Capítulo 9

Marco andava pela rua, estava agora se aproximando do cruzamento entre Emílio Guadagny e a Avenida Manuel Duarte; do seu lado da calçada bem na esquina havia uma padaria fechada, por causa do horário, mas tanto a calçada quanto as ruas estavam semi-iluminadas; a luz do último poste não era suficiente para chegar até a padaria que por sua vez não possuía a iluminação própria em sua frente, na verdade até tinha, mas as lâmpadas estavam quebradas por causa dos vândalos que rodavam pelas noites fazendo badernas. Nas madrugadas de final de semana em Mesquita as ruas raramente ficavam totalmente vazias, sempre havia algumas almas vagando prontas para se encontrarem com aquilo que julgavam ser seu destino, ou pais de família alcoolizados voltando para casa, ou jovens vândalos também alcoolizados destruindo lâmpadas, ou simplesmente pessoas que procuravam fazer o mal; geralmente essas são às presas preferidas de um predador astuto, mas naquela noite não, a fera havia sentido o cheiro do caçador e estava em posição de infligir um golpe mortal.


Marco tinha colocado o pé direito na rua quando uma ponta de dor atravessou sua cabeça rapidamente seguida de uma leve tontura não menos rápida; ele atribuiu tal desconforto ao cansaço, mas estava enganado.

Aquela voz rouca, porém tranqüila surgiu às suas costas junto com uma leve lufada de vento que também o açoitara.

_ Marco. _ Disse a voz, completando.

Marco se virou num sobressalto e encarou a figura parada bem à frente da padaria; um sujeito todo em trajes negros, uma calça provavelmente de linho ou outro tecido fino, uma camisa também de linho e um blazer de um tipo grosso de tecido; o estranho estava com as mãos nos bolsos e usava um fino, porém visível cordão dourado sobre as roupas. Como era possível aquele estranho estar parado ali se não havia ninguém naquele cruzamento um segundo atrás? O homem sorriu levemente.

_ Acho que vocês estão procurando por mim. _ Disse o estranho com sua voz rouca e com um sotaque levemente estrangeiro.

Marco estava abismado com a repentina aparição do homem, e reparava em cada detalhe que o pudesse incriminar como sendo o psicopata que atacou o coveiro José Firmino e o padre Giovanne; enquanto isso aquela figura sombria o encarava friamente; quando seus olhos se cruzaram, Marco teve uma sensação não muito boa seguida novamente pela aguda dor de cabeça que sentira a poucos instantes antes do estranho surgir.

_Como você sabe meu nome?_ Perguntou Marco dando alguns passos na direção do homem.

O estranho tirou a mão direita do bolso deixando transparecer um grande anel dourado no dedo mínimo e passou-a nos longos cabelos negros cujo comprimento passava alguns centímetros dos ombros.

_ Acho que é uma troca._Disse o estranho deixando de acariciar os próprios cabelos.

_ Você sabe o meu nome, e eu sei o seu.

Marco estava se esforçando para entender as palavras do estranho, mas não conseguia.

_ Eu não sei o seu nome._Retrucou Marco._ Eu nunca vi você antes.

O homem estreitou os olhos de modo ameaçador.

_ Já dei um aviso ao seu amigo, mas parece que não adiantou, então vou fazer o mesmo com você na esperança de que desistam de me procurar. Afastem-se de mim e viverão.

Neste momento a mente de Marco juntou as peças e ele começou a entender as coisas, ou pelo menos achou que estava entendendo; por esse motivo lançou rapidamente mão da arma que carregava e apontou na direção do estranho.

_ O que você fez com Fernando? _ Perguntou Marco trêmulo.

O homem deu um passo na direção da arma com um sorriso leve nos lábios.

_ Diga a seu companheiro que não gosto de ser observado, e que os servos que enviei são só uma amostra do que posso fazer.

O homem de preto avançou mais dois passos na direção de Marco de modo que o cano da arma encostou em seu peito, mas ele não parecia considerar o revólver uma ameaça; Marco queria correr ou pelo menos recuar, mas suas pernas haviam travado tamanha era a tensão que sentia, elas simplesmente não obedeciam.

_ Afaste-se de mim. _ Ordenou Marco tentando passar o máximo de confiança e coragem que conseguiu reunir, mas parecia não ser o suficiente para amedrontar e nem mesmo intimidar o homem que ao perceber a tentativa frustrada do jovem policial recuou um passo sorrindo e ergueu as mãos de modo irônico como se estivesse sendo preso.

_ Ora. _ Disse. _ Você tem uma arma e parece confiar muito nela. _ Ele começou a abaixar lentamente os braços e o sorriso que mantinha no rosto há poucos segundos sumiu inteiramente dando lugar a uma expressão séria e muito sinistra.

_ Sabe quantos homens carregando armas eu já matei? _Continuou._ você ficaria surpreso.

Embora já tivesse atirado muitas e muitas vezes durante o exercício do seu trabalho de servir e proteger os cidadãos não só de Mesquita como também do Rio de Janeiro, Marcos estava com medo de não ter coragem para puxar o gatilho, medo de atirar e constatar em seguida que o tiro não surtiu efeito ou pior, perceber que Gabriel havia se esquivado da bala como aconteciam em tantos filmes do cinema.

Novamente aquela fina dor de cabeça.

_ Atire e tire sua dúvida; veja se eu vou me esquivar ou se vou me regenerar bem diante dos seus olhos depois corra, corra como se o próprio diabo estivesse atrás de você, porque embora eu precise que você dê o recado ao seu superior ainda posso lhe ferir de modo brutal. Sorte sua eu já ter me alimentado essa noite.

Foi nesse momento que Marco percebeu que a pele de Gabriel não era, ou melhor, não estava pálida com descrevera o coveiro, mas sim corada, corada até demais.

Mas o desespero já tinha se instalado na mente de Marco, porque há pouco a criatura Gabriel tinha dado uma amostra do que realmente era capaz ao ler seus pensamentos quanto a atirar nele.

Passos surgiram às costas do policial; obviamente duas pessoas se aproximavam, Gabriel desviou o olhar visualizando por sobre o ombro de Marco que continuava apontando a arma em sua direção, depois voltou a encará-lo.Um forte cheiro desagradável invadiu as narinas do jovem policial armado e ele foi surpreendido com um poderoso murro pelas costas na altura das costelas do lado direito do corpo; o impacto fora tão forte que o arremessou contra as portas da padaria localizada a cerca de dois metros do ponto de onde estava. Ao se chocar com a porta Marco soltou a arma e se encolheu na posição fetal, havia com certeza quebrado algumas costelas; a dor era lancinante. Erguendo a cabeça a fim de ver quem desferira tão violento golpe ele se deparou com duas das criaturas mais horrendas que nunca tinha visto; os zumbis citados por Fernando, pessoas vestindo farrapos de roupas tão podres quanto eles e com feições quase esqueléticas, mas com uma enorme força.