Capitulo 2 B



A manhã de sábado estava se encaminhando para o fim quando a viatura estacionou na frente da escadaria da igreja localizada na Rua Paraná.
_ Vamos terminar logo com isso por aqui e voltar ao batalhão, meio dia acaba o nosso serviço, e aí é só aproveitar o resto do sábado e o domingo em casa, retornando com as coisas na segunda bem cedo._Marco disse abrindo a porta do motorista.
_ Vamos subir _ propôs o sargento seguindo na frente _ E traga o passaporte que achamos lá no cemitério.
Marco pegou o documento e subiu logo atrás do amigo, e conforme ele galgava os degraus, ia se tranquilizando aos poucos. Lá em cima, a igreja era tão bela e grande quanto antiga e estava na cidade desde a sua fundação ainda como uma espécie de povoado, quase um século atrás, talvez até antes; e do ponto mais alto dela, era possível ver além dos limites da cidade; se a pessoa possuísse uma boa visão poderia até enxergar além das outras cidades, em qualquer direção exceto é claro olhando para as montanhas do lado oeste do município.
O encarregado dessa paróquia no momento era o jovem padre Giancarlo Bruno, nascido na Itália, mas vivendo no Brasil desde muito jovem; agora ele possuía quarenta e dois anos de idade, era muito respeitado por toda a comunidade católica e não católica não só de Mesquita como das cidades vizinhas como Nova Iguaçu e Nilópolis também.
Logo que os policiais chegaram ao topo das escadarias, foram recebidos pelo próprio padre, trajando suas tradicionais vestes de sacerdote; as roupas todas em preto, calça e camisa social, com o pequeno e característico detalhe no colarinho em branco.
_ Padre._ se adiantou Fernando cumprimentando-o, enquanto marco apenas acenou com a cabeça.
O padre abriu os braços como se fosse acolhê-los, exibindo um sorriso muito terno e cativante.
_ Em que posso ser-lhes útil meus amigos_ disse o reverendo _ Eu nunca os vi nas minhas missas, ou será que estou enganado?
O padre sinalizou com a mão, indicando para entrarem na igreja.
_O senhor é o padre Bruno? _ Perguntou Fernando ao entrarem.
_ Sim, e vocês são?
_ Somos policiais, e estamos fazendo uma patrulha especial que vai ajudar na investigação a respeito das mortes estranhas que vêm assolando o nosso município; como a do coveiro José Firmino aqui em suas escadarias.
_ Entendo.
_ O que o senhor acha que aconteceu? O senhor chegou a falar com Firmino naquele dia?
_ Sim, falei sim; mas o que ocorreu com ele, não ocorreu aqui.
_ Então como o senhor explica o corpo dele ter sido encontrado aqui na frente da sua paróquia?
O padre fez um novo sinal.
_ Vamos conversar lá dentro, por favor, não quero perturbar as pessoas que estão aqui com esse assunto desagradável. O padre apontou o caminho e seguiu acompanhado de perto por Fernando, mas Marco parou por um momento olhando ao seu redor, e viu algumas senhoras sentadas em pontos separados da grande e ornamentada nave central da igreja, outras pessoas de joelho estavam fazendo seus pedidos e preces secretamente; e quando se deu conta tanto Fernando quanto o padre tinham desaparecido, então ele próprio sentou-se e começou a fazer os seus pedidos.
Havia uma espécie de escritório dentro da igreja, era uma sala relativamente pequena se comparada com a nave central, porém arrumada; possuía poucos móveis, somente uma pequena mesa de madeira rústica e antiga, do tipo que não se encontra mais para vender nas lojas, com uma cadeira colocada atrás e outra na frente para os visitantes ou no caso, um único visitante; do outro lado da sala havia uma janela pequena por onde o Sol passava fartamente iluminando todo o cômodo, e Junto à janela estava uma estante com várias prateleiras e diversas fotos, alguns troféus e diplomas emoldurados dispostos de forma bastante organizada; atrás da cadeira do padre estava uma porta entreaberta que o sargento não conseguiu distinguir o lugar para o qual levava. O padre se sentou na cadeira atrás da mesa e sinalizou para que o policial tomasse acento na outra à sua frente.
