matou.

_ O coveiro sabia sobre toda esta história de Vampiros e mortos que andam?

_ Sim, sabia de tudo, mas só Firmino sabia, o outro nada sabe e nada saberá.

_Mas José Firmino não era ateu?

_ Era o que ele dizia, mas não era verdade, ele era católico. Um homem de muita coragem.

Eles desceram o primeiro lance de escada dos quatro que ligam a torre do sino à nave central da igreja; Após essa pequena explicação do reverendo sobre os fatos, Fernando se lembrou que precisava se encontrar com Marco no campo do Mesquita Futebol clube que na verdade não era muito distante da igreja, mas as dúvidas continuavam martelando em sua cabeça, ele poderia facilmente ficar o dia inteiro somente fazendo perguntas ao padre, mas sabia que as areias do tempo estavam contra ele, “o jogo” de Gabriel como o próprio reverendo tinha destacado já tinha começado, e ao anoitecer era provável que o monstro desce mais uma amostra de sua brutalidade.

_ Padre_ perguntou novamente o policial_ Como vocês prenderam o outro, digo, como o encontraram e venceram a batalha contra ele?

Bruno sorriu longamente e continuou descendo os degraus da escada, já estavam no terceiro lance.

_Não foi nada fácil_ começou Bruno_ só posso dizer que foi por pura providência divina, pois não acredito em sorte, nossos caminhos se cruzarem, Cícero era seu nome, ou pelo menos assim o chamavam; ele era extremamente cuidadoso, isso para não dizer meticuloso; ele não gostava de chamar a atenção como Gabriel, e é possível que escondesse suas vítimas, porque nunca encontramos nenhum rastro de que ele cometesse as mesmas atrocidades que seu rival. Levaria anos, talvez décadas para que a polícia notasse algo. Cícero e Gabriel estavam em batalha por território, e essa briga tornou-se uma guerra quando outros surgiram. Soubemos por meio de uma fonte ligada a Giovanne e muito fiel, que Cícero saía para atacar pessoas sempre nas noites sem lua; e em uma dessas noites nossos caminhos se cruzaram; finalmente pudemos atravessá-lo com uma estaca, após um elaborado plano arquitetado por Giovanne em conjunto com essa sua fonte que também era um colaborador dessa causa. Mas não se preocupe, outro dia eu te conto toda a história com muito prazer e com riqueza de detalhes; por hoje acho que é o suficiente.

Embora Fernando quisesse ouvir tudo naquele mesmo dia, eles haviam chegado ao fim do quarto lance de escada e agora estavam na nave central ao lado do altar principal; o policial estendendo a mão despediu-se do padre e saiu pela grande porta frontal. Já dentro do carro ele ligou o rádio apenas para relaxar um pouco no curto trajeto entre a igreja e o Clube de futebol.

*

Marco estava à beira do gramado e trazia na mão esquerda uma garrafa de quinhentos ml de água mineral com gás; já estava ali há algum tempo observando os minutos finais da primeira etapa do jogo entre os times locais Real Madri 0 e Benfica 1, mas o jogo não estava realmente prendendo sua atenção. Ele se perguntava por que Fernando estava se atrasando, quando viu seu amigo entrando pelo portão de grades que divide o campo da quadra, logo percebeu que algo estava errado, o sargento estava visivelmente abatido e ensaiava um manquejar da perna esquerda.

Fernando avistou Marco junto à linha lateral do outro lado acenando em sua direção e seguiu até lá.

Marco começou:

_ E aí camarada? Você não parece muito bem. Está doente?

Fernando se assustou com o lateral esquerdo do Benfica que passou correndo junto a eles, mas logo se recompôs.

_Precisamos conversar...; Muito.

Marco nunca tinha visto o amigo tão abalado e sabia que somente uma coisa muito grave faria isso com ele que geralmente se portava tão inabalável quanto uma rocha; ambos começaram a andar ladeando o campo junto à linha lateral, ele estava fechado como uma ostra e Marco visualizava uma grande mancha vermelho-arroxeada ao redor do pescoço de seu amigo, como se ele tivesse sofrido uma tentativa de enforcamento.

_ O que aconteceu?

Após passarem pela linha de fundo junto aos vestiários destruídos pela falta de empenho dos dirigentes do clube em reconstruir toda a estrutura do campo, eles se sentaram embaixo de uma árvore e Fernando começou a contar os acontecimentos da última madrugada e de suas duas conversas com o padre Bruno. Terminando a história com todos os detalhes ele levantou parcialmente a camiseta e deixou que Marco visse a arma, e do bolso direito da calça retirou uma das balas de prata entregando para a análise do parceiro.

_Acredita em mim? _perguntou.

_ Acredito sim, mas pensa comigo; talvez esse Gabriel seja um daqueles homens que ficam na praça nos domingos à noite ouvindo rock.

Fernando piscou algumas vezes como se quisesse espantar o sono que começava a se insinuar; e disse:

_ Não. Ele é exatamente o que eu estou dizendo que é.

Marco parou e pensou por um tempo, perguntando depois:

_ Tudo bem. E o que você pretende fazer?

_ Não sei _ respondeu_ Mandei Sarah e Paula para casa dos pais dela, lá em Niterói até isso acabar; não sei o que esperar.

_ Eu tenho uma teoria_ disse Marco_ Ele apresentou sua idéia de que Gabriel fazia suas vítimas nos domingos, e as escolhia na praça durante a festa enquanto os roqueiros estavam para cima e para baixo sem perceber o predador no meio deles. Como presas fáceis.

Fernando concordou que aquela idéia fazia realmente algum sentido.

_ Escuta _ disse o sargento se levantando_ Vou pra casa dormir um pouco, e caso você queira tirar essa história a limpo eu te encontro em frente à banca de jornais, assim que escurecer. E não esquece de estar preparado.

_Claro; te vejo lá.

Fernando voltou refazendo o caminho que tinha percorrido para chegar até aquela parte do gramado, passando novamente por trás do gol e pela linha lateral até desaparecer pelo portão de grades junto à linha de fundo, do outro lado do campo.

O jogo terminou em 2 a 0 para o Benfica; e Marco ainda aproveitou o restante da manhã para se reunir com alguns amigos em uma padaria próxima ao clube, se distraindo o suficiente para esquecer pelo menos por um tempo todas as revelações que ouvira a alguns minutos atrás. Depois de jogar bastante conversa fora, ele inventou uma daquelas desculpas bem esfarrapadas e voltou para sua casa, no intuito de buscar sua arma; para que assim que o sol sumisse por trás dos grandes montes ele fosse se encontrar com seu amigo no centro da cidade, mais precisamente, na praça. Mas ainda era manhã e faltava muito tempo para que caísse à noite, portanto, Marco resolveu pesquisar um pouco; afinal quem nunca viu um filme de vampiros; até quem não gosta já assistiu pelo menos um, e todos dizem coisas parecidas; estacas de madeira e a luz do Sol seriam as maneiras mais efetivas de eliminar essas ameaças sobrenaturais.

Um pensamento percorreu a mente do cabo; ele foi até o portão de sua casa e ficou observando algumas crianças jogando também seu futebol de domingo. _ acreditar em vampiros já é loucura – pensou – mas acreditar que eles existam em Mesquita era total insanidade. O pensamento dele estava dividido em duas partes; a primeira estava ansioso por chegar logo à noite para ir se encontrar com o amigo na praça e verificar que tudo isso não passou de uma seqüência de acontecimentos infelizes que se encaixaram por mero acaso, e que o homicida que tinha cometido todos aqueles assassinatos na verdade era um homem com sérios problemas psicológicos e nada mais. Porém, sua outra parte era muito mais mística e ela o dizia que o destino tinha realmente colocado em seu caminho uma criatura das sombras, para que essa criatura fosse perseguida e destruída por eles, ou talvez o contrário.

As horas do domingo começaram a correr como as areias de uma ampulheta, e Marco observava de dentro de sua casa impaciente e temeroso o Sol passando pelo céu; sem saber o que esperar da noite que viria trazendo seus mistérios e segredos mais antigos; a aparência de Fernando naquela manhã não o havia agradado nem um pouco, aqueles hematomas no pescoço do amigo, vermelhos quase roxo, como as marcas que ficam nas pessoas que são enforcadas ou que sofrem tentativa de estrangulamento; Marco em sua vida como policial já tinha visto ambos os casos dentre outras tantas atrocidades que não gostava nem mesmo de lembrar; e entre elas estavam com certeza as mortes de José Firmino e Giovanne Poggimarto que só vinham a comprovar a história contada por Fernando, embora fosse extremamente difícil acreditar que zumbis tinham se levantado de alguma sepultura nos arredores da cidade e ido tirar satisfações com um policial a mando de uma “criatura das trevas” que atendia pelo nome de Gabriel e tinha aproximadamente cem anos de idade.