_ Como eu dizia _ Retomou Bruno _ Eu pedi para que o pobre José saísse da cidade o mais rápido possível; mas ele não me deu ouvidos.
_ Por que o senhor pediu isso a ele?
_ Ele veio me procurar dizendo que tinha se deparado com Gabriel.
Fernando se espantou, pois obviamente esse nome poderia pertencer ao assassino, que por sua vez devia ser conhecido ou do padre ou do coveiro morto.
_ Quem é Gabriel?
O padre pareceu ponderar por um segundo antes de responder.
_ Se eu lhe contar, você não vai acreditar.
Fernando não entendia o motivo de o padre estar fazendo aquele jogo de adivinhação.
_ Experimente me contar padre; pessoas foram mortas e com certeza esse maníaco vai continuar com isso se alguém não o impedir.
O reverendo apertou os olhos com os dedos polegar e indicador da mão esquerda, como que para espantar uma dor de cabeça eminente.
_ Tudo bem; vou tentar ser o mais direto possível.
_ Comece dizendo quem é Gabriel?
O padre abriu um das gavetas de sua mesa e retirou uma pasta, entregando-a nas mãos do policial; que ao abri-la visualizou vários documentos, dos quais um plastificado chamou mais sua atenção por se tratar de uma certidão de nascimento datada de 1903.
_ O que significa isso padre?
_ Essa e a certidão de nascimento de Gabriel Weldher; segundo consta nesses outros documentos ele nasceu aqui nessas terras cem anos atrás e foi levado por seus pais para a Alemanha que era a pátria deles, ainda com meses de vida. Não sabemos quando aconteceu e nem como, mas em algum lugar desses últimos cem anos ele se tornou um “deles”, a julgar pela aparência que ele tem, é provável que tenha acontecido entre as décadas de vinte ou de trinta; é impossível precisar uma data. A Santa Madre Igreja tem empenhado um grande esforço para sufocar o avanço dessas criaturas e exterminar a raça deles há séculos, mas é muito difícil; algumas pessoas dizem que eles são nossos predadores naturais e embora estejam sempre em menores números do que nós; usam o tempo e muita astúcia para nos vencer.
Fernando arregalou os olhos e passou as mãos pelo rosto numa tentativa de digerir o que estava escutando, depois olhou fixamente para o padre Bruno.
_ Espere aí, só um momento; do que o senhor está falando afinal?
O padre juntou as mãos sobre a mesa e inclinou-se à frente encarando Fernando.
_ Ouça o que tenho a dizer _ Recostou-se novamente _ Há algo nessa cidade, algo grande que está atraindo um grande número dessas criaturas antinaturais, e Gabriel considera que estes são seus domínios por sua antiga família mortal ter sido dona de grande parte dessa região no passado.
O sargento agora com as mãos colocadas na nuca e os cotovelos apoiados na mesa não conseguia entender uma só palavra do que estava sendo dito. Que negócio era esse de “Criaturas antinaturais”?
_ Por favor, padre; pare com essa linguagem técnica de sacerdote e fale de modo que um leigo como eu possa entender.
Bruno ponderou por um tempo procurando um modo de exemplificar o que estava dizendo, e finalmente achou:
_ Imagine um quarto totalmente escuro com uma única vela acesa no centro, é assim que esses seres estão vendo o Rio de Janeiro agora, embora eu não saiba o motivo disso estar acontecendo, acho que nem mesmo eles sabem ao certo. O fato é que eles estão se dirigindo pra cá, com isso muitos terminam se instalando aqui em Mesquita. _ Mas e o que isso tem a ver com esse tal Gabriel?
_ Ele acha que seu território foi invadido e com isso começou uma; como direi, retaliação; está matando mortais para que os outros imortais saibam que ele não está satisfeito com essa invasão. E Acho até que ele tem destruído também alguns de sua própria raça, mas isso não é nenhuma surpresa; perceba, ele não é o primeiro e nem será o último a fazer isso.
Com os olhos ainda arregalados e já sem paciência Fernando disse:
_ Como assim não é o primeiro? Que conversa é essa de mortais e imortais? Onde o senhor quer chegar com toda essa baboseira afinal?
Bruno se levantou da cadeira e foi até a janela de onde continuou falando enquanto olhava fixamente por ela.
_ Eles são uma raça como a nossa; você por um acaso já viu uma raça composta por um único indivíduo? Claro que não. Nós abatemos outro aqui e ao que tudo indica não era amigo de Gabriel.
Fernando também se levantou e foi até a estante observar algumas fotos e diplomas que estavam expostos ali, logo deparou-se com uma foto que chamou sua atenção; nela dois rapazes abraçados faziam pose para a câmera que imortalizou aquele momento que parecia ser de extrema felicidade, ambos trajavam as características vestes dos sacerdotes católicos como as que o próprio reverendo estava usando enquanto fazia seu relato ao policial. O padre da direita, por sinal era o próprio Bruno, com uma mão acenava para a máquina e com a outra abraçava o amigo; e o da esquerda; nesse momento Fernando começou a pensar que as coisas estavam no fundo fazendo um mórbido sentido; tratava-se do corpo que encontraram no cemitério cujo nome era Giovanne Poggimartro. Eles estavam em um lugar movimentado com colunas a céu aberto como um gigantesco templo romano e por trás de si um grande obelisco ao centro e uma enorme catedral ao fundo.
_ Padre! _ chamou Fernando voltando-se para ele que já o observava _ Por que não me disse que conhecia esse homem. Que ligação vocês tinham?
Giancarlo Bruno sorriu levemente.
_ Esse era o padre Giovanne, era ele quem costumava fazer o trabalho de campo e foi ele quem abateu a outra criatura de que estou te falando.
_ O suposto inimigo de Gabriel_ completou o policial.
_ O que você está vendo é a Praça São Pedro, no Vaticano, e aquela é a Basílica de São Pedro; essa foto foi tirada pouco depois de sermos ordenados membros da Ordem da Coroa Solar.
Ele exibiu um anel trabalhado com emblema de uma coroa solar colocado no dedo mínimo da mão direita.
_ Vai começar tudo de novo? Que diabos é Coroa Solar?
Fernando balançava a cabeça negativamente como se o padre parado na sua frente fosse na verdade um maluco.
_ Congregatio Clericorum Verbi Divini ou Congregação de Clérigos do Verbo Divino; este é o nome da coroa Solar, uma união formada por Padres, Bispos, Arcebispos e Cardeais latinos de vários lugares do mundo que se comprometeram a participar dessa batalha, para tentar acabar com as matanças. Giovanne e eu nascemos na Itália, mas crescemos aqui no Rio, onde começou nosso interesse pelo sacerdócio, depois quando já éramos padres fomos ao vaticano para tentar nos tornarmos membros dessa “fraternidade” e aqui estou de volta. Aí começou a guerra de verdade, mesmo com os sete anos de intensa preparação que nós recebemos, acredite quando digo que nada, nenhum treinamento ou aprendizado no mundo prepara realmente o coração, a alma e a mente de um homem para se confrontar com essas criaturas, parece que cada vez que nos encontramos eles estão mais ferozes, enquanto que nós vamos ficando mais fragilizados. Acho que por isso Giovanne cometeu tamanho erro.
Fernando se sentou novamente, perguntando:
_ Como assim?
O padre também se sentou antes de prosseguir.
_ Após abater um deles, a recomendação é suspender outras caçadas por no mínimo dois meses, isso dá uma falsa sensação de segurança para os outros monstros, pelo menos os mais novos, neófitos como são chamados, e, ainda serve de tempo de recuperação para nós. Mas quando José Firmino morreu, Giovanne se sentiu tão culpado por tê-lo envolvido nisso que perdeu o controle; Gabriel deixou o pobre coveiro aqui na escadaria como uma espécie de afronta para conosco. Eu tentei dissuadi-lo a não ir ao cemitério naquela noite, mas não teve jeito, ele recolheu seus pertences e saiu decidido a por um fim no confronto. Bem, o resto você já sabe.