*

Não demorou muito e o sol se escondeu por trás dos grandes morros; a noite começou a surgir sorrateira e silenciosa como os vultos e sombras que com ela vinham.

Fernando finalmente acordou, mas permaneceu deitado na cama mais um tempo olhando para o teto do cômodo e testando os movimentos dos braços e pernas; dos músculos em geral que antes daquela soneca doíam tanto. Uns dez minutos se passaram até que ele se levantasse lentamente da cama indo para o banheiro, a casa estava iluminada porque antes de dormir ele trocou as lâmpadas que haviam sido quebradas na madrugada anterior e tinha ligado todas as luzes, já prevendo que acordaria só ao anoitecer, no caminho checou o relógio de pulso que marcava sete horas da noite, havia acabado de escurecer Fernando chegou ao banheiro já previamente iluminado e se olhou no espelho sobre a pia; ainda constatava em suas feições sinais de cansaço, mas tinha recuperado energia suficiente para se por à rua em busca de Gabriel ou qualquer assassino perigoso do Rio de Janeiro; abriu a torneira da pia e ficou ali vendo a água cair por um tempo, depois levou as mãos juntas em concha aparando um pouco d’água e jogando no próprio rosto.

De volta ao quarto Fernando separou algumas roupas para usar; uma calça jeans bem surrada, uma camiseta branca que geralmente era usada na física dentro do Batalhão de polícia ou no futebol dos fins de semana, camisa essa que continha o brasão da polícia militar do estado do Rio no peito esquerdo; e uma jaqueta de couro preto com muitos bolsos interiores e exteriores; separou também um tênis Reebok não menos surrado que a calça e vestiu cada peça, mas antes de pôr a jaqueta por cima da camiseta ele colocou seu coldre peitoral com duas armas: uma arma comum com tambor de seis balas do lado esquerdo e a arma das balas de prata do lado direito do corpo. Finalmente vestindo a jaqueta que cobria tanto o coldre quanto às armas sem deixar suspeitas; no bolso pôs um crucifixo, que pertencia a sua esposa, só por precaução tomou também uma grande golada da essência de alho concentrada e partiu em seu carro para o centro de Mesquita.

Marco estava sentado em um dos bancos próximos da banca de jornal, a praça e seus arredores estava lotada de roqueiros; homens, mulheres, rapazes, moças, jovens e adolescentes e até meninos e meninas. Era o local perfeito para se escolher uma vítima desavisada, e o cabo olhava atentamente para cada um que passava por perto.

Já estava na praça fazia meia hora e tinha trazido sua arma para o caso de ter que se defender de alguém; logo que chegou, deu uma volta; passou por perto da passarela do rock que ficava a alguns metros da praça, onde geralmente havia a maior concentração de pessoas e o som era tocado a partir daquele local. Também confirmando parte de sua teoria, alguns daqueles roqueiros estavam usando uma maquiagem branca; na opinião de Marco todos eles poderiam se passar por vampiros tranqüilamente.

_Vampiros que fingem ser humanos se passando por vampiros_ sussurrou para si mesmo sem saber ao certo onde tinha escutado aquela frase.

Fernando chegou sorrateiramente tocando de leve a mão sobre o ombro esquerdo de Marco que continuava a aguardar sentado no banco de olho nas pessoas que passavam. O sargento não pronunciou palavra alguma, somente o cumprimentou com um leve movimento de cabeça e sentou-se ao lado do amigo; ambos olhavam à frente; finalmente Marco decidiu iniciar o diálogo:

_ O que estamos esperando aqui exatamente?

Fernando balançou a cabeça de modo negativo com um leve sorriso percorrendo seus lábios.

_ Não sei cara; algo suspeito ou inusitado, quem sabe até bizarro.

_ Zumbis?! _ continuou Marco.

_ Quem sabe.

_O que fazemos se encontrarmos esses zumbis aqui?_ era uma pergunta tola, mas pertinente.

Fernando colocou a mão na jaqueta bem sobre o coldre com a arma das balas de prata.

_ Vou enfiar uma dessas balas de prata no meio da testa dele.

O sargento se levantou e olhou ao redor.

_ Você quer uma bebida? Vou até o bar e já volto.

_ Quero sim.

_ Mas vou logo avisando, depois de ontem parei de beber álcool ao menos por uns tempos, trarei refrigerantes.

_ Faça como quiser.