Agora Fernando se levantou de novo e foi até a janela, pois estava inquieto com toda essa história.
_ Em poucas palavras padre. Quem é Gabriel Weldher?
Bruno sorriu daquela maneira tranqüilizadora novamente e disse:
_ Farei melhor, direi em uma frase. Gabriel é um vampiro.
O policial piscou algumas vezes e desmoronou em uma gargalhada deixando clara toda a sua incredulidade para com os fatos. Bruno o observava tão impassível como se estivessem conversando sobre o fim dos tempos.
_ Com todo respeito padre, o senhor é maluco. Eu vou embora.
Ao se virar para deixar o pequeno escritório, Fernando foi chamado pelo reverendo; quando se voltou para o sacerdote, viu que ele tirava de dentro de outra gaveta de sua mesa duas caixas pretas de tamanho médio; uma contendo uma arma, um revólver calibre trinta e oito igual ao encontrado no cemitério, e da outra caixa retirou doze balas de prata pura; depois tirou um pequeno recipiente contendo um líquido translúcido como água, porém mais espesso e esquisito.
_ Você é jovem, tem família _ disse_ Tem muito mais a perder do que eu. Por favor, aceite esses itens e leve-os consigo.
_ O que são essas coisas? Balas de prata, mas isso não seria para lobisomens?_ disse Fernando de modo irônico_ O senhor pode ter armas aqui na igreja?
Bruno recolocou tudo dentro de suas caixas e as entregou para Fernando que mesmo sem querer, mesmo sem acreditar; as aceitou.
_Balas de prata_ disse Bruno_ São para os servos de Gabriel; eles temem a prata por algum motivo escuso, embora eu desconfie o que seja. E esse líquido aí é essência de alho concentrada, uma mistura que segundo consta foi desenvolvida há muito tempo atrás por habitantes indígenas de Mesquita, eram chamados de Jacutingas.
_ Para que eu vou querer suco de alho?
_ Dê um gole disso a quem você deseja proteger, ou beba você mesmo; o gosto é horrível, mas pode salvar sua vida.
O sargento, sempre acostumado com a maldade e a bandidagem do Rio de Janeiro: assaltos, roubos, tráfico de drogas e assassinatos; agora se via diante de todo aquele papo furado sem sentido, mas algo dentro dele dizia que seria melhor que não desprezasse os itens que estava recebendo ainda que fosse para os colocar dentro de alguma gaveta ou armário lá no batalhão de polícia. Queria sair logo daquela igreja, voltar ao Batalhão, recolher suas coisas e aproveitar o restante do sábado com sua esposa Sarah e com sua linda filha de quatro anos; Paula, como tinha planejado.
Quando passou pela grande nave central, ele viu Marco ajoelhado com a cabeça colocada no acento do longo banco de madeira pedindo fervorosamente algo. Fernando parou ao lado do policial ajoelhado e disse que o esperaria no carro. Minutos depois Marco estava entrando na viatura e partiram para o vigésimo Batalhão de polícia militar.
_ E então? Como foi lá com o padre? _ perguntou Marco.
Fernando balançou a cabeça novamente de modo negativo ao responder:
_ Aquele cara é louco, o tempo todo ele passou falando de “criaturas antinaturais”, e não sei o que lá sobre Mesquita ser uma vela e coisas desse tipo.
_ Parece estranho pra mim.
_ É eu sei, vamos logo para o Batalhão; eu quero pegar umas coisas antes de ir para casa. Segunda-Feira continuamos de manhã bem cedo.
Uma hora da tarde, Fernando já tinha ido para casa, depois de combinar com Marco que no domingo de manhã se encontrariam no campo do Mesquita Futebol Clube para ver algumas partidas do campeonato local e se divertir com outros amigos.