Marco permaneceu sentado enquanto o amigo foi até um bar próximo à banca atravessando a praça, o bar já estava fechando, mas o dono vendeu duas latas de Coca-cola para Fernando que ao retornar percebeu estar sendo observado por um homem ao longe que procurava se esconder em meio às sombras. Parecia ser um homem de uma certa idade, mas talvez fosse tolice, talvez a mente do policial já o estivesse querendo trair.

_ Toma aqui Marco, seu refrigerante.

O tempo passou e ambos permaneceram sentados, primeiro por não saber como se portar numa situação como aquela; afinal de contas combater o crime e os criminosos era uma coisa, mas quando o criminoso bebe o sangue, enfeitiça suas vítimas e de quebra comanda “zumbis” extremamente fortes e ágeis, isso já é bem diferente. E segundo porque estavam esperando que Gabriel se mostrasse. Toda aquela situação parecia ser um episódio da série Arquivo X.

Mais horas se passaram e os dois policiais conversaram sobre vários assuntos, mas sempre atentos ao ambiente ao seu redor, nada de realmente estranho ocorreu. Por volta de meia noite não havia mais ninguém além dos roqueiros na praça, exceto é claro pelos dois policiais que permaneciam sentados, agora sem conversar mais nada; já tinham dito tudo e falado sobre muitos assuntos; parecia que nada iria acontecer e àquela hora da noite ambos já deveriam estar repousando para que na manhã seguinte se apresentassem às seis da manhã no batalhão de polícia para retomar seus trabalhos de patrulhamento ostensivo rotineiramente. Fernando já cansado da espera e pronto para dizer a Marco que fossem para casa olhou para cima, para o céu, de forma descontraída notando então que algumas nuvens noturnas estavam cobrindo a lua; ele se lembrou do que o padre disse pela manhã: “a outra criatura saía para caçar nas noites sem lua.”

_ Você pode ir para casa se quiser._disse Fernando se voltando para Marco.

_ Acho que vou mesmo, você vai ficar bem?

_ Claro. Só vou esperar mais um pouco e caso nada ocorra também sigo para casa.

Marco então se levantou e atravessou a praça seguindo na direção da Rua Emílio Guadany, acenando de longe para o companheiro sentado no banco. Enquanto andava ele pensou em como poderia ajudar o amigo sem ficar louco, afinal ainda não havia visto algo que comprovasse a história contada pelo sargento, com seus próprios olhos, muito embora, no fundo no fundo de sua pessoa ele sentisse realmente que algo ruim pousara sua mão sobre Mesquita.

O rock continuava a soar firme como no início da noite, agora com uma concentração muito maior de garotos, garotas e jovens roqueiros em geral. Fernando não tirava os olhos de todos aqueles que estavam juntos as grandes caixas de som próximas à passarela localizada a alguns metros da praça; dessa distância era possível ver a movimentação que até então parecia normal, mas alguns dos jovens começaram a correr em sentido divergente à praça, depois outros mais se juntaram aos primeiros; aquilo poderia ser uma briga, mas Fernando resolveu averiguar.

Levantando-se do banco, ele caminhou discretamente na direção da passarela, e ao se aproximar percebera que algo realmente errado estava acontecendo; um rapaz perguntava enquanto outros corriam, o que estava acontecendo; um pequeno tumulto já havia se formado e Fernando se enfiou no empurra-empurra tentando abri caminho para o outro lado da multidão.

Finalmente alguém ali gritou:

_ É a Pricila!

Ao passar pela correnteza de jovens, Fernando viu junto ao meio-fio da calçada uma adolescente, aparentemente uns quinze ou dezesseis anos, com uma saia preta e uma camisa de uma banda que ele não conhecia, estirada no chão; ele se aproximou e tentando afastar conhecidos da menina, percebeu que duas coisas marretaram sua mente como machados, a primeira, era que a pobre menina estava pálida como se seu rosto tivesse sido mergulhado em pó de arroz, porém suada, e a segunda eram dois pequenos filetes de sangue que escorriam no pescoço da jovem.

_ Alguém chame ajuda! _ gritou Fernando a plenos pulmões tomando a menina nos braços retirando-a do chão.

O som outrora altíssimo agora estava bem mais moderado; um rapaz se apresentou como sendo conhecido dela e outro surgiu momentos depois dizendo ser o namorado da vítima; eles pediram que Fernando levasse a menina para dentro do “BAR” até que o socorro chegasse. Em meio ao tumulto Fernando levou-a para dentro do estabelecimento